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Opinião
Ângelo Ferreira, antigo presidente da Associação Académica da UA, e Constâncio da Conceição Pinto, antigo líder da Frente Clandestina do Conselho Nacional da Resistência Maubere
Qualquer dia aquelas montanhas serão nossas!
Ângelo Ferreira e Constâncio da Conceição Pinto
A 12 de novembro de 1991 a luta do povo timorense pela independência ficava marcada pelo massacre do Cemitério de Santa Cruz, em Díli, que provocou uma onda de indignação e de ações de contestação à ocupação indonésia. Na Universidade de Aveiro, Ângelo Ferreira assumiu-se, desde a primeira hora, como um dos defensores da causa timorense em Portugal, o que aprofundou quando foi presidente da Associação Académica. Em Timor-Leste, Constâncio da Conceição Pinto (“Terus”), à época líder do Movimento Clandestino do Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM), teve um papel decisivo nas ações que antecederam o massacre. Em artigo de opinião conjunto, os dois antigos líderes recordam hoje o dia que há 24 anos marcou o início do caminho que levaria à independência de Timor.

Presidente da Associação Académica da UA entre 1996 e 1999, Ângelo Ferreira foi, entre 2001 e 2004, representante da Fundação das Universidades Portuguesas em Timor-Leste e, já na academia de Aveiro coordenador-adjunto da reestruturação do Ensino Secundário Geral em Timor-Leste. Atualmente, é assessor na Reitoria e Doutorando no Departamento de Educação.

Constâncio da Conceição Pinto (“Terus”) foi líder do Movimento Clandestino do CNRM e, mais tarde, representante daquele Conselho na ONU e nos EUA. Depois da restauração da independência foi embaixador de Timor-Leste nos EUA, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação e vice-ministro do Comércio, Indústria e Ambiente. Atualmente Constâncio da Conceição Pinto é Ministro do Comércio, Indústria e Ambiente de Timor.

 

Qualquer dia aquelas montanhas serão nossas!

Naqueles dias de outubro de 1991, um grupo de jovens pró-independência, que preparava manifestações para a visita de parlamentares portugueses, refugiou-se na residência do pároco de Motael (bairro de Díli, em frente da baía).

Recentemente, um desses jovens, tinha acompanhado o Bispo Ximenes Belo, a seu pedido, em viagens ao interior. Era aluno do secundário, mas faltava muito às aulas, justificando-se a D. Carlos que mais valia “perder o exame do que perder a independência”. Numa dessas viagens, a Maliana, conta, «nas curvas da estrada de Hatolia, ao divisar, ao longe, as montanhas de Lahurus, no então Timor indonésio, dizia, cheio de orgulho: “Amo, qualquer dia, aquelas montanhas serão nossas!”»

Sebastião Gomes estava longe de imaginar que teria um papel tão determinante na luta pela independência, pois brevemente, na noite de 27 para 28, elementos dos serviços secretos indonésios e timorenses pró-Indonésia invadiriam com violência os espaços da igreja de Santo António de Motael, resultando, do confronto, a sua morte e a de outro jovem timorense, este favorável à integração.

No dia 12 de novembro, bem cedo na madrugada quente e húmida de Díli, era realizada, como é tradição em Timor-Leste, uma missa de décimo quarto dia pela sua alma. No final, uma multidão de mais de duas mil pessoas rumou ao Cemitério de Santa Cruz para homenagear o Sebastião. Pelo caminho, já os jovens haviam exposto as suas tarjas com gritos de revolta, exigindo liberdade e independência. A tensão era enorme. À entrada do cemitério os militares indonésios começaram a disparar sobre as pessoas indefesas, matando outros à baioneta e pancada. Muitos foram capturados e torturados posteriormente. Alguns nunca apareceram.

O episódio, que correu o mundo nas imagens de Max Stahl (jornalista inglês), ficou conhecido como o Massacre de Santa Cruz, um acontecimento crucial para a afirmação internacional dos direitos do povo timorense contra a ocupação ilegal e sangrenta.

 

Aveiro com Timor-Leste

Estávamos no início dos anos 1990 quando percebi que tinha com um colega de curso na Universidade de Aveiro, o Joaquim Peixinho, infelizmente já falecido, um interesse mútuo no problema de Timor. Decidimos fazer o que estivesse ao nosso alcance, começando por solicitar aos professores para falar 2 minutos no início das aulas, pedindo aos nossos colegas de academia que se informassem e se envolvessem na causa, falando do tema, em particular, nas idas ao estrangeiro.

Quando soubemos do Massacre de Santa Cruz, ficámos revoltados e decidimos agir com rapidez, convidando os estudantes a manifestar-se numa marcha noturna pela cidade, silenciosa, de velas acesas, encabeçada por uma tarja com o lema “Timor! Chega de mortes!”. Não sei ao certo em que dia a marcha teve lugar, mas descobri recentemente um “Jornal de Aveiro” (já extinto) do dia 12 de dezembro de 1991 que a noticia. Diz o artigo que participaram apenas duas centenas de estudantes dos 4 mil da época. Hoje, olhando para trás, e considerando que poucos acreditavam na possibilidade de a independência vingar, até sinto que foram muitos. Partilharam ainda a profunda consternação e comoção pessoas da região, alguns timorenses, e ainda o último Governador português, Lemos Pires, com o qual falei nessa noite. Pediu-me que não desistíssemos dos timorenses.

A partir daí, e até à independência, não pararam as iniciativas em prol da Causa Timorense, quer organizadas pelos estudantes, quer mesmo pela Reitoria, destacando-se o apoio dos antigos Reitores Renato Araújo e Júlio Pedrosa. Mais tarde, quando fui Presidente da Associação Académica, pudemos, especialmente com empenho do Miguel Oliveira, do Artur Castro e Daniel Mendes, ampliar as nossas ações, das quais destaco a vinda do Bispo Ximenes Belo, recém laureado com o Prémio Nobel, à Universidade de Aveiro para uma palestra e lançamento da campanha “Bolsas para Timor”. Após a restauração da independência, o empenho da UA manteve-se, agora no desenvolvimento do País, com forte apoio dos reitores Isabel Alarcão, Helena Nazaré e Manuel Assunção. Terá sido uma gota de água no oceano, mas do lado da corrente de grandeza e dignidade com que os verdadeiros heróis, os timorenses, conquistaram o seu direito à liberdade.

 

De dentro do movimento clandestino (testemunho de Constâncio Pinto)

Em dezembro de 1988, Xanana despartidarizou a luta pela independência e criou o CNRM (Conselho Nacional da Resistência Maubere), procurando unificar todas as sensibilidades sob o mesmo chapéu. Consequentemente, em 1990, é realizada uma reunião extraordinária do Comando Superior da Luta,  em Aitana, para reestruturação do CNRM, inclusive para formalizar a saída de Xanana Gusmão da FRETILIN e para criar uma Comité Executivo da Frente Clandestina. Coerentemente, eu avancei para a criação desse Comité do movimento clandestino sob a alçada do CNRM. Numa certa noite de julho de 1990, líderes dos grupos clandestinos reuniram no Externato S. José, em Díli, para o criar e eleger a sua liderança.

Fui eleito Secretário do Movimento, tendo sido escolhidos José Manuel Fernandes (“Makfilak”), como Primeiro Vice-Secretário, e Donaciano Gomes (“Buras”), como Segundo Vice-Secretário. Porém, menos de um ano depois, os indonésios apreenderam documentos que me identificavam e denunciavam o meu nome de guerra: “Terus”. No dia 25 de janeiro, fui capturado, preso e torturado.

Depois de ter sido libertado da prisão, em fevereiro de 1991, começámos a preparar-nos para a chegada da delegação parlamentar portuguesa a Díli, o que deveria ocorrer no final de maio. Tinha levado dois anos até que Portugal e a Indonésia se entendessem acerca da visita, uma vez que a Indonésia exigia uma paragem da delegação em Jacarta, algo que os portugueses não queriam, pois poderia ser vista como um reconhecimento da ocupação. Xanana e os outros membros da Resistência decidiram que era melhor Portugal aceitar, pois o fundamental era garantir que chegassem a Timor-Leste. Portugal concordou. Porém, desacordos sobre pormenores levaram a sucessivas remarcações na agenda, levando a que a data final ficasse para 4 de novembro.

Por mais de um ano, essa visita fez parte das orações diárias do povo timorense, pois todos sabiam que, para além dos deputados, viriam representantes das Nações Unidas, altos dignitários internacionais e jornalistas. Se não resultasse em mais nada, pelo menos havia a esperança de que ela ajudasse a reduzir a repressão de que éramos vítimas. Sob a minha liderança, o movimento clandestino tinha tudo bem preparado para os receber com pompa e circunstância, com uma grande cerimónia, algo muito formal, uma recepção em massa, com todos a cantar, criando um momento de alegria e satisfação.

Tínhamos planeado manifestações e festas em todas as cidades maiores, até mesmo no enclave de Oecussi. Todos saudariam efusivamente os portugueses. Preparámo-nos para o melhor, não para o pior. À medida que a data se aproximava, o clima começava a ficar muito tenso, com os militares indonésios a ir de casa em casa dizer às pessoas como se deviam comportar e a lançar uma campanha de intimidação, ameaçando de morte aqueles que se atrevessem a prejudicar a imagem da Indonésia. Chegaram mesmo a abrir valas comuns em várias localidades para deixar no ar um aviso claro. Entretanto, no meio desta confusão, eu e a minha namorada decidimos casar-nos a 15 de setembro, mesmo sabendo que as nossas vidas não seriam fáceis e que os indonésios me tinham debaixo de olho.

No final de outubro, correu a notícia de que havia sido cancelada a visita da delegação parlamentar portuguesa. A Indonésia opunha-se à ida de um determinado jornalista na delegação e os portugueses deixaram-se vencer pelo orgulho, cancelando a missão, o que foi visto como uma vitória indonésia. As pessoas ficaram realmente zangadas e desapontadas.

Os indonésios intensificaram logo a sua repressão, propagando o desinteresse dos portugueses. Pelas 1h30 da madrugada do dia 28, fortalecidos pelo cancelamento da missão, militares cercaram a Igreja de Motael, onde sabiam estar reunido um grupo da clandestina, mataram o meu amigo Sebastião e prenderam mais 25. Um deles, sob intensa tortura, entregou o meu nome como organizador das ações previstas, pelo que eu sabia ser uma questão de dias até me prenderem novamente (e desta vez seria bem pior). No dia 2 de novembro, realizou-se a última reunião do Comité Executivo da Frente Clandestina do CRNM na casa de Francisco Branco (hoje deputado no Parlamento Nacional) e, depois de avisado de que nesse mesmo dia me prenderiam, entrei na clandestinidade, escondi-me e passei a dormir numa casa diferente a cada noite.

O cancelamento da visita da delegação portuguesa deixou-nos perturbados e sem saber o que fazer. Escrevi uma carta a Xanana, que se encontrava escondido em Díli havia algum tempo, perguntando-lhe se devíamos avançar com uma manifestação.

Tendo sabido, via contactos em Jacarta, da chegada a Díli, em 11 de novembro, do Relator Especial das Nações Unidas sobre a Tortura, decidimos avançar. Nunca pensámos ser possível que a Indonésia, com Pieter Koojimans presente, atacasse os manifestantes com violência.  Xanana concordou que aproveitássemos o dia 12, em que assinalava a morte do Sebastião com missa de décimo quarto dia, para fazer uma marcha pacífica até ao cemitério, colocando flores na campa, e indo depois manifestarmo-nos para a frente do Hotel Turismo, onde se alojava Koojimans.

Uma vez que já havia jornalistas estrangeiros em Timor, como o inglês Max Stahl ou os americanos Allan Nairn e Amy Goodman, que tinham vindo para preparar a visita da delegação parlamentar, pareceu-nos ser o momento ideal para exibir tarjas a enaltecer Xanana, a mostrar a força da luta e a exigir um referendo.

Assim, dei orientações aos responsáveis principais do Comité Executivo da Frente Clandestina, neste caso ao Gregório Saldanha, pedindo-lhes para organizar a manifestação, uma vez que eu, sendo na altura o segundo homem mais procurado de Timor, me encontrava escondido.

Logo que a marcha saiu da Igreja, percorrendo aquela que hoje se chama Avenida Portugal, marginal à baía, militares indonésios, polícia e agentes secretos começaram a provocar, a apedrejar e a bater nas pessoas. Os manifestantes começaram a reagir e, segundo informações indonésias, um militar indonésio terá sido esfaqueado. Continuo a achar que, se tal aconteceu, é porque  foi organizado pelos próprios para criar problemas e poderem agir de forma violenta, pois as ordens tinham sido claras: ninguém deveria trazer quaisquer tipos de armas. O que é certo é que, quando a maioria dos manifestantes chegou ao cemitério, já os aguardavam muitos militares indonésios, que a certa altura, sem qualquer aviso, dispararam sobre aquelas pessoas indefesas. Morreram pelo menos 271 pessoas, algumas das quais espetadas por baionetas, tendo havido mais umas centenas de feridos.

Felizmente, algumas conseguiram saltar os muros do cemitério com vida. No meio da desgraça, tivemos sorte de estarem jornalistas presentes, que puderam mostrar ao mundo a nossa luta contra a opressão violenta a que estávamos sujeitos, incrementando a solidariedade internacional, como aquela que aconteceu na Universidade de Aveiro. Foi, estamos seguros, um dos acontecimentos mais decisivos a favor da nossa liberdade.

 

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