conteúdos
links
tags
Investigação
Investigação de Ana Hilário, do Departamento de Biologia da UA
Vacas fundeadas ao largo de Setúbal? Substituem carcaças de baleias para estudo sobre biodiversidade
Ana Hilário a preparar a plataforma que foi utilizada para fundear as carcaças.
O que faziam cinco vacas no fundo do mar, a mil metros de profundidade e em pleno canhão de Setúbal? Antes de serem totalmente digeridas pelas forças da Natureza, simulavam carcaças de baleia para darem à ciência respostas a um sem número de perguntas. Que ecossistemas se formam em torno de uma baleia morta? A carne é completamente devorada? Por quem? E os ossos? Desde 2011, ano em que as carcaças foram afundadas, a bióloga Ana Hilário visitou o que resta dos animais por duas vezes. Para a superfície, a investigadora da Universidade de Aveiro (UA) trouxe, para além da constatação de que há um verdadeiro festim em torno das carcaças, alguns vermes aquáticos até agora desconhecidos pela ciência.

A bióloga da UA, para além de ter encontrado um grande número de espécies novas para a ciência, “o que mais uma vez mostra a importância deste tipo de ecossistemas efémeros para a biodiversidade marinha”, encontrou também espécies que até agora só tinham sido encontradas noutros ambientes quimiossintéticos, como as fontes hidrotermais e as fontes frias. Um cenário que, garante Ana Hilário, mostra que as carcaças de mamífero “podem ser importantes como pontos de ligação entre ecossistemas quimiossintéticos que normalmente estão bastante afastados entre si pois permitem a manutenção de populações”.

Ainda a estudar e a catalogar todas as espécies recolhidas, a equipa de investigação do projeto CARCACE deu já a conhecer no último mês, na revista Systematics and Biodiversity, três espécies até agora desconhecidas de pequenos vermes marinhos, pertencentes ao género Ophryotrocha, que normalmente se encontram em zonas com grandes quantidades de matéria orgânica. Dezenas de outras aguardam já por publicação em revistas científicas. 

Quem não tem baleia caça com… vaca

Os ecossistemas formados por carcaças de baleia no oceano profundo são, normalmente, encontrados por acaso durante mergulhos com submersíveis. Em alternativa, para os estudarem, os cientistas aproveitam as baleias mortas que dão à costa para as depositarem nos fundos oceânicos. Mas, não tendo sido possível coordenar a utilização de um navio com o arrojamento de uma baleia, o projeto CARCACE passou ao plano B: fundear carcaças de vaca para, pela primeira vez no Atlântico nordeste, estudar-se a biodiversidade que se forma junto de uma baleia morta nas profundezas do mar.

Porquê vacas e não outro mamífero qualquer? Ana Hilário, coordenadora da investigação, explica: “Os ossos das vacas são semelhantes, em termos composição química aos das baleias. Aliás, estudos anteriores, no Oceano Pacífico, já tinham comprovado que ossos de vaca têm energia suficiente para manter espécies que são encontradas em carcaças de baleia”.

Por todo o mundo, já foram identificadas mais de 400 espécies em carcaças de baleia, 30 das quais endémicas. No entanto, estes diversos e complexos ecossistemas têm sido muito pouco estudados no Atlântico nordeste, um cenário que o CARCACE pretende mudar.

Fundeadas em março de 2011, as cinco carcaças foram visitadas em agosto de 2012 e em junho de 2013. Na primeira vez os cientistas utilizaram o navio oceanográfico Almirante Gago Coutinho e, por sua vez, o submersível ROV Luso, numa colaboração com a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental. Na segunda descida às profundezas do canhão de Setúbal os investigadores embarcaram, primeiro, no navio de pesquisa Belgica e utilizaram o ROV Genesis, numa expedição em colaboração com a Universidade de Ghent (Bélgica).

Arca de Noé dos oceanos

“Quando visitámos a experiência em agosto de 2012 todos os tecidos moles das carcaças já tinham sido consumidos e portanto todas as amostras que recolhemos com os ROVs consistiam em ossos que foram trazidos para a superfície em caixas fechadas”, lembra Ana Hilário.

Apesar da bióloga apenas ter conseguido recolher amostras de ossos, ficando sem saber que espécies se alimentaram da carne, o que trouxe para a superfície foi suficiente para revelar um número de espécies elevado e comparável com o encontrado em carcaças de baleia noutras zonas do oceano profundo.

Entre espécies que se alimentam de restos de tecido das carcaças, espécies que abrigam no seu interior bactérias que vivem do enxofre resultante da degradação da carcaça, espécies sem sistema digestivo que dependem exclusivamente das suas volumosas “raízes” para penetrar no interior dos ossos e deles extrair lípidos e proteínas ou espécies que utilizam os ossos apenas como casa, uma carcaça de baleia é mesmo uma autêntica arca de Noé dos fundos marinho. 

imprimir
tags
outras notícias