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Opinião
Sugestões de verão
A engenharia que nos rodeia
Farol da Praia da Barra
Verão é sinónimo de viagens, passeios em família, atividades ao ar livre, muito sol e calor. Enquadradas na época estival, professores e investigadores, de vários ramos do saber da Universidade de Aveiro, apresentam as suas sugestões para um verão que alia o lazer aos desafios da ciência.

A engenharia está um pouco por todo o lado à nossa volta mas, no corre-corre do dia a dia, nem sempre reparamos nela. Nas férias podemos passear mais devagar e apreciar com olhos diferentes o ambiente que nos rodeia. Num grande número das intervenções do homem no ambiente, o papel dos engenheiros é absolutamente fundamental para um desenvolvimento harmonioso do planeta.

Ria e praias.
A Ria de Aveiro é um espaço único que, associado à beleza natural, apresenta um conjunto de estruturas como as marinhas de sal, o porto de Aveiro, marinas para a prática de náutica de recreio, muros de regularização, entre outras que são essenciais ao nosso bem-estar. A vista de cima do farol permite uma boa avaliação de parte desta realidade. O equilíbrio de todo este sistema é difícil de atingir, pois se naturalmente a ria já é um sistema altamente dinâmico e complexo, as diferentes intervenções humanas vêm complicar ainda mais toda a dinâmica do sistema (pense-se, por exemplo, na localização da barra antes da sua fixação no local atual, em 1808).

Por exemplo, para aumentar a capacidade do Porto de Aveiro foi necessário prolongar o molhe norte e garantir a profundidade do canal de navegação de entrada na barra. Estas intervenções têm implicações no transporte de areia pelo mar, o que provoca alterações na posição da linha de costa a sul (Barra, Costa Nova, Vagueira, ...) e a norte (São Jacinto).

Por outro lado, a maior profundidade do canal de navegação implica um maior volume de água a entrar na ria em cada ciclo de marés, podendo, por exemplo, provocar problemas de erosão nos muros das marinhas. Para tentar minimizar os impactos nas praias provocados pela extensão do molhe norte, as areias dragadas para aprofundar o canal de navegação têm sido largadas junto à costa. É o estudo de todas estas interações e estruturas que a engenharia procura compreender, utilizando modelos numéricos, simulação em laboratório e também a experiência de intervenções anteriores, de forma a poder prever os impactes futuros das intervenções realizadas e da própria dinâmica natural do sistema.

Património construído.
Quem passeia pelas povoações da região (Aveiro, Ílhavo, Ovar, ...) facilmente se depara com um património arquitetónico, essencialmente de finais do século 19 e da primeira metade do século 20, que tem características próprias: paredes resistentes em adobe, revestimentos de azulejo (muitas vezes) e rebocos realizados com argamassas de cal. Estes materiais de construção, utilizados por serem de fácil acesso na região, foram progressivamente caindo em desuso, perdendo-se conhecimento sobre as suas propriedades. Muitas das intervenções de manutenção, necessárias e imprescindíveis em qualquer construção, foram sendo realizadas com os materiais mais modernos e entretanto correntes, mas que muitas vezes são incompatíveis com os materiais característicos da região. A consequência foi, muitas vezes, um agravamento dos problemas em vez da sua resolução.

Uma das funções da engenharia é precisamente a caracterização dos materiais tradicionais e o desenvolvimento de novos materiais e sistemas que sejam compatíveis, de forma a que a manutenção das construções seja o menos intrusiva possível e que o seu tempo de vida possa ser aumentado.

Estes dois exemplos ilustram a importância dos engenheiros no ambiente que nos rodeia e de como são fundamentais para que o desenvolvimento seja sustentado e para que, quando seja necessário intervir, as decisões possam ser realizadas com base na experiência e conhecimento científico e de forma fundamentada.

 

Paulo Cachim
Diretor do Departamento de Engenharia Civil

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