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Investigação
Trabalho de Ana Flávia Miguel com colaboração de Rui Oliveira, do INET-MD
UA contribui para classificação do "Kola San Jon" como Património Cultural Imaterial de Portugal
Ana Flávia Miguel e Rui Oliveira
Uma investigadora do polo de Aveiro do Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET-MD) conseguiu que a prática performativa cabo-verdiana Kola San Jon fosse incluída no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Esta classificação é o resultado do trabalho de Ana Flávia Miguel em colaboração com uma colega do Grupo de Estudos Sócio-Territoriais Urbanos e de ação social (GESTUAL/Universidade Técnica de Lisboa), e a Associação Cultural Moinho da Juventude (ACMJ), do bairro Cova da Moura. Esta classificação vem dar dignidade legal a esta prática e é um primeiro passo para a sua inclusão no Património Imaterial da Humanidade.

O trabalho, intitulado “Pesquisa Etnomusicológica Kola San Jon: trabalho de campo e pesquisa de arquivo, Bairro do Alto da Cova da Moura, Amadora, Portugal”, incluiu ainda a participação de Rui Oliveira, mestre em Comunicação Multimédia na UA com uma dissertação intitulada “O documentário em Etnomusicologia”. Rui Oliveira, também do INET-MD, captou imagens dos espaços exteriores do bairro, filmou entrevistas, recuperou imagens de arquivo e editou o filme da candidatura, tendo também desenvolvido o conceito de documentário visual.

O culminar desta investigação foi a inclusão desta prática no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e a publicação da classificação em Diário da República a 16 de outubro de 2013.

O Kola San Jon é uma prática performativa cabo-verdiana introduzida em Portugal através de imigrantes que hoje residem fundamentalmente no bairro Cova da Moura, mas adquiriu um significado “singular porque é feito e partilhado por todos os habitantes, independentemente da sua origem pré-migratória”, salienta Ana Flávia Miguel.

Esta festa é celebrada em honra de São João Batista, em junho, e inclui dança, música e artefactos. Durante a performance os intervenientes, liderados por um grupo de tamboreiros dirigidos pelo toque de um apito, percorrem as ruas do bairro seguidos de um cortejo constituído pelos indivíduos que queiram partilhar a performance. Junto dos músicos segue o “navio” (um barco de madeira conduzido por um participante no ritual que o transporta em torno do corpo), vários estandartes que ostentam a imagem dos santos juninos ornamentados com colares de flores de papel e alimentos, bandeiras diversas (Cabo Verde, Portugal, PALOP, ACMJ) e as pessoas que transportam ramos construídos com alimentos frescos e secos.

Atrás dos músicos seguem as coladeiras, ou seja, mulheres que efetuam a dança da umbigada, às quais se vão juntando, ao longo do percurso, os intervenientes que queiram participar no ritual. O som dos tambores acompanha todo o percurso e é, juntamente com o golpe da umbigada e os movimentos ondulantes dos navios, um dos elementos mais distintivos do Kola San Jon.

Todo o processo de organização e preparação deste ritual é da responsabilidade da ACMJ, criada na década de 80 do século XX, naquele bairro, com o intuito de “manter vivas algumas ligações dos habitantes do bairro ao país de origem, designadamente através da manutenção de algumas práticas performativas herdadas de Cabo Verde de entre as quais se destaca o Batuque, por exemplo, e o Kola San Jon”, explica Ana Flávia Miguel.

Assim, a ACMJ foi a instituição proponente da candidatura da festa de Kola San Jon a Património Cultural Imaterial em Portugal. Esta associação apoiou, depois, Ana Flávia Miguel e Júlia Carolino, do GESTUAL, que tiveram como tarefa fazer o processo de identificação, estudo e documentação da candidatura.

Mas já desde 2008 que Ana Flávia Miguel se dedica ao estudo do Kola San Jon: em 2010 concluiu, na UA, uma dissertação de Mestrado em Música (Etnomusicologia) sobre o Kola San Jon. Entretanto a sua relação com o bairro Cova da Moura continuou, mas agora no quadro de uma investigação para a realização de uma tese de doutoramento e, também, no âmbito de um projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia intitulado “Skopeofonia – Pesquisa participativa e dialógica sobre as práticas musicais no bairro Kova M”.

Além das implicações legais, com esta classificação os moradores do bairro “sentem que a sua música, a sua dança, a sua cultura e o lugar onde vivem é reconhecido e respeitado pelos portugueses e pelo país de acolhimento (nalguns casos) e pelo seu próprio país (noutros casos)”, frisa a investigadora. “Sabemos que historicamente, a comunicação social apenas se tem interessado por notícias que são construídas a partir de uma única e singular perspetiva que coloca os moradores e o próprio bairro numa posição fragilizada. Tenho esperança de que esta candidatura possa contribuir para a construção de um futuro mais plural”, defende Ana Flávia Miguel.

Em relação ao Kola San Jon esta classificação poderá constituir o “início de uma nova etapa”. “A legislação prevê que se coloque em prática um plano de salvaguarda que foi definido por todos nós e daqui a dez anos será feita a avaliação deste processo”, explica.

Mais informações sobre esta classificação podem ser encontradas aqui e aqui.

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