conteúdos
links
tags
Entrevistas
Comunicar ciência de forma divertida e agradável
Tyler DeWitt fala da sua abordagem diferente ao ensino da ciência
Tyler DeWitt
"Acho que há uma série de problemas com a maneira como a ciência é, atualmente, ensinada. Penso que o primeiro é ser habitualmente abordada de uma forma seca e aborrecida, uma lista de definições. E quando explicada, quando comunicada, há pouco entusiasmo ou alegria ou diversão.” Tyler DeWitt defende que a ciência deveria ser comunicada aos jovens alunos de forma agradável para que seja não só divertido aprender ciência, mas também para que esta se torne compreensível para eles. Professor do ensino secundário e investigador em Microbiologia no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Tyler DeWitt é autor de vários vídeos disponíveis na internet, nos quais aborda tópicos complexos de ciência de forma a torná-los compreensíveis por parte de jovens alunos.

Na sua opinião, o que há de errado na forma como a ciência é ensinada aos jovens, atualmente, que faz com que eles não gostem e por vezes odeiem mesmo as aulas de ciências e de matemática?
Acho que há uma série de problemas com a maneira como a ciência é, atualmente, ensinada. Penso que o primeiro é ser habitualmente abordada de uma forma seca e aborrecida, uma lista de definições. E quando explicada, quando comunicada, há pouco entusiasmo ou alegria ou diversão E é pena porque acho que a ciência é um tópico mesmo fascinante. E fico frustrado porque as crianças têm um entusiasmo intrínseco pela ciência. Querem saber por que voam os pássaros e gostam de seguir insetos no exterior das suas casas para verem para onde vão. E toda esta curiosidade, todo este entusiasmo acaba quando começam a ir para a escola. E é: ok, vais memorizar isto e memorizar isto e memorizar isto… Há um conjunto de conhecimentos que todo o aluno de ciências precise de aprender, mas penso que não precisa de ser ensinado de forma tão seca e aborrecida. Esta é uma das coisas que me frustra no ensino das ciências.

A segunda é a diferença entre como a ciência é ensinada nas escolas e o que a ciência é na verdade. O que quero dizer com isto é… eu acabo de terminar o meu doutoramento, estive a trabalhar num laboratório durante sete anos, como um verdadeiro cientista. E como um cientista de verdade o que eu fazia todos os dias era resolver problemas: eu coloco e respondo a questões. E isso é muito, muito diferente do trabalho que um aluno do ensino secundário faz quando memoriza e memoriza e memoriza … e resolve problemas de matemática de um manual. E penso que temos de fazer um trabalho melhor no que diz respeito à formação dos alunos do ensino secundário e básico. Em ciência não se trata de memorizar factos, mas sim se de colocar e responder a questões, e pensar em como fazer experiências para testar essas questões e respostas. Sabe, as pessoas dizem-me com frequência: mas como é que os alunos conseguirão chegar ao nível de um cientista sem aprenderem tudo sobre informações técnicas, sem aprenderem todos estes factos e definições fundamentais. E eu respondo que, como cientista professional do MIT, usei apenas uma fração de tudo o que tive que memorizar em ciência ao longo dos anos. E por isso acho que é mais importante pensarmos sobre o que os estudantes precisam mesmo de saber, por que é que lhes estamos a ensinar toda esta informação se mesmo um cientista profissional não precisa de tudo isso. Foi uma resposta um pouco longa, mas… responde à sua questão?

Em que é que a sua abordagem ao ensino da ciência difere dos métodos tradicionais?
Eu faço muitos vídeos para o YouTube, que poderá já ter visto, e gosto de pegar nestes tópicos complexos que tradicionalmente intimidam os alunos e ir desmontando-os, passo a passo. E penso muito em comparações e analogias divertidas que possam ser feitas no sentido de ajudar os alunos a compreender. E com isto não estou a tentar tornar as coisas estúpidas. Não as estou a tornar mais simples, não as estou a tornar demasiado simples. Se um aluno assistir aos meus vídeos, do início ao fim, aprenderá tudo o que aprenderia num manual. Mas só uso vocabulário difícil no final. Tento explicar o material com entusiasmo para manter a atenção deles. Por isso penso que os vídeos que faço são um bom exemplo de que se pode ensinar aos alunos ciência avançada, mas tem que se ir mais devagar e usar linguagem e exemplos que eles consigam entender. E fazê-lo com entusiasmo para que queiram continuar a aprender ciência. Mas se fizerem isso, eles podem aprender tanto ou talvez mesmo mais do que se ficassem sentados em frente a um manual, completamente aborrecidos. Isto é algo importante.

Para além dos vídeos também tem contribuído em manuais elaborados noutra perspetiva, de forma a tornar a ciência mais simples de aprender?
Costumo dizer que os vídeos que faço são fundamentalmente um manual. E eu estou fundamentalmente a escrever um manual do início ao fim com os vídeos que faço. E a ideia é substituírem um manual tradicional. Depois de acabar os vídeos, o que deverá acontecer este ano, espero escrever mesmo um manual, em texto, e colocá-lo na internet também.

Que feedback tem tido por parte dos próprios alunos e dos seus colegas professores sobre esta nova / diferente abordagem do ensino da ciência?
É impressionante. Recebo dezenas de emails por dia de alunos que veem os meus vídeos. E é fascinante: dezenas de milhares de alunos veem os meus vídeos todos os dias e costumo receber feedback muito positivo: estudantes que dizem ‘Nunca pensei que poderia vir a perceber química e comecei a ver os seus vídeos e percebi que não é assim tão difícil! O meu professor estava a explicar a química de uma forma muito complicada e agora compreendo e estou a ajudar os meus outros colegas de turma porque faz mesmo sentido.’ Ou recebo contactos de estudantes que dizem ‘nunca percebi isto da primeira vez que frequentei a disciplina de química, mas agora estou na universidade a tentar aprender outra vez e quero ser bom em química.’ Isto é incrível! De outros colegas professores a resposta também é muito positiva. E isto acontece por causa de um problema que ocorre em educação, com o qual os professores experientes estão familiarizados. E os professores que conseguem explicar bem, podem explicar um conceito à sua turma e os estudantes estão lá sentados e todos o percebem. O professor fez um ótimo trabalho a explicar o assunto, os estudantes percebem-no; perfeito. E depois os miúdos vão para casa e puf… deixam de perceber, mas o professor não está lá para poder explicar. Estão, então, a tentar fazer o seu trabalho de casa, mas não se conseguem lembrar como foi explicado na aula. Por isso vão ao manual. Não percebem nada do manual. Por isso o que fazem? Muitas das vezes aparecem no dia seguinte na escola e dizem ‘Não percebi. Esqueci-me como é que explicou isto.’ É um desperdício de tempo! Mas os professores experientes sabem que há uma quantidade limitada de informação que os estudantes conseguem aprender do manual. Portanto, como é que um recurso, como vídeos de fácil compreensão na internet, pode ser útil para a turma? Porque os professores podem fazer com que os alunos vejam os vídeos quando não estão na aula, quando eles não estão presentes. E sabem que eles podem ainda aprender com os vídeos. E que provavelmente não conseguem aprender com um manual.

É engraçado, sabe, os miúdos fazem tudo na internet. E os smartphones e os tablets são quase uma extensão dos seus corpos. Querem saber uma coisa vão lá buscar. Por isso faz sentido que possam fazer a mesma coisa com a informação escolar também.

imprimir
tags
veja também
 
outras notícias