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Entrevistas
Ana Biscaia, licenciada em Design pela Universidade de Aveiro, vencedora do Prémio Nacional de Ilustração
“It’s all about confidence!”
A ilustradora Ana Biscaia e A cadeira que queria ser sofá (fotografia: Ed Pinto)
O escritor Clovis Levi escreveu e Ana Biscaia ilustrou as páginas do livro infantil "A cadeira que queria ser sofá" que lhe valeram a conquista da 17.ª edição do Prémio Nacional de Ilustração. Licenciada em Design pela Universidade de Aveiro, Ana Biscaia, que recebeu o prémio no último mês de julho, lembra o processo criativo que cativou o júri nomeado pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. “Construído com grande liberdade”, o livro conta três histórias singulares - Espanto feliz, O piano de calda e A cadeira que queria ser sofá – que subtilmente levam o tema da morte aos leitores mais pequenos.

Pesquisou, pesquisou e, sem limite de páginas, desenhou, desenhou, desenhou até ter o chão de casa forrado a esboços. Abrandou e fez as escolhas que resultaram, nas palavras do júri, numa obra que “exibe um valor plástico arrojado na figuração e na representação alegórica da morte e da solidão, respondendo ao texto de forma simultaneamente coerente e desconcertante."

Ilustradora e designer de comunicação, com mestrado em Design Gráfico e Ilustração na Konstfack- University College of Arts, em Estocolmo, Ana Biscaia colabora com amigos em diversos projetos dentro e fora de portas. Em 2012 foi selecionada para representar Portugal na Feira do Livro de Bologna na exposição "como as cerejas".

Como foi ilustrar “A cadeira que queria ser sofá”?

“A cadeira que queria ser um sofá” foi um livro escrito pelo Clovis Levi. Um dia o Adelino Castro, o editor da Lápis de Memórias, uma editora com quem trabalho regularmente, passou-me o texto do Clovis para as mãos. Não me impôs quaisquer limitações para eu realizar este trabalho. Eu estava por minha conta.

E durante quanto tempo esteve por sua conta a ilustrar o livro?

Este livro demorou meses a ser feito. Lembro-me de que escrevi em setembro de 2011 um email ao Clovis que dizia assim:

Olá Clovis!

Falei com o Adelino a semana passada por causa da personagem da morte, e
disse-lhe que ela é para mim tão evidente e de facto ela é a personagem que
despoleta a ação na primeira história.
Tenho tido dificuldade em trabalhar neste livro porque é a primeira vez que
faço um livro sem qualquer constrangimento a nível editorial.
Quero eu dizer-te que não tenho limite de páginas nem limite de desenhos
para fazer e por isso sinto muitas vezes dificuldades e acima de tudo não
tenho qualquer indicação sobre quais as partes do texto a ilustrar.
É quase como se eu fosse uma realizadora de cinema. Perdi muito tempo a
decidir quais os momentos a ilustrar, quantos desenhos, etc.
O tempo de preparação foi exigente, obrigou-me a fazer story boards, a
muita escrita, pesquisa, avanços e recuos.
Não é uma queixa, é antes um desafio e eu sei bem que tudo isto faz parte
do processo criativo, e sem isto nada feito!
Uma coisa curiosa para mim é defrontar-me pela primeira vez com a língua
portuguesa e ela ter efeitos em mim diferentes. Abraçar a história como se
ela fosse uma música (porventura mais doce e por isso mais aberta a novas
possibilidades de desenho.
A música de Chico Buarque treinou-me muito para este encontro, mas é uma
novidade boa! Obrigou-me a escrever e a pensar. A deitar coisas fora.
Mando-te uma imagem, a morte aparece logo no início, mas para crianças, sem
querer pregar sustos...

Que mundos pesquisou em busca de inspiração para as três histórias?

Li Basquiat, olhei muito para Basquiat. Por causa do Basquiat comprei barras de óleo e com elas desenhei a história do Piano de Calda, a segunda história do livro. A primeira história é inspirada em Bruno Monguzzi. A minha formação em design de comunicação foi uma mais valia. No desenvolver do trabalho dei-me conta que não quis representar o Rei Peloponeso - porque para mim o Rei Peloponeso é aquilo que ele decidiu decretar - e logo as ilustrações viraram tipografia e são as palavras dos decretos do Rei o próprio Rei. Os desenhos não se explicam totalmente, mas por exemplo, num dos desenhos da primeira história, quando o Clovis conta que o lixo começa a inundar tudo, aparece uma garrafa a boiar nas águas e essa garrafa é a garrafa do Tom Waits… Na segunda história, quando o piano de calda pergunta à mãe Flauta de mel para onde foram todos passear e logo lhe diz que também quer ir dar esse passeio e a mãe lhe responde que ainda é cedo, existe um quadro do Noel Rosa na parede… e o Noel está lá por causa daquela música “Fita amarela” – quando eu morrer /não quero cravo nem vela / quero uma fita amarela / gravada com o nome dela (a casa dos bombons era amarela toda ela).

E a última história?

A terceira história transformei-a em banda desenhada porque o Clovis (professor e encenador de teatro) a escreveu como se de uma peça se tratasse. E nesta história aparecem muitas coisas que me são queridas (cenários que me pertencem profundamente como por exemplo a cozinha da avó Clotilde… que é a cozinha da mim Linita). O sofá que a cadeira queria ser é um sofá turco (que tem bigodes e tudo) porque foram os turcos que inventaram o sofá e a palavra é deles também.

A obra nasceu então…

Este livro foi feito ao longo de longos meses, de setembro de 2011 a abril de 2012, pela noite dentro, aos fins de semana. Um tapete de desenhos começou a ocupar o meu chão. Eu decidi fazer este livro brincando. A língua em que o livro é escrito é nossa, mas tem mais samba… Houve um dia em que eu escrevi num caderno de esboços: é preciso apanhar a onda desta língua!

De que forma surgiram as ilustrações na sua vida?

Quando eu era pequena lembro-me de adormecer no quarto dos meus pais e o meu pai estava ali, sentado ao estirador, desenhando. Mais tarde, anos volvidos, eu decidi estudar design de comunicação. Em 2005 comecei a desenhar todas as noites num período da minha vida em que regressei à Figueira. O meu cão fazia-me companhia. Um dia decidi escrever ao Nuno Valério (vi o trabalho dele no catálogo de ilustração portuguesa) para lhe mostrar desenhos. Tornámo-nos amigos. Decidi começar a juntar desenhos e enviei-os para várias editoras. O primeiro trabalho que fiz foi em 2006. Ilustrei o livro Negrume de Amadeu Batista editado pela & etc. Conheci o Vítor Silva Tavares, o Amadeu Batista, o Rui Caeiro. Com esse trabalho candidatei-me à Konstfack e fui admitida. Na melhor escola de artes da Escandinávia tive um professor de ilustração chamado Andreas Berg que é uma voz poderosíssima em mim porque me ensinou que ilustrar é um ato que acarreta grande responsabilidade intelectual.

Que prazer é esse que se retira da arte de ilustrar?

Eu gosto muito de ilustrar porque a ilustração me permite aprender muitas coisas que eu desconheço. É preciso ler muito sobre muitas coisas antes de começar a pensar desenhando. Não acredito que um bom trabalho de ilustração possa ser feito sem se ter a certeza do que se quer dizer. A grande liberdade (de criação) advém precisamente disto. Saber o que se quer dizer exatamente. O Andreas, sempre o Andreas [Andreas Berg, professor do mestrado em Design Gráfico e Ilustração que Ana Biscaia frequentou na Konstfack- University College of Arts, em Estocolmo]: “It’s all about confidence”.

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