conteúdos
links
tags
Opinião
Sugestões de verão
O verão
Pôr do sol na Praia da Barra, Ílhavo
Verão é sinónimo de viagens, passeios em família, atividades ao ar livre, muito sol e calor. Enquadradas na época estival, professores e investigadores, de vários ramos do saber da Universidade de Aveiro, apresentam as suas sugestões para um verão que alia o lazer aos desafios da ciência. Mas o que é, afinal o verão? E como é determinada a entrada desta estação? Será que o verão ocorre sempre na mesma altura do ano? As respostas são dadas por Alexandre Correia, docente no Departamento de Física.

O verão é provavelmente uma das estações do ano preferidas de todos nós. De facto, pensar no verão é muitas vezes pensar nas férias grandes, na praia, no calor, no Sol. Mas então o que é o verão? A associação entre o Sol e o calor é algo intuitivo para a maioria das pessoas, pelo que quando questionadas, respondem muitas vezes que é verão porque a Terra está mais perto do Sol. Até podia ser, mas para os habitantes do hemisfério Norte, nada mais errado, pelo menos, na época atual. Com efeito, ao ter mencionado “hemisfério Norte”, muitos leitores se lembraram imediatamente que quando é verão em Portugal é inverno em Angola, Brasil ou Moçambique e vice-versa, pelo que a teoria da proximidade com o Sol se torna imediatamente falsa... ou quase, como veremos.

A origem do verão está efetivamente relacionada com o Sol, mas não só. O principal fator nesta história é a inclinação do eixo da Terra, que é cerca de 23,5º. Se o eixo de rotação do nosso planeta fosse completamente perpendicular ao plano orbital, então não havia estações do ano. Em todo o planeta viveríamos sempre numa espécie de primavera ou outono eternos, cuja temperatura média dependeria apenas da latitude. A duração dos dias seria sempre de 12h, igual à duração das noites. E é justamente aqui que entra a inclinação do eixo da Terra. Devido à sua inclinação, há uma altura do ano em que os dias são maiores no hemisfério Norte e menores no Sul e vice-versa. Esta assimetria na exposição ao Sol é que determina as estações do ano.

O maior dia no hemisfério Norte (e maior noite no Sul) é o dia 21 de junho, dia que marca a entrada do... verão. Mas o leitor mais astuto dará por si a pensar: mas se o maior dia é a 21 de junho, então em vez de marcar a entrada do verão, não deveria antes coincidir com o meio do verão? Excelente raciocínio, que está totalmente correto se esquecermos um segundo fator: a capacidade térmica da atmosfera e dos oceanos. Quando aquecemos uma panela de água, no início a água continua fria, passado um certo tempo começa a ficar morna e depois a ferver. Se cortarmos a chama de gás, por um bocado a água continua quente, arrefecendo progressivamente. É o que acontece com o verão. Embora os dias se tornem maiores que as noites logo a 21 de março (entrada da primavera), só quando passamos o dia 21 de junho é que atingimos o aquecimento máximo, daí a entrada do verão. Embora a duração dos dias comece logo a diminuir a 21 de junho, a “panela” Terra conserva o calor durante os três meses seguintes.

No entanto, a órbita da Terra em torno do Sol é quase circular, mas só “quase”. Na realidade, a figura geométrica que a melhor descreve é uma elipse, ou seja, uma espécie de círculo achatado. Assim sendo, existe efetivamente uma altura do ano em que a Terra se encontra mais próxima do Sol, o dia 4 de janeiro, e um dia em que está mais longe, o dia 5 de julho!!! É por essa razão que o verão do hemisfério Norte é mais ameno que o verão do hemisfério Sul: no hemisfério Norte o aquecimento proveniente do aumento da duração dos dias é ligeiramente atenuado pelo arrefecimento provocado pelo maior afastamento ao Sol. No hemisfério Sul o efeito é aumentado, mas ainda assim o efeito compensador do Norte domina. A explicação para isso é o facto da distribuição dos continentes não ser homogénea, a maior parte da massa continental está no Norte, pelo que o clima do hemisfério Norte acaba por influenciar mais a temperatura média à escala global.

Por último, será que o verão ocorre sempre na mesma altura do ano? A resposta é sim e não. Por definição, o verão chega no maior dia do ano, pelo que será sempre verão quando está mais calor. No entanto, tal não vai ocorrer sempre a 21 de junho. Quando as primeiras civilizações surgiram há cerca de 6 mil anos, se usassem o calendário atual iriam marcar a entrada do verão apenas a 21 de setembro, ou seja, cerca de 3 meses mais tarde. A explicação para a variação de dia no calendário tem a ver com o movimento de precessão do eixo da Terra. Tal como um pião, a Terra não só roda em torno do seu eixo, como o próprio eixo roda em torno de um outro eixo perpendicular ao plano orbital. Enquanto que o período de rotação são cerca de 24h, o período de precessão é muito mais longo, cerca de 26 mil anos. Sendo assim, daqui por 13 mil anos, o verão no hemisfério Norte chegará a 21 de dezembro e poderemos finalmente passar o Natal, o Reveillon e o Carnaval na praia! Porém, daqui por 13 mil anos os verões serão mais quentes e os invernos mais frios, pois a Terra estará mais próxima do Sol quando for verão no hemisfério Norte...

 

Alexandre Correia
Docente no Departamento de Física

 

imprimir
tags
outras notícias