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Investigação
Investigação inédita do Departamento de Engenharia Civil
Universidade de Aveiro estuda sismos em edifícios de adobe
O investigador Humberto Varum e a habitação em adobe para testes sísmicos
Que grau de destruição podem causar os sismos em edifícios de adobe? Que técnicas podem ser aplicadas à estrutura dessas construções de modo a minimizar os estragos perante um abalo de terra? Há cerca de dez anos a estudar as características daquele material de construção e o modo como se comporta durante um terramoto, o Departamento de Engenharia Civil (DECivil) da Universidade de Aveiro (UA) tem as respostas.

Num país em que boa parte das construções são feitas daquele material à base de terra crua, os dados da UA são disponibilizados à comunidade técnica e às autarquias de forma a que estas possam desenvolver ações de reabilitação mais corretas dos edifícios, muitos dos quais de valor histórico.

Os mais recentes testes de simulação sísmica, efetuados numa pequena habitação construída em adobe no próprio laboratório daquele departamento da UA, permitiram aos investigadores estudar o comportamento das várias paredes do edifício em pleno terramoto. Deslocamentos do edifício, fissuras na estrutura e a evolução dos danos ao longo do abalo provocado por braços hidráulicos até ao colapso da habitação deram à equipa do DECivil os dados necessários para calibrar modelos numéricos que vão simular virtualmente o comportamento num cenário sísmico de qualquer edifício real construído em adobe.

O objetivo é que, na posse destes dados, não só os edifícios possam sofrer intervenções de reforço estrutural que minimizem o impacto de um possível sismo, como também, se o abalo acontecer, perceber-se qual a melhor forma de as recuperar e reforçar.

Até agora, muitas intervenções de reabilitação dos edifícios “tinham uma abordagem inadequada por falta de informação sobre o comportamento das estruturas de adobe”, aponta Humberto Varum, especialista na área de reabilitação e da sísmica do DECivil. O coordenador do estudo aponta as inúmeras intervenções excessivamente intrusivas e as demolições de edifícios emblemáticos que poderiam ter sido evitadas com as técnicas de reabilitação estudadas pela equipa de investigação da UA.

Adobe transversal ao mundo

Espalhada um pouco por todo o país, a grande mancha da construção em adobe estende-se pela Beira Litoral e pelos concelhos de Santarém e Tomar. “Temos, por exemplo, muitos municípios no distrito de Aveiro onde as construções anteriores ao uso do betão armado são praticamente todas de adobe. É o caso particular das duas freguesias da cidade de Aveiro e de concelhos como Anadia, Vagos, Murtosa e Ílhavo”, aponta Humberto Varum. A maior parte desses edifícios foram construídos em finais do século XIX e na primeira metade do século XX, numa “lógica afastada das preocupações com a segurança sísmica que temos hoje em dia”.

Globalmente, diz o investigador, cerca de um terço da população mundial vive em habitações feitas de terra. “Muitas dessas zonas, onde existe uma densidade importante de construções de terra, são locais onde o nível de perigosidade sísmica é moderado ou elevado”, aponta Humberto Varum. Por isso, os resultados dos estudos efetuados no Departamento de Engenharia Civil da UA têm um interesse além fronteiras até porque, para além da academia de Aveiro, apenas a Pontifícia Universidade Católica do Peru tem estudado a relação sismos/construções de adobe.

“É um problema mundial o altíssimo impacto que os sismos têm sobre as construções em adobe, quer em termos sociais, quer em termos económicos, e o planeta tem assistido a esta questão quase de uma forma passiva”, aponta o investigador. De facto, reconhece, “não tem havido um movimento forte que nos leve a avaliar com mais rigor a vulnerabilidade sísmica à escala global de forma a promover a melhoria das condições de segurança das construções de adobe”.

O DECivil tem já em carteira uma lista de técnicas de reforço estrutural que permitem impor às construções de adobe níveis de segurança sísmica mais elevados. Cada casa é um caso mas todas as técnicas passam pela melhoria das propriedades das próprias paredes e/ou da forma como interagem no conjunto. Embeber na argamassa de reboco uma malha de reforço para dar ao material uma boa resistência em tração e corte e melhorar o comportamento do conjunto dos elementos que compõe a estrutura são algumas das soluções que o DECivil tem estudado com sucesso.

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