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Entrevistas
Marinho Lopes e Emanuel Santos, membros da direção da Associação de Física da Universidade de Aveiro (FISUA)
“A observação do céu é uma autêntica viagem no tempo”
Marinho Lopes e Emanuel Santos e o dobsoniano, um dos cinco telescópios do FISUA
Planetas, estrelas, buracos negros, constelações, cometas, satélites e tantos outros corpos celestes ao alcance de todos. Não há enigmas - ou quase - para a Associação de Física da Universidade de Aveiro (FISUA) quando o assunto é o Universo. De olhos postos no céu desde 1993, a associação tem por missão divulgar e promover a Física e a Astronomia entre os que têm, ou gostariam de ter, a cabeça na Lua ou noutros lugares situados a distâncias inimagináveis. O planetário portátil, com que a FISUA tem visitado escolas de todo o país, os cinco telescópios para observação do céu, a construção de micro-foguetes, os workshops e as palestras preparadas para os mais diversos anos de escolaridade são algumas das plataformas de lançamento da Associação de Física da UA para aproximar o Universo dos curiosos.

Marinho Lopes e Emanuel Santos, da direcção da FISUA e estudantes de Física na UA, desvendam alguns dos segredos do Universo e explicam o porquê da associação ser uma enorme janela aberta para o céu.

O que é que o espaço tem que atrai tanto a curiosidade da humanidade?

Marinho Lopes (ML) _ O espaço é provavelmente a melhor representação do desconhecido que a humanidade teve desde tempos imemoriais. E na busca do desconhecido reside a essência da curiosidade humana. Por outro lado, o espaço é a imagem do inalcançável, do sonho que não se pode tocar, o que constitui um atrativo delicioso para o Homem que se sente sempre particularmente tentado pelo impossível. Em 1969, Neil Armstrong pisa a Lua, mas o sonho do Homem não se desvanece, transforma-se apenas. Se por um lado "o sonho comanda a vida", por outro a curiosidade inspira o desenvolvimento científico.

A observação do céu e a tentativa de o interpretar terão sido uma das primeiras formas de fazer ciência?

Emanuel Santos (ES) _ Acredito que sim. Ao contrário dos dias de hoje, em que temos os “nossos céus de cidade” cheios de luz que nos impedem de contemplar a maior parte dos objetos celestes, em tempos remotos a observação à vista desarmada era mais fácil e rica. A curiosidade natural do Homem permitiu-lhe desde cedo reconhecer padrões no céu, prever efemérides e compreender um pouco a mecânica celeste. Durante muitos séculos, e em diferentes civilizações, o estudo dos astros servia para antecipar variados fenómenos, alguns reais, outros imaginários, maioritariamente mal interpretados, onde o divino e o transcendente eram uma componente indissociável do conhecimento. A fantasia da astrologia emergia aliada e unida com a astronomia, atribuindo significados e alegorias aos movimentos aparentes de estrelas, dos planetas, da Lua, e de fenómenos mais raros como os eclipses ou chuvas de estrelas. Por seu lado, a astronomia, agregada a uma meteorologia elementar, veio a permitir, por exemplo, a contabilização do tempo e o reconhecimento das estações do ano, o que foi de importância incontornável para a organização de sementeiras, colheitas e outras atividades agrícolas, bem como para o planeamento de migrações locais devido às monções.

O que quer ver hoje no céu o público que vos procura?

ES _ Hoje em dia as pessoas procuram-nos mais pela vontade de quererem aprender um pouco mais sobre astronomia, pela vontade de aprender a reconhecer o céu e para se iniciarem no estudo e uso de equipamentos já mais acessíveis ao público em geral. Esta é uma das nossas missões na associação: divulgar e promover o conhecimento científico junto do público, nomeadamente nas áreas da física e astronomia, e assim contribuir um pouco para a literacia científica junto dos mais variados públicos.

E em relação às crianças? O que as cativa tanto no Universo?

ML_ As crianças têm uma ânsia especial por aprender mais. Tudo representa um mistério para elas, um segredo que elas querem conhecer. Como disse anteriormente, o Universo é uma inesgotável fonte de mistérios e chama a atenção, não só dos adultos e profissionais da astronomia, mas também das crianças.

ES _ Nos últimos anos temos tido cada vez mais um maior número de crianças e adolescentes a participarem nas nossas atividades de divulgação, nomeadamente nas sessões de observação, nos cursos livres de introdução à astronomia e nos programas de férias científicas. Parte deste sucesso deve-se a um aumento do número de instituições, associações e centros de Ciência Viva, que propiciam uma ligação e comunicação entre os investigadores e universidades com a sociedade. O aparecimento da Ciência Viva em 1996, da Agência Nacional para a Cultura Cientifica e Tecnológica, permitiu através de financiamentos que muitas entidades públicas e privadas pudessem comprar equipamentos para dinamizar atividades. Nestes primeiros anos, mais precisamente em 1997, a FISUA conseguiu financiamento para adquirir dois telescópios e um planetário portátil, sendo uma das primeiras entidades a nível nacional a levar astronomia às escolas.

Hoje em dia há um maior interesse pela astronomia? Porquê?

ES _ Um dos pontos altos da astronomia foi sem dúvida a chegada do Homem à Lua em 1969. Nessa altura, muito devido à falta de conhecimento, pôs-se em causa a veracidade deste feito e muito se conspirou. Atualmente, a maioria das pessoas compreende e conhece os factos e a história dessa corrida espacial porque também tem mais cultura e conhecimento sobre a ciência.

Outro dos fatores responsáveis pelo aumento de interesse na astronomia, teve a ver com a introdução desta ciência nos programas letivos das escolas, pela primeira vez nos anos de 1994/95. A partir dessa altura houve uma forte aposta no ensino da astronomia e, consequentemente, houve um despertar do interesse por parte de alunos, professores e encarregados de educação, acabando por generalizar-se a outros públicos.

Que segredos são desvendados no planetário portátil do FISUA?

ES _ Tal como em qualquer outro planetário, é projetado na cúpula uma simulação do céu noturno, onde se podem ver as diferentes constelações, o movimento do céu ao longo das horas, entre outros movimentos celestes. Contudo, nas nossas atividades de planetário portátil, temos a preocupação de o tornar mais interativo e de abordar outros temas relacionados com o céu noturno, o Universo e a exploração espacial, privilegiando sempre a comunicação entre o monitor e os alunos. Dependendo do ano letivo dos nossos visitantes, adequamos os conteúdos e apresentações ao programa letivo e grau de ensino.

Que características tem o planetário portátil?

ES _ O planetário consiste numa abóbada insuflável e tem capacidade para 25 crianças em cada sessão, podendo ser realizadas até seis sessões por dia. Além do seu próprio projetor do céu a 360 graus, possui um sistema de videoprojecção digital para apresentações multimédia, imagens do céu, apresentações dos conteúdos programáticos e animações realistas do céu e do Universo tal e qual como ele é.

Quais os objetivos da construção de micro-foguetes, uma atividade que a associação tem levado também às escolas? 

ES _ Neste workshop de construção e lançamento de Micro-Foguetes, os jovens são convidados a projetar e construir um projétil para posteriormente o colocarem em voo e estudarem o seu comportamento aerodinâmico e de estabilidade. Esta atividade encontra-se dividida em duas partes. Uma parte mais teórica, informativa e formativa dos conceitos científicos que podem ser explorados por cada um individualmente ou em contexto de sala de aula. A segunda parte é prática, onde os participantes aplicam todos os seus conhecimentos para construir um microfoguete com as características ideais para obter o melhor desempenho possível em voo.

Com os vossos telescópios, que utilizam nas sessões de divulgação noturna, que viagens intergalácticas podem fazer os candidatos a astronautas? 

ES _ Quando observamos ao telescópio, conseguimos ver mais e mais longe. As sessões de observação noturna são habitualmente vocacionadas para públicos que nunca tiveram contacto com um telescópio ou para pessoas que estão a iniciar-se na astronomia. Assim, começamos por identificar as principais constelações, típicas da altura do ano em que é feita a observação, pois conhecendo o céu podemos identificar facilmente os pontos cardeais, as constelações, os planetas, as nebulosas e outros objetos de céu profundo. Podem ainda ser avistados a olho nu alguns objetos que diariamente se passeiam por cima das nossas cabeças e que nem sempre as pessoas os sabem reconhecer, como satélites e a estação espacial internacional (ISS). Para uma melhor observação, procuramos que o local de observação tenha boa visibilidade do céu, com bastante horizonte e que seja o mais escurecido possível.

E a viagem ao passado começa quando se olha para o céu…

ES _ Quando estamos a olhar para as estrelas, estamos a ver a luz que foi emitida por elas há alguns anos. Por exemplo, quando olhamos para a estrela polar, estamos a ver a luz que esta estrela emitiu há 432 anos. Significa que a luz, que viaja a 300 mil quilómetros por segundo, demorou 432 anos a percorrer os 4 000 000 000 000 000 de quilómetros que nos separa dela [1 ano-luz é aproximadamente 9.460 × 1012 quilómetros]. Como cada objeto celeste está a diferente distância de nós, podemos dizer que a observação do céu é uma autêntica viagem no tempo. Ora estamos a ver a luz refletida pela Lua que demorou 1,2 segundos a chegar aos nossos olhos, como logo ao lado podemos olhar para a galáxia de andrómeda, cuja luz demorou cerca de 2,5 milhões de anos a chegar a nós. Além da observação ao telescópio, nestas sessões fazemos um passeio pelo céu onde se visitam as principais constelações dessa noite ao mesmo tempo que se conta um pouco da sua história e mitologia.

Afinal de contas, o Universo é finito ou infinito?

ML _ A questão tanto pode ser aplicada ao tempo, como ao espaço. No caso do tempo, não, não é infinito, visto que houve um princípio. Segundo as últimas medições da missão Planck da Agência Espacial Europeia, o Universo tem 13,8 mil milhões de anos. Em termos espaciais, a resposta ainda não é clara. O Universo que efetivamente podemos observar é evidentemente finito e tem um raio de cerca de 46 mil milhões de anos-luz.

E o que haverá depois dessa distância?

ML _ Sendo o Universo finito tal não implica que a questão "o que há para além dele" tenha significado - o Universo é tudo, toda a massa, energia, espaço e tempo. Para além dele não existe nada, e "nada" neste contexto não significa espaço vazio, pois o espaço, como referido, pertence ao Universo. Por outras palavras, o Universo ocupa sempre todo o espaço! Não faz sentido pensar em "exterior", pois por definição o Universo é tudo, quer ele seja finito, ou infinito.

Quais as perguntas mais frequentes levantadas pelo público para as quais o FISUA não tem resposta?

ML _ É comum perguntarem-nos a chave do euromilhões, mas esse tipo de conhecimento guardamo-lo para nosso próprio proveito [risos]. Brincadeira à parte, o público tem sempre muito interesse sobre o desenvolvimento da tecnologia, visto vivermos uma era de inovação constante, em que a ficção científica de ontem é em alguns casos a realidade de hoje. Assim, uma das questões mais vezes colocada à qual não podemos dar uma resposta definitiva é sobre o que se pode esperar da tecnologia futura.

Ciência à parte, e na base da especulação, que respostas poderemos ter um dia para essas questões?

ML _ Na questão da tecnologia futura, há um especial interesse sobre a exploração espacial. Neste âmbito, não são raras as vezes em que encontramos pessoas que nos parecem um pouco iludidas quanto ao que o futuro nos reserva. Imaginam que tendo em conta que há mais de quarenta anos fomos à Lua, então neste século ainda será possível colonizar vários planetas do sistema solar. Mas o importante a analisar é o porquê de não termos voltado à Lua durante todo este tempo. O interesse científico esmoreceu? Já sabemos tudo sobre a Lua? Não, o que se perdeu foi a motivação política. O desenvolvimento da ciência é evidentemente condicionado pelos orçamentos disponíveis, os quais são definidos primeiramente por interesses políticos e económicos.

A distância entre os astros também condiciona essa exploração espacial…

ML _ Assim é, pois as distâncias entre os astros são efetivamente astronómicas. O robô Curiosidade, por exemplo, demorou 253 dias a chegar a Marte, aproveitando a altura em que a Terra se encontrava mais próxima desse planeta, pois se se planeasse uma missão de regresso, teria que esperar que os planetas se voltassem a aproximar, pois caso contrário teria que fazer uma viagem de regresso muito maior. Júpiter, por exemplo, já se encontra a uma distância cerca de dez vezes maior quando está próximo! E se pensarmos em algo externo ao sistema solar, então bastará verificar que a estrela mais próxima, a Proxima Centauri, se encontra a mais de 4 anos-luz. Tendo em conta que a nossa nave espacial mais rápida, a Voyager 1, só alcança uns meros 77 quilómetros por segundo, comparem com a velocidade da luz - 300 mil quilómetros por segundo - e tirem as vossas conclusões. 

Portanto é natural que as novidades tecnológicas continuem a surgir voltadas para a vida na Terra.

ML _ Sim, as novidades deverão continuar a surgir cá na Terra, onde o domínio das nanotecnologias tem o potencial de continuar a revolucionar as nossas vidas, tornando-nos cada vez mais dependentes da tecnologia. Embora a eficiência energética tenha tendência a ser melhorada, o consumo de energia não deverá parar de aumentar. Provavelmente, os recursos naturais irão escassear no futuro, pelo que deverá haver toda uma indústria que produz produtos alternativos a partir de matérias que para já não são consumidas, necessitando para tal de muito mais energia do que aquela que hoje necessitamos. Paralelamente, é possível que venham a ocorrer grandes revoluções em áreas como as neurociências e a genética. Será que daqui a umas décadas a união da informática com as neurociências ainda será uma fantasia? Imagine-se o potencial! Maior conhecimento em genética permitir-nos-á definir a própria evolução da humanidade? No fim de contas acabamos apenas por oferecer mais questões a quem nos fez a pergunta.

 

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