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Entrevistas
Antigo aluno de Biologia da UA, professor no Colégio de Medicina da Universidade de Howard
Novo campo da Biologia pode surgir com a ajuda de Rui Diogo
O investigador Rui Diogo
Evolutionary Developmental Anthropology (EDA). Assim se chama o novo campo da Biologia que Rui Diogo e alguns colegas querem erguer. A área pretende combinar a biologia evolutiva com a de desenvolvimento e juntar a evolução humana e o estudo de defeitos de nascimento. A surgir, a EDA terá, afirma o antigo aluno da Universidade de Aveiro (UA), “entre outros aspetos, importantes aplicações e implicações para a medicina e na discussão de temas sociais como a história do racismo”. Licenciado em Biologia pela academia de Aveiro em 1998, com Mestrado e Doutoramento em Biologia na Universidade de Liège (2003) e Mestrado e Doutoramento em Antropologia na Universidade de George Washington (2011), Rui Diogo é hoje investigador e professor no Colégio de Medicina da Universidade de Howard.

Que motivos o levaram a estudar na UA?

O prestígio da Universidade, o curso em Biologia, que é a minha área científica preferida, a cidade e o poder viver junto ao mar.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Na verdade só já nos anos antes de ir para a Universidade, quando aprendi sobre Darwin e a teoria evolutiva, na escola secundária, vi que era isso que realmente me interessava.

O curso de Biologia correspondeu às suas expectativas?

A Universidade e a cidade corresponderam completamente e o curso em grande parte sim. Talvez a pequena exceção tenha sido o facto do curso ser mais orientado para biologia de laboratório e não tanto para anatomia e biologia evolutiva, tendo, por exemplo, muito pouco sobre paleontologia nesse momento, enquanto o meu interesse maior era a biologia evolutiva. A paleontologia está a desenvolver-se muito bem em Portugal agora, mas a anatomia comparada e biologia evolutiva ainda não são áreas com tanto interesse no país. Uma das minhas motivações para estas conferências que fiz em Portugal foi estimular o interesse e colaborações futuras nestas áreas, incluindo a evolução humana. E, na verdade, vejo que agora também já introduziram um curso de “Biologia, Evolução e Diversidade” no primeiro ano do currículo do curso de Biologia da UA, que vai nesta direção. Como diz a célebre frase “nada na biologia faz sentido sem pensar num contexto evolutivo”... Isto aplica-se, a meu ver, mesmo as áreas da biologia aplicada.

Que competências adquiridas entende terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade?

A maior vantagem foi a importância que se dava as várias áreas da biologia em geral, isso ajudou-me a ter uma base de conhecimentos mais alargada. E também, claro, foi devido a experiência como estudante Erasmus, que me foi possível, graças a ajuda do professor Victor Quintino (coordenador do nosso programa de Erasmus nesse momento), que pude fazer um semestre como aluno Erasmus na Universidade de Liège, o que me abriu as portas a fazer então o doutoramento aí. Nesse sentido, aconselho os alunos que queiram fazer programas Erasmus a que o façam no último semestre, para poderem eventualmente ficar nesse universidade estrangeira a fazer pós-graduação, se for possível.

O que mais o marcou na UA?

Bastantes coisas! Fui de Castelo Branco com um amigo muito próximo, o João Malcato, para o mesmo curso de Biologia, e também ai conheci, logo no primeiro ano, a Cláudia Oliveira, que foi minha namorada por 9 anos e foi para a Bélgica comigo quando acabou o curso de Biologia aí. Em relação a professores, lembro-me muito bem da professora Ana Rodrigues, com que falava muito (não por acaso, foi com ela que então organizei esta conferência agora há umas semanas em Aveiro), do professor Victor Quintino e da sua classe de Bio-Estatística, muito boa, e também do professor de biologia vegetal, de plantas terrestres. Não me lembro do seu nome mas adorei o seu curso, eu que tenho mais interesse em geral pelos animais; o seu curso tinha uma grande parte sobre biologia evolutiva, como evoluíram as plantas sem flor, e as plantas com flor, falava muito de fósseis de plantas, gostei mesmo muito.

Como foi o seu percurso profissional?

Como disse, fiz o Mestrado e Doutoramento em Biologia na Universidade de Liège, acabando o doutoramento em 2003. Isto foi na sequência do programa Erasmus, houve interesse em que eu ficasse e fizesse um doutoramento aí, na área da biologia evolutiva, com um professor que me marcou para sempre: Michel Chardon. Conseguimos obter uma bolsa da FCT, e então estive 5 anos na Bélgica. Num dos últimos anos fiz parte do doutoramento em Washington DC, nos US, e conheci aí a minha esposa, e por isso depois de acabar o doutoramento fui para Madrid, onde fiz um pós-doutoramento no Museu de Ciências Naturais de Madrid, por 3 anos. Pude então estudar a anatomia e evolução de todos os grandes grupos de animais vertebrados. Depois fui convidado a continuar a minha investigação no Departamento de Antropologia da Universidade de George Washington, US, em evolução humana, que no fundo foi sempre a meu interesse principal. Como tinham fundos nesse momento para fazer doutoramento, e eu queria muito ir para esse departamento, considerado hoje um dois mais fortes, senão o mais forte, em evolução humana no planeta, aceitei fazer um segundo mestrado e doutoramento, que acabei em 2011. Logo mal acabei o doutoramento, fiz um pequeno pós-doutoramento nesse mesmo departamento, e depois fui contratado pela Universidade de Howard, também em Washington DC, como professor de anatomia humana no Colégio de Medicina, onde estou atualmente e onde gostaria de ficar.

Como é o seu dia-a-dia de trabalho?

Gosto muito do meu dia-a-dia, e nesse sentido tenho de agradecer muito à Universidade de Howard e a liberdade que me dá, pois o objetivo e precisamente de me oferecer um tipo de vida que me permita estar muito em casa para escrever livros e artigos e projetos de bolsas, e também viajar muito para trabalhar noutros laboratórios e áreas, para estimular colaborações, e ir a conferências, grupos de trabalho, e fazer outras atividades. Assim que durante o verão normalmente viajo pelo mundo fora, incluindo viagens de trabalho, com viagens com a minha esposa. Por exemplo, este verão deverei ir a um meeting no Brasil, depois viagem com a minha esposa ao Nepal, e logo depois viagem à Califórnia e talvez Argentina para outros meetings. No outono ensino algo intensivamente Anatomia Humana para futuros médicos e dentistas, para cumprir o total dos 25 por cento do meu tempo por ano que sou suposto ensinar, investigando então também no meu laboratório, fazendo dissecções, trabalhos de desenvolvimento embrionário, e dirigindo os meus alunos e investigadores de pós-doutoramento que estão no meu laboratório. No inverno e primavera viajo um pouco, mas sobretudo trabalho em casa, escrevendo livros e artigos e bolsas, e também lendo muito, que é, na verdade, o que mais gosto de fazer. No fundo, estou a tentar criar, junto com alguns colegas, um novo campo da biologia, que se chama “Evolutionary Developmental Anthropology”, que pretende então combinar a biologia evolutiva com a biologia de desenvolvimento e também a evolução humana e o estudo de defeitos de nascimento, com importantes aplicações e implicações para a medicina, portanto, e também para discutir temas sociais como a história do racismo, entre outros.

Como descreve a instituição onde trabalha?

Esse objetivo tem precisamente muito a ver com a instituição onde estou. Howard University é a primeira Universidade dos US criada especificamente para pessoas de cor, especificamente African-Americans, como se diz aqui. É a instituição que, hoje em dia, e desde há muito tempo, tira mais pessoas de cor do ciclo de pobreza, no país. Isso dá-me muita motivação como professor, e também como investigador, pois uma das razões que me contrataram foi precisamente para fazer renascer a investigação, sobretudo no departamento de Anatomia. Temos muito bons professores, mas a investigação não correspondia tanto a esse nível. E é por isso que, estando sobretudo no colégio de medicina, sinto a necessidade e o prazer de tentar combinar investigação básica com aplicações para a medicina e também sobre temas sociais como a história do racismo, a história da Ciência em geral e a negligenciada contribuição por parte de investigadores não ocidentais, por exemplo, investigadores da China e também muçulmanos, os quais contribuíram muito mais do que se diz normalmente, para o conhecimento da anatomia humana e mesmo da biologia evolutiva. Uma dos meus desejos é que alunos da UA venham precisamente fazer programas Erasmus (agora já há o Erasmus-Mundo, estamos a aplicar com a Universidade Nova de Lisboa para esse programa, por exemplo) ou outros programas, ao meu laboratório e a Howard em geral.  

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