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Academia diz presente na Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios
Estudantes refugiados sírios acolhidos na Universidade de Aveiro: nenhuma guerra pode matar o sonho
Ahmad Kalthoum, Ihsan Khalifa, António Manuel Assunção (Reitor da Universidade de Aveiro) e Hazem Hadla
Trazem nos olhos uma tristeza que só a esperança consegue atenuar. Para trás deixaram a Síria enegrecida por uma guerra fratricida que, entre bombas e balas perdidas, lhes matou familiares e amigos. Tal como gerações inteiras de milhões de jovens sírios, interromperam os estudos porque colocar um pé na rua se tornou demasiado perigoso. Mas o sonho fala sempre mais alto do que qualquer guerra. Ihsan Khalifa, Ahmad Kalthoum e Hazem Hadla chegaram à Universidade de Aveiro (UA) na última semana porque nenhuma bomba consegue derrubar o essencial: a esperança num futuro pacífico e desenvolvido. E acolhidos pela academia de Aveiro vão continuar a estudar para concretizarem todos os sonhos que trouxeram na bagagem.

Recebidos no âmbito da Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios, uma iniciativa do ex-presidente Jorge Sampaio que quer trazer para Portugal jovens refugiados sírios para que possam continuar os estudos, Ihsan Khalifa, Ahmad Kalthoum e Hazem Hadla estão já a frequentar, respetivamente, o Mestrado em Engenharia Civil, a Licenciatura na mesma área e o Doutoramento em Engenharia Eletrónica. Os três jovens fazem parte do grupo de meia centena de sírios que chegou ao país dia 1 de março para prosseguir os estudos em universidades e escolas politécnicas portuguesas. Este é o primeiro conjunto, de um total de cerca de 200 estudantes sírios, aos quais a Plataforma pretende atribuir bolsas de estudo através de um fundo de emergência.

De Damasco para a Jordânia para fugir à guerra

Estudava Engenharia Civil na Yarmouk Private University, em Damasco. Na capital síria, Ihsan Khalifa, de 22 anos, acabava de concluir a licenciatura quando o conflito armado eclodiu. “A minha universidade não fechou mas as circunstâncias tornaram-se tão pesadas que se tornou muito complicado continuar a estudar”, lembra. Apesar de Damasco ser “uma cidade um pouco mais segura em relação a outras zonas do país”, ainda assim sair de casa tornou-se uma aventura perigosa. “Não podemos sair para a rua e ir para a universidade livremente e em segurança porque nas ruas, a qualquer momento, uma bomba pode explodir ou pode haver um tiroteio repentino”, descreve.

No início de 2013, com o alastrar do conflito armado, deixou com a família o país e refugiou-se na Jordânia, mais concretamente na cidade de Amman onde esteve oito  meses sem estudar. O sonho de ser um dia engenheiro civil parecia adiado até ter tido conhecimento da iniciativa de Jorge Sampaio através da Dubarah, uma ONG síria fundada para ajudar a encontrar trabalho e alternativas de estudo a refugiados sírios. Ihsan Khalifa increveu-se há 5 meses atrás e foi aceite entre os 2500 candidatos. “Tive muita sorte em terem apostado em mim”, regozija-se.

O objetivo agora é concluir o mestrado em Engenharia Civil que veio frequentar no Departamento de Engenharia Civil da UA. “Quero o tirar o meu mestrado para adquirir a experiência necessária para regressar depois da guerra civil acabar – o que espero que aconteça o mais rapidamente possível - e fazer parte do processo de reabilitação do meu país”, afirma. Na cabeça, Ihsan Khalifa já trazia a imagem de um Portugal moderno com universidades tecnologicamente avançadas que serviram os seus objetivos académicos. A UA não o defraudou, antes pelo contrário. “Esta é uma Universidade famosa por estar muito desenvolvida nas áreas tecnológicas. Estou, por isso, muito satisfeito em cá estar”, reconhece.

Um perigo constante circular nas ruas de Damasco

Também tem o sonho de ser engenheiro civil. Ahmad Kalthoum, de 19 anos, terminava o ensino secundário em Damasco quando a guerra eclodiu e as ruas se tornaram demasiado perigosas. “As explosões e os tiros que se passaram a ouvir nas ruas” tornaram a casa de família um lugar onde o regresso, depois de se colocar um pé do lado de fora, não estava assegurado.

“É muito perigoso circular nas ruas de Damasco por isso, quando terminei o liceu, não me pude inscrever na Universidade”, lembra o jovem estudante que nos últimos dois anos perdeu vários familiares e amigos atingidos pela guerra civil. Em casa, através da internet, tomou conhecimento da Plataforma portuguesa e o sonho ganhou novo fôlego. Candidatou-se, foi aceite, despediu-se da família e, transportado por um comboio humanitário, viajou de Damasco até Beirute de onde a aeronave militar C-130 da Força Aérea Portuguesa transportou os estudantes sírios até ao Aeródromo de Figo Maduro.

Apaixonado por Matemática e pela Física, na UA Ahmad Kalthoum já está a frequentar a Licenciatura em Engenharia Civil. Inscrever-se no mestrado na mesma área, também na academia de Aveiro, é o objetivo que se seguirá dentro de três anos. Tempo mais do que suficiente, deseja Ahmad, para as armas serem depostas na Síria e pensar em regressar um dia.

Há três anos sem ver a família

Hazem Hadla tem 30 anos e viu eclodir a guerra civil síria a partir do Egito. Na Universidade do Cairo iniciava o Mestrado em Engenharia Eléctrica quando os primeiros tiros colocaram o país natal nas manchetes do mundo. Nunca mais regressou. As notícias que lhe chegam desde então de Homs, a cidade de onde partiu para o país dos faraós com uma mala carregada de sonhos, dão-lhe conta de uma região devastada. “Os meus pais sempre me disseram para não regressar por causa da guerra. A minha região está a ser muito afetada”, diz. Ficou por isso no Cairo depois de concluído o mestrado. Sem suporte financeiro para continuar a estudar a área da sua paixão e sem conseguir encontrar trabalho – “mesmo para os egípcios a situação está muito complicada e perigosa com bombas a explodirem diariamente ” – sobreviveu com muitas dificuldades.

Em setembro do ano passado, também através da Dubarah, soube da mão que Portugal estendia aos estudantes refugiados sírios. Tentou a sorte e inscreveu-se. “Quando vi o meu nome aceite ficou muito, muito feliz”, relembra. Deixou o Cairo em fevereiro e rumou a Beirute ao encontro da esperança. Na UA vai fazer um Doutoramento na área da Electrónica no Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática.

“Quero agarrar muito bem esta oportunidade e concluir com êxito o doutoramento para ter boas habilitações de forma a encontrar um bom trabalho, ter uma vida normal e ajudar a minha família que está a passar por muitas dificuldades e precisa muito de mim”, diz Hazem Hadla.

Ihsan Khalifa, Hazem Hadla e Ahmad Kalthoum querem que o conflito sírio termine o mais rapidamente possível. “Já chega de guerra, já chega de ver os sírios a matarem-se uns aos outros”, dizem entre os agradecimentos ao governo português e à Universidade de Aveiro pela oportunidade que lhes foi dada de estudarem num “sítio pacífico” e onde se sentem “muito bem-vindos”.

Academia de Aveiro solidária

“A UA e a sua comunidade não podiam ficar alheias a esta iniciativa de cariz humanitário promovida pelo Dr. Jorge Sampaio, tão meritória e urgente, em particular por se tratar de garantir aos jovens sírios atingidos pela grave situação do seu país o acesso ao ensino superior e o convívio fraterno com uma comunidade internacional de quase 80 nacionalidades, que lhes permita continuar a sonhar e a construir, com dedicação e empenho exigentes, um futuro otimista”, afirma Manuel António Assunção. O acolhimento dos jovens estudantes sírios constitui, acrescenta o responsável pela academia, “uma oportunidade para nós e para Aveiro, na medida em que podemos compreender melhor outra cultura e, de forma ativa, participar na construção de pontes para um mundo melhor”.

Apresentada em julho do ano passado, a Plataforma Global para os Estudantes da Síria revelou a criação de um fundo de emergência para atribuir um milhar de bolsas a estudantes sírios, com estatuto de refugiados ou que estejam em perigo real no país de origem. A Plataforma tem como parceiros a Liga Árabe, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados e o Instituto norte-americano para a Educação Internacional e irá contar com um painel de personalidades que irão funcionar como embaixadores da iniciativa.

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