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Opinião
Comentário de Otília Martins, Professora no Departamento de Línguas e Culturas, ao Prémio Nobel da Literatura 2015
Svetlana Alexievitch, “um monumento ao sofrimento e à coragem na nossa era”
Otília Martins, Professora no Departamento de Línguas e Culturas
Este ano, o mais importante prémio literário foi atribuído a Svetlana Alexievitch. A jornalista e escritora bielorrussa destaca-se pelas suas "obras de grande intensidade dramática, mescla de investigação, reportagem e criação literária", como explica Otília Martins, Professora no Departamento de Línguas e Culturas.

O dia 8 de outubro de 2015 ficará marcado pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura à escritora bielorrussa Svetlana Alexievitch que sucede, assim, a Patrick Modiano.

Não foi propriamente surpresa, nem nos meios literários, nem no das apostas on line onde a autora surgia, como grande favorita, à frente de Joyce Carol Oates e Philip Roth (USA) ou de Ngugi wa Thiong’o (Quénia).

A língua russa é de novo celebrada – pela 5.ª vez, na verdade, desde que o Nobel existe (1901). Depois de Ivan Bounine (1933), Boris Pasternak (1958); Alexandre Soljenitsyne (1970); Joseph Brodsky (1987), em 2015, é a vez de Svetlana Alexievitch que se torna também na 14.ª mulher – em 112 laureados – a receber o apetecível galardão no domínio da literatura.

O júri pretendeu distinguir a sua “obra polifónica” que se ergue como “um monumento ao sofrimento e à coragem na nossa era”.

Svetlana é autora de obras de grande intensidade dramática, mescla de investigação, reportagem e criação literária: “romances de vozes”, “sinfonias onde se entrelaçam os mais terríveis e íntimos testemunhos sobre as tragédias do século soviético”.

Do seu universo literário, destaca-se um conjunto de escritos, publicados entre 1985 e 2012, sobre a “Grande Utopia” – leia-se: “o comunismo” – e nos quais a autora desconstrói os mitos do antigo império soviético: A guerra não tem rosto de mulher (relatos de mulheres soviéticas que combateram na II.ª Guerra mundial); Encantados pela morte (sobre os suicídios provocados pela queda do mito soviético); Meninos de Zinco (crónicas da guerra perdida do Afeganistão e da traição de uma geração inteira): Oração de Chernobil (crónicas do mundo depois do apocalipse, visão alucinada da incompreensível catástrofe) e, ainda, O fim do homem soviético.O tempo do desencanto (única obra da autora, publicada em Portugal). Trata-se de um retrato sem concessões, desassombrado e feroz – mas não desprovido de compaixão – do “homo sovieticus”, mais de vinte anos depois da implosão do império soviético.

A sua obra, laboriosa, construída a partir de testemunhos longa e minuciosamente recolhidos, encontra-se traduzida em vários países, designadamente em França onde O fim do homem soviético mereceu, em 2013, o Prix Médicis para Ensaio.

Descrevendo o quotidiano, a partir dos detalhes prosaicos de que é feita uma vida, a escritora compõe polifonias singulares que nada têm a ver com a doxa patriótica e heróica dos livros que povoaram a sua infância.

Em cada livro, a autora tenta restituir as emoções humanas em toda a sua complexidade e “dá a ver”, por de trás do espelho, o imenso fresco trágico do século soviético: “ […] tento esculpir a imagem de uma época […] exploro a vida das pessoas, o que elas compreenderam da existência […]; não escrevo a história dos factos mas a história das almas […] O meu princípio consiste em tentar compreender a vida humana.”

Svetlana, que hoje vive em Minsk mas nasceu, em 1948, na parte ocidental da Ucrânia, admitiu “não ter nascido dissidente”. Contudo, uma obra marcada pelo perfume do escândalo e as suas tomadas de posição (contra a política de Putin e a histeria nacionalista que grassa na Rússia) forçaram-na ao exílio (viveu 12 anos em Itália, Alemanha, França e Suécia). O seu gosto por questões universais que perscrutam o mais íntimo do ser humano, como acontece em Dostoievski, os seus questionamentos sobre a origem do Mal e a relação ambivalente que o indivíduo estabelece com a liberdade trouxeram-lhe, agora, em boa hora, o reconhecimento mundial e o “prémio dos prémios”.

 

Otília Pires Martins
Professora no Departamento de Línguas e Culturas

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