conteúdos
links
tags
Opinião
Artigo de opinião da autoria de Henrique Queiroga, docente no Departamento de Biologia
Cooperação de longo prazo para alcançar a excelência nas Ciências do Mar em Portugal
Henrique Queiroga, docente no Departamento de Biologia
Estabelecer ações de cooperação com parceiros internacionais; desenvolver programas de doutoramento e outras oportunidades de formação; criar e renovar infraestruturas e equipamentos e diversificar de opções de financiamento para acomodar as especificidades da investigação marinha. É esta a estratégia apontada por Henrique Queiroga, docente no Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, para a concretização de um plano concertado, com objetivos estabelecidos a longo prazo, para as ciências, tecnologias e gestão do mar em Portugal. O docente assina o artigo no Dia Mundial dos Oceanos, assinalado a 8 de junho.

A investigação avançada nas várias vertentes das ciências, tecnologias e gestão do ambiente marinho requer infraestruturas e equipamentos sofisticados (p. ex. estações de campo, laboratórios de hidrodinâmica, laboratórios de biologia molecular, navios de investigação, clusters de computadores). Numa época de pesadas restrições financeiras a utilização inteligente dos recursos materiais e humanos disponíveis é obrigatória, requerendo um esforço de otimização da cooperação interinstitucional.

Tradicionalmente, esta cooperação institucional tem sido difícil em Portugal. As equipas individuais dispõem de oportunidades pontuais de cooperação proporcionadas pelos diversos programas de financiamento implementados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, bem como por outras iniciativas da "sociedade civil", tal como a Oceano XXI, mas mecanismos estáveis para promover associações de longo prazo entre as instituições de I&D&I na área do mar têm sido difíceis de implementar. A título de exemplo, a Universidade de Aveiro tem estado associada a vários destes esforços de cooperação, tais como o Consórcio Oceanos (uma tentativa de associar universidades e laboratórios do estado), ou o programa doutoral em Ciências do Mar e do Ambiente (uma iniciativa conjunta dos Laboratórios Associados CESAM e CIMAR). Ambas as iniciativas estão longe de alcançar o seu pleno potencial em virtude da instabilidade dos financiamentos públicos (já para não falar dos privados, que são atualmente reduzidos) mas, sobre tudo, em consequência da ausência de um claro enquadramento que proporcione um ambiente de cooperação de longo termo, ausência essa que, de facto, favorece os objetivos de curto prazo específicos de cada equipa ou instituição, pois os benefícios gerais de longo prazo são dificilmente percetíveis.

O enquadramento geológico, físico e biogeográfico de Portugal é único a nível internacional (ecossistemas de afloramento costeiro, grandes estuários, habitats extremos no mar profundo, arquipélagos oceânicos). Este enquadramento proporciona um palco privilegiado para observar e compreender os mecanismos e as consequências das alterações globais no ambiente marinho, bem como para desenvolver de uma forma inovadora e sustentável os recursos naturais com a utilização de tecnologias recentes e emergentes.

A exploração destas oportunidades de investigação, desenvolvimento e inovação não pode descurar a cooperação internacional. Também nesta vertente a Universidade de Aveiro tem estado envolvida - através da participação em vários projetos europeus e em programas de formação avançada, tais como os doutoramentos Erasmus Mundus MARES e MACOMA e o recentemente criado Campus do Mar, em associação com Universidades da Galiza e do Norte de Portugal, o Instituto Español de Oceanografia e o Consejo Superior de Investigaciones Científicas, que oferece o programa doutoral Do Mar. Este tipo de projetos e programas é importante para o desenvolvimento científico português, mas na maior parte dos casos as sinergias criadas estão espartilhadas pela duração dos mecanismos de financiamento, pela dispersão territorial, e pelos interesses particulares, legítimos, de cada um dos parceiros e países. O caso do Campus do Mar tem o potencial para concentrar numa única região a massa crítica necessária para a constituição de um polo de investigação e desenvolvimento de nível internacional, mas o seu sucesso como campus transfronteiriço dependerá em muito, creio, da capacidade de canalizar financiamentos por parte dos parceiros portugueses.

Na minha opinião, é importante desenvolver um plano concertado, de longo prazo, para as ciências, tecnologias e gestão do mar em Portugal, baseado em financiamentos estáveis, metas claras e oportunidades justas, utilizando e potenciando economicamente o imenso laboratório natural que começa nas nossas costas. De modo a providenciar o necessário incentivo que a comunidade portuguesa das ciências marinhas espera - e está ansiosa por receber - e elevar Portugal a um plano de excelência necessário para a cooperação em pé de igualdade com os nossos parceiros internacionais, tal plano deverá incluir: associações com parceiros internacionais dispostos a apostar em cooperação de longo prazo com Portugal; programas de doutoramento e outras oportunidades de formação de alto nível; criação e renovação adequadas de infraestruturas e equipamentos; diversificação de opções de financiamento para acomodar as especificidades da investigação marinha.

É altura de nos organizarmos e de fazermos o nosso trabalho de casa!

Henrique Queiroga
Docente no Departamento de Biologia e investigador no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM)

imprimir
tags
outras notícias