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Oficina de Física: a criar dispositivos para o ensino e a investigação da UA desde 1979
Pode a serralharia fazer trabalho de ponta e ser humanizada? A Física da UA mostra que sim
Ivo Mateus e Miguel Rocha são os serralheiros da oficina de Física
Nesta oficina de serralharia mecânica não basta a experiência de trabalho em metal. Todos os dias chegam desafios novos, ou não se tratasse da oficina do Departamento de Física da Universidade de Aveiro. Certos trabalhos pedem mesmo outro tipo de material que não o metal. Os “clientes” chegam com uma ideia, umas vezes mais vaga, outras mais concreta, sobre aquele dispositivo que falta para ser possível realizar um trabalho laboratorial ou uma experiência científica. Em articulação com Ivo Mateus ou Miguel Rocha, os técnicos de serviço na casa, já com muitos anos a tentar perceber o que pretendem professores e investigadores, chega-se ao desenho de um dispositivo e, algum tempo e suor depois, ao próprio objeto.

"Fiquei a saber, para a vida inteira, que uma Universidade sem oficinas técnicas e culturais não era Universidade", disse um dia José Veiga Simão, especialista em questões de ensino superior, antigo ministro da Educação Nacional que também foi Reitor da Universidade de Lourenço Marques. Umas horas a acompanhar o dia-a-dia de Ivo Mateus e Miguel Rocha mostram porquê. Pela porta da oficina, entram investigadores, professores, alunos, cada um com um pedido específico... é uma ponta fria com um formato especial que permite fixar, em simultâneo, duas amostras sujeitas a um feixe luminoso, é um silicone especial que permite fixar objetos em determinadas condições extremas de temperatura, é uma medalha para uma determinada cerimónia académica… Há dispositivos que existem no mercado com algumas variações e, para uma determinada experiência, essa pequena variação faz toda a diferença. Há outros que não existem de todo e há ainda certos casos que, apesar de existirem no mercado, pode ficar menos dispendioso a sua construção na oficina.

Em mãos, no momento da reportagem, por exemplo, Ivo Mateus tem um crióstato, um dispositivo parte em inox, parte em teflon, para manter amostras a baixas temperaturas. Algo que não existe no mercado com esta dimensão e estas exigências.

Oficina criada há 35 anos

Corria o ano de 1979 quando o antigo serralheiro de moldes na extinta fábrica Alba, que chegou a ser construtora de automóveis, e, mais tarde, funcionário de uma unidade de construção de mobiliário metálico e dos caminhos de ferro de Moçambique, entrou para a UA. Ivo Mateus, dada a sua polivalência, era um técnico necessário nas oficinas que Fernandes Thomaz, então diretor do Departamento de Física, criara. O Departamento funcionava ainda nas instalações do Centro de Estudos de Telecomunicações (agora PT Inovação) e o serralheiro deslocava-se entre o Departamento e as oficinas, localizadas por detrás do Estabelecimento Prisional de Aveiro, na bicicleta recém-adquirida para o efeito. O colega, Miguel Rocha, foi admitido uns anos mais tarde, na sequência de um curso profissional que decorreu na UA, com apoio do Fundo Social Europeu. Também já lá vão uns anos… Não há muito, recebeu a medalha dos 25 anos ao serviço da UA.

Ivo Mateus identifica um antes e um depois da construção do atual edifício do Departamento no campus de Santiago, período em que ocorreu a aquisição de novo equipamento para o Departamento e para a Oficina de Física. Foi há cerca de 21 anos.

Hoje, a oficina do Departamento de Física da UA trabalha essencialmente para o Departamento onde se situa, mas também para outros Departamentos, quando solicitada e até, mais raramente, para outras instituições. É que, embora geralmente se reconheça que estas unidades são necessárias, a verdade é muitas instituições de ensino superior já deixaram de as ter.

“O mais importante são as pessoas”

É o diálogo constante com quem chega e expõe o seu problema específico e os desafios que todos os dias são colocados, sendo que estes desafios estão relacionados com necessidades muito particulares da investigação de ponta, ou de novas formas de ensinar conceitos científicos, que tornam este trabalho entusiasmante para Ivo Mateus e Miguel Rocha.

Pode um serralheiro mecânico, habituado a responder a questões comuns do dia-a-dia, sabendo que o negócio só sobrevive se a celeridade e eficácia das respostas estiver à altura, dialogar com interlocutores que apresentam desafios tão específicos dos quais depende o avanço da ciência? É que, para quem trabalha em oficinas ligadas aos desafios da ciência, é preciso saber ouvir e ser polivalente, mais do que noutras situações.

Por isso, apesar de reconhecer que as máquinas facilitam e tornam mais ou menos demorado o trabalho, Ivo Mateus que trabalha todos os dias com máquinas, metal e outras concretizações dos princípios da Física, não tem dúvidas: o mais importante são as pessoas.

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