conteúdos
links
tags
Investigação
Parceria da UA revela dimensões escondidas do antigo eremitério Carmelita
Buçaco: viagem para outra dimensão de vida, de património e do espírito
O adernal, floresta relíquia do Buçaco (foto de Lísia Lopes)
Conhecer o Buçaco só pela água, pelo Palace Hotel, Vale dos Fetos, ou pela Via Sacra, é não perceber esta pérola de património natural, histórico, militar e religioso. A parceria entre a Fundação Mata do Buçaco e a UA, já com mais de 10 anos, tem sido fundamental para manter viva a chama da descoberta e conservar o património ainda ferido pelo ciclone do início de 2013 (fotografias de Lísia Lopes).

Só um olho bem treinado perscrutando os tons secos da folhagem do chão, numa paleta que vai do amarelo ao castanho ou carmim, ocres e beges vários, pode descobrir aquelas formas delicadas que se erguem numa cúpula e escondem um verso estriado. A cada passo, na folhagem, rasgando o silêncio ou o canto das aves, pode surgir uma surpresa na forma, no tamanho e na cor, com par no enorme conjunto de referências impresso num A4. O jovem micologista Eduardo Batista regista as coordenadas geográficas, fotografa, mede, compara tons, analisa mais tarde ao microscópio e faz testes em laboratório. Demora-se em pequenas áreas da mata à volta dos retorcidos adernos, dos vetustos carvalhos e dos frutificados castanheiros.

Mais à frente, atenta-se no solo, junto a um aderno de porte arbóreo, “relíquia” que remonta à original paisagem do Buçaco, muito antes dos Carmelitas Descalços se recolherem ali, no século XVII, e começarem a construir a Mata que serviu de “quadro rústico à paixão de Cristo”, como escreveu Jaime Cortesão. Eduardo está perto do Passo de Caifás, um dos 20 Passos da completíssima Via Sacra iniciada pelos monges, que inclui seis Passos da prisão de Cristo, já considerada melhor que a original por visitantes israelitas.

Os elementos naturais, pela violenta mão do ciclone Gong, no início do ano, pregaram uma estranha partida a esta tríplice harmonia de religião, património construído e natureza, ao fazerem tombar árvores, sobretudo gigantescos cedros-do-Buçaco, em cima de algumas destas capelas já construídas no século XIX.

À volta de Eduardo Batista surge um sem número destes pequenos e delicados chapéus de tons outonais que brotam do chão forrado a folhas e herbáceas. Na parte final da sua licenciatura em Biologia na UA, o jovem escolheu investigar os cogumelos desenvolvendo a curiosidade que já tinha e descobrindo mais sobre os cogumelos da Mata do Buçaco. Talvez também por razões familiares, já que recorda com saudade os míscaros cozinhados pela avó.

Infindável fonte de surpresas

O estudo dos cogumelos na Mata do Buçaco começou com o biólogo André Aguiar que monitorizava a fauna, como bolseiro do Departamento de Biologia, no âmbito de um projeto financiado pelo Life +, designado BRIGHT (Recuperação do Buçaco das invasões que geram ameaças de habitat), que ainda decorre. André, enquanto desenvolvia os seus trabalhos de campo, montava armadilhas para mamíferos, escutava aves e identificava morcegos, contou 121 espécies de cogumelos. Eduardo Batista aprofunda agora este trabalho, sob orientação de Rosa Pinho, responsável pelo Herbário da UA, e Anabela Martins, investigadora do Instituto Politécnico de Bragança.

A grande diversidade de cogumelos não é estranha à variedade de espécies arbóreas e é apenas um aspeto da notável biodiversidade do Buçaco, assinalada na tese doutoramento de Milene Matos, hoje investigadora da Unidade de Vida Selvagem do Departamento de Biologia da UA e responsável pelo Serviço Educativo da Mata. A tese da investigadora tornou evidente a interessante biodiversidade da Mata Nacional do Buçaco, quando comparada com os ecossistemas circundantes e fez luz sobre a, até então, pouco conhecida fauna da zona. “Já cá ando há dez anos e continuo a descobrir coisas novas!”, exclama, surpreendida com os curiosos “chapéus” observados por Eduardo Batista.

Sabiamente, os Carmelitas Descalços, ao pretenderem reproduzir neste seu “deserto”- nome muitas vezes atribuído aos espaços de reclusão Carmelitas - o que conheciam em Jerusalém, foram plantando, mas mantiveram zonas da floresta original, com carvalhos, azereiros e loureiros e outras em que domina o aderno. A espécie disponível que mais se aproximava do cedro-do-Líbano em Jerusalém era o chamado cedro-do-Buçaco que veio de conventos em Espanha. Estranho? Não, porque a designação foi erroneamente atribuída por um botânico que visitou o Buçaco, talvez já demasiado deslumbrado pela beleza da paisagem.

Com enorme tristeza, os investigadores e todos aqueles de frequentam e que zelam por este espaço, como é o caso de jardineiros – a trabalharem na Mata ao abrigo de um protocolo com o Estabelecimento Prisional de Coimbra – receiam que o cedro-do Buçaco mais antigo de Portugal, o “cedro de S. José”, plantado em 1644, agonize após o corte de um dos dois ramos provocado pela queda de outro cedro devido ao ciclone de janeiro. O arboreto, que ocupa cerca de 80 por cento da Mata, para além destes gigantes com “pés de barro”, ou seja, com raízes relativamente superficiais para a dimensão que atingem, inclui outras espécies com origem nos quatro cantos do mundo. Um exemplar de eucalipto, Eucaliptus regnans, de 74 metros, é a árvore mais alta da Mata.

Relíquia de aderno a conservar

A chamada floresta relíquia ocupa apenas uma pequena – mas fundamental para a conservação da natureza – fração no extremo sudoeste da mata, albergando três habitats diferentes: o carvalhal de carvalho-alvarinho e carvalho-negral, o loureiral, dominado pelo loureiro, com presença frequente do medronheiro, folhado e do azevinho, e um outro conjunto vegetal dominado pelos adernos de porte arbóreo. Os investigadores da UA defendem que este último habitat é um subtipo de mato termomediterrânico pré-desértico não previsto no Anexo 1 da Diretiva Habitats e que deve ser incluído neste documento orientador da conservação da natureza na Europa. Rosa Pinho, responsável pelo Herbário da UA, explica que, ao contrário do subtipo de habitat já previsto na Diretiva em que domina o medronho, no “adernal” é o aderno que domina, algo que se verifica apenas em certas zonas (mais pequenas) da Serra da Arrábida.

A diversidade da Mata providencia alimento, abrigo e refúgio para mais de centena e meia de espécies de vertebrados, entre as quais, algumas de grande valor para a conservação da natureza, como endemismos ibéricos (espécies exclusivas da Península) ou espécies protegidas. O bom tempo atrai diversos répteis, como o lagarto-de-água, endémico, ou a cobra-de-escada e um olhar atento às linhas de água permitirá identificar anfíbios tão distintos como a salamandra-lusitânica e o tritão-de-ventre-laranja, dois sensíveis endemismos. O crepúsculo pode revelar morcegos, como o raro morcego-de-ferradura-mediterrânico, ou o musaranho-de-água, recentemente observados pela primeira vez na Mata. Nos cursos de água os investigadores já registaram a presença do bordalo, um pequeno peixe em risco de extinção e endémico da Península Ibérica.

No decurso de um projeto de investigação desenvolvido por alunos de licenciatura da UA – Tatiana Pinhal, Ricardo Mocito, Cátia Paredes, Sofia Jervis – e uma aluna de mestrado (Daniela Maia) tem vindo a ser registada a ocorrência de centenas de espécies de insetos e aranhas, algumas nunca antes associadas ao Buçaco.

Esta “obra de arte total” (designa o IGESPAR), que inclui também o Palace Hotel, bem no centro do Buçaco, peça notável do chamado estilo neomanuelino do início do século XIX, não está livre de ameaças. Para além do rasto de destruição deixado pelo ciclone Gong, ainda visível em vários locais, nomeadamente em capelas, não obstante o trabalho já feito pelas equipas da Mata e por voluntários, as espécies invasoras espreitam permanentemente. É o caso da acácia, da falsa-árvore-do-incenso e do louro-cerejo, nas árvores, e da tradescância, ou erva-da-fortuna, no coberto vegetal mais rasteiro. O louro-cerejo não é considerado uma invasora noutros locais, mas, no Buçaco, tem comportamento de invasora, afirma Rosa Pinho.

Controlar invasoras, reflorestar e reconstruir

As equipas da Mata têm vindo a trabalhar no sentido de controlar as invasoras, no âmbito do projeto BRIGHT, usando métodos mecânicos (arranque manual ou descasque), métodos químicos (aplicação de herbicidas) ou ainda uma combinação de ambos, dependendo da zona e das condições. Neste sentido, decorre um estudo pelas investigadoras da UA, Sónia Guerra, Lísia Lopes e Rosa Pinho, sobre o controlo de invasoras e o potencial de regeneração da Mata. Em certas zonas, o terreno foi marcado em quadrados de 1 e de 100 metros. No primeiro caso, foi limpo de herbáceas invasoras e, no segundo, as árvores invasoras (acácias, sobretudo) foram descascadas para morrerem, em certos locais sem recurso a químicos que poderiam influenciar a regeneração da vegetação autóctone.

Decorre ainda um outro trabalho de investigação, de Lúcia Pereira, Milene Matos, Ana Vasques e Paula Maia, sobre a germinação de sementes e desenvolvimento das plantas (sobretudo, invasoras) propagadas pelas fezes dos mamíferos (raposa e fuinha). Faz-se o acompanhamento da germinação das sementes do desenvolvimento das plantas, em estufins. Suspeita-se que as fezes facilitem a germinação de certas sementes, como é o caso das de louro-cerejo e que este facto está relacionado com o comportamento do louro-cerejo, como invasor, no Buçaco.

O Buçaco tem vindo a servir também como palco privilegiado para a aplicação de outros saberes da UA e não apenas na área da Biologia. A parceria com a UA começou, em 2002, com o Buçaco ainda sob tutela da Direção-Geral dos Recursos Florestais e por impulso de Carlos Fonseca, professor e responsável pela Unidade de Vida Selvagem, coordenador do projeto BRIGHT na UA e membro do Conselho Geral da Fundação Mata do Buçaco (FMB). A equipa da Estrutura de Projeto de Arquitetura e Desenvolvimento Físico da UA (EPARQ), coordenada pelo arquiteto Joaquim Oliveira, tem em curso um projeto para recuperação do edificado da Mata, nomeadamente, do convento, capelas, ermidas de habitação, incluindo ordenamento do trânsito e estacionamento, em articulação com a Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva que define as metodologias de intervenção na área da conservação e restauro. Numa primeira fase, o projeto permitiu a recuperação de estufas e a reabilitação da casa das Portas de Coimbra. A extinta Fundação João Jacinto de Magalhães, entidade da esfera da UA, definira toda a linha gráfica da FMB.

UA é parceira fundamental no trabalho desenvolvido

Há também duas dissertações de mestrado em curso, sob orientação de Ana Velosa, professora do Departamento de Engenharia Civil, relacionadas com as construções do Buçaco: uma sobre o tipo de material usado na construção das antigas capelas e no convento e a argamassa mais adequada numa eventual intervenção e ainda outra sobre avaliação de risco nas antigas capelas da Via Sacra, designadamente, associado à vegetação mais próxima, à humidade e à água capilar. Com o trabalho final de curso em Arquitetura na Escola Universitária das Artes de Coimbra (ARCA), intitulado Reabilitação do Património Arquitetónico da Via Sacra, Ana Carina Gomes, já então colaboradora da EPARQ, venceu o Prémio Conservação e Restauro do Património Arquitetónico, promovido pela Teixeira Duarte.

Na tentativa de acelerar a recuperação da mata, Nelson Matos, ex-aluno de Planeamento Regional e Urbano na UA e coordenador operacional do projeto BRIGHT, sugeriu ajudar à reflorestação através de um sítio na Internet em desenvolvimento com apoio do Laboratório SAPO da UA e da Fundação PT. O protótipo surgiu no âmbito das aulas da disciplina de Laboratórios Multimédia 4 do curso de Novas Tecnologias da Comunicação (Departamento de Comunicação e Arte), sob orientação do docente Carlos Santos, e permite tarefas como comprar plantas e fazer donativos, saber o local da árvore e onde está, fazer uma dedicatória. Terá também uma aplicação para comunicações móveis e deverá estar disponível, para o público, até ao segundo trimestre de 2014.

A Mata tem vindo a ser palco de um programa de educação ambiental e educação para a sustentabilidade com atividades regulares, promovidas pelo Serviço Educativo da Fundação Mata do Buçaco e em que participa o Departamento de Biologia da UA, através da sua investigadora de pós-doutoramento, Milene Matos. O projeto “Duendes na Mata” surge neste âmbito.

O presidente da FMB, António Jorge Franco, sublinha que a parceria com a UA tem sido “fundamental desde que a Fundação Mata do Buçaco foi constituída em 2009”, quer quanto ao estudo da biodiversidade, do património construído e da recuperação de todo o património da Mata, “um apoio extraordinário, sem o qual o sucesso alcançado não seria possível”. O Buçaco passou a ser, desde o início de outubro, a primeira mata nacional a receber o certificado de gestão florestal, implementando os requisitos do Forest Stewardship Council – FSC®, com apoio da empresa Unimadeiras. A Fundação Mata do Buçaco considera que o trabalho realizado pelo Departamento de Biologia da UA, desde há uma década, e a informação científica reunida a partir desse trabalho, terá tido “importância fundamental para a certificação da Mata como Floresta de Alto Valor de Conservação”.

(texto publicadio na revista Linhas nº20)

imprimir
tags
outras notícias