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Entrevistas
Investigadora Milene Matos fala no Dia Internacional da Biodiversidade
Biodiversidade da região guarda ainda muito por descobrir
Milene Matos estuda biodiversidade do Buçaco
A assinalar o Dia Internacional da Biodiversidade, a 22 de maio, a investigadora Milene Matos, da Unidade de Vida Selvagem do Departamento de Biologia (dbio) da UA, refere em entrevista as diferentes situações de risco dos seres vivos da região e lembra que as ameaças persistem. Também responsável pelo Serviço Educativo da Fundação Mata do Buçaco, Milene Matos fala do cuidadoso e demorado trabalho de recuperação dos estragos que restam do mau tempo naquela Mata, onde muito há ainda por descobrir, para além da investigação produzida… E outras zonas da região também guardam mistérios por desvendar, assinala.

Como tem evoluído a biodiversidade na região de Aveiro, ao longo dos últimos anos, e em particular na Mata do Buçaco que conhece mais diretamente? As ameaçadas têm-se agravado?

A bem da verdade, existem exemplos para todas as situações: melhoria, estabilidade e declínio, dependendo do grupo de animais – ou plantas - a que nos estejamos a referir. Isto, porque o declínio de alguns grupos geram oportunidades para outros, ocorrendo no mundo natural uma dinâmica constante. Mas de um modo muito geral, eu diria que algumas espécies importantes, as que já estavam ameaçadas, tenderam a agravar a situação, por se terem mantido ou agravado os fatores de ameaça. Refiro-me aos anfíbios, aos morcegos, a diversas espécies de aves ou insetos. Esta situação verifica-se mais por toda a região do que no Buçaco, onde há vários anos todos os esforços são empreendidos para proteger a biodiversidade, principalmente a que está mais ameaçada. Os fatores de ameaça têm quase exclusivamente origem nas atividades e pressões humanas, diretas ou indiretas.  

O Buçaco pode ser considerado um caso curioso no sentido em que contraria uma ideia errada instalada na opinião pública: que biodiversidade que vale a pena ver é a que existe nas zonas “mais naturais”… O Buçaco é uma construção (plantação) feita com elementos naturais, para além das edificações e de todo o património histórico associado… Dos estudos que têm sido feitos pela UA, quais os aspetos únicos na diversidade da flora do Buçaco?

O Buçaco é um local privilegiado, porque tendo sido moldado pela mão do homem na maioria da sua área, mantém partes perfeitamente naturais, com as características do que seria a floresta primitiva antes da ocupação humana – é esta formação vegetação que a equipa da UA batizou de “floresta relíquia”. Os Carmelitas Descalços, que iniciaram a transformação da mata, e, mais tarde, os Serviços Florestais, souberam respeitar a natureza daquele local, plantando muitas espécies - quer autóctones, quer exóticas, mas com tal mestria, que “dividiram” os trabalhos entre aumentar a coleção botânica nuns locais e preservar a naturalidade noutros. É toda a unicidade, idade e complexidade da Mata que fazem dela o famoso “oásis de biodiversidade”, um local com características únicas no Mundo inteiro. Ali, a história natural, cultural e edificada, são indissociáveis. E cada área do conhecimento tem demonstrado existirem ali aspetos irrepetíveis, convivendo harmoniosamente. Ao nível da flora, terei de salientar a existência do “adernal”, um dos habitats naturais que compõem a floresta-relíquia, mas que não está sequer descrito na Diretiva Habitats, por desconhecimento do mesmo aquando da redação da legislação; e o arboreto, uma coleção botânica de referência a nível europeu, que a equipa do herbário da dbio-UA quantificou com cerca de 300 espécies lenhosas provenientes dos quatro cantos do Mundo.

…E quando à diversidade da fauna?

No que respeita à fauna, o aspeto mais notório é a diversidade de espécies e a abundância de indivíduos que ali existe. Estamos a falar de uma ótima representação da fauna de toda a região centro do País (incluindo muitas das nossas espécies endémicas, ameaçadas e protegidas) como que “condensada” em apenas 105 hectares. O seu valor conservacionista, resiliência e diversidade são incríveis, sendo comparáveis apenas com os que se encontram na riqueza estrutural dos pequenos campos da nossa agricultura tradicional.

O temporal de há dois meses fez muitos estragos e houve perdas importantes na Mata do Buçaco. Que medidas estão a ser implementadas para recuperar o que foi destruído? Vai ser possível recuperar totalmente?

O ciclone Gong deixou marcas muito profundas na Mata do Buçaco, quer no património natural, quer no edificado. Alguns Passos da Via Sacra (que é também única no Mundo) ficaram danificados, assim como capelas e fontes, que não se podem recuperar simplesmente com “tijolo e massa”. A recuperação tem de obedecer aos critérios da conservação e restauro de monumentos e edifícios classificados, havendo poucas empresas preparadas para o fazer… A este propósito está em estado embrionário uma colaboração com o Departamento de Engenharia Civil da UA, que já se mostrou disponível para colaborar, com investigação e aplicação dos materiais tradicionais que possibilitem manter a verdade histórica. Ao nível do património natural, o vento derrubou vários milhares de árvores, algumas das quais exemplares únicos de determinadas espécies na Mata, outras árvores centenárias e históricas. Neste sentido, são perdas ecologicamente irreparáveis e emocionalmente muito dolorosas, para quem diariamente ali trabalha. Nas zonas menos visitadas e com difícil acesso, foram abertas algumas clareiras vastas, em área que anteriormente eram floresta densa. A remoção dos materiais lenhosos é necessariamente muito lenta, tem de ser feita com muito cuidado para não causar danos ainda piores, e sempre com acompanhamento de técnicos das várias áreas envolvidas na gestão florestal. A recuperação vai levar muitas décadas. As medidas imediatas após o temporal prenderam-se com a abertura dos principais acessos e restauro da segurança para os visitantes e funcionários, devolvendo a ordem e a “visitabilidade” às principais partes da Mata. Agora decorrem os trabalhos mais minuciosos de limpeza, remoção de detritos, replantação, que ainda vão demorar muitos meses a terminar. Em paralelo, e atendendo à falta de meios financeiros e humanos, organizam-se ações de voluntariado, aumenta-se a visibilidade e divulgação da mesma e procuram-se parceiros estratégicos para o futuro da Mata e do seu património.

Pode dizer-se que o Buçaco tem sido um importante laboratório da UA, porque tem contribuído para pôr em prática e desenvolver o conhecimento adquirido?

Sim, a Mata é um verdadeiro laboratório vivo! A UA e a Mata (a Fundação) criaram sinergias muito interessantes, onde se pode investigar a Biologia, nas suas mais variadas vertentes, a Educação Ambiental, a Arquitetura e História, etc., devolvendo o conhecimento adquirido à Mata e colocando-o ao dispor do público em geral, com cariz científico-pedagógico, mas acessível a todos.

Houve estudos sobre a biodiversidade, sobre a flora, sobre a fauna, sobre cogumelos… Que falta ainda mais estudar e descobrir no Buçaco?

Estão muitos estudos ainda em curso, sendo que os resultados dos mesmos, certamente abrirão a porta a novas questões e hipóteses para indagar. Os estudos sobre fauna, flora e cogumelos mantêm-se, no âmbito do projeto Life + BRIGHT aprovado para a Mata - que tem como objetivo o controlo de espécies invasoras – e na lógica do pós-temporal. Decorre ainda o estudo da fauna de invertebrados (que são aos milhares!), e uma investigação sobre o papel dos vertebrados na regeneração florestal. Ainda este ano, começará o estudo do potencial de pequenos mamíferos como agentes controladores de espécies invasoras. Está também em curso uma investigação ao nível da educação ambiental, sobre a eficácia de ferramentas pedagógicas desenvolvidas no DBIO. Enfim, a Mata é um ótimo laboratório!

A criação da Fundação Mata do Buçaco tem permitido, para além da conservação e valorização do património do Buçaco, aplicar as atenções da investigação naquela zona. Haverá muitos outros “Buçacos” por descobrir na região?

Talvez não com tamanha relevância histórica, mas creio que há por aqui perto mais duas ou três maravilhas a serem (re)descobertas, com perfis diferentes, mas com muito interesse já identificado, pelo menos pelo dbio: Baixo Vouga Lagunar e Serra do Caramulo. Esperemos que o futuro reserve boas oportunidades para esses locais, também.

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