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Entrevistas
José Eduardo Rebelo, biólogo da Universidade de Aveiro e investigador sobre o Luto
Luto: “É possível conviver de forma serena e apaziguada com o passado”
19.4.2013
José Eduardo Rebelo, um pioneiro em Portugal no estudo do Luto
Biólogo e professor na Universidade de Aveiro, José Eduardo Rebelo perdeu a família há 20 anos atrás. Um acidente de carro roubou-lhe a mulher, grávida, e duas filhas, uma com sete e outra com um ano de idade. Na sequência da catástrofe, o investigador do Departamento de Biologia viu-se confrontado com um turbilhão de emoções e sentimentos agudos durante cerca de uma década. De entre as estratégias de que se socorreu para lidar com a nova realidade, destaca-se a conclusão de um mestrado em psicologia.

O biólogo fundou depois o Espaço do Luto, a APELO–Associação do Apoio à Pessoa em Luto, a SPEIL–Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção do Luto e o OLP–Observatório do Luto em Portugal, espaços destinados a auxiliar quem, como ele, sofreu perdas profundas, a formar Conselheiros do Luto e a desenvolver projetos de pesquisa e de pós-graduação na área do luto.

Pioneiro em Portugal no estudo do sofrimento pela perda, José Eduardo Rebelo publicou os livros “Desatar o Nó do Luto: Silêncios, Receios e Tabus”, “Amor, Luto e Solidão” e “Defilhar: Como viver a perda de um filho”. Este último vai ter lançamento nacional durante a segunda edição do Congresso “O Luto em Portugal”, em Lisboa. Porque é possível aprender a viver com a dor e seguir em frente.

Há uma explicação científica para o sofrimento sentido pela perda de um filho?

O luto é um processo de reação a uma perda com significado profundo, seja por morte ou afastamento de pessoa querida, pelo nascimento de um filho deficiente, por amputação de parte do corpo ou por desvalorização social ou não reconhecimento de competências.

Quando o filho morre, nasce deficiente ou perde capacitações, os pais enfrentam um complexo de sentimentos e emoções determinados pelas aptidões com que a herança genética os dotou – o caráter – e pela educação formal e informal de que foram e são alvo – a personalidade. O “defilhar”, o luto pela perda de um filho, provoca um sofrimento atroz, por ameaçar o âmago da existência do próprio defilhado. Contrariam-se instintos, como o de preservação e cuidado da criança, e expectativas, como a vinculação, a sensação de segurança física e emocional. Frustra-se a prossecução intemporal do gene, da cortesia e da projeção de bondade universal. A dor intensa e prolongada do defilhar resulta da falência do cerne da vida: a interrupção da sua continuidade.

Como é que os pais vivenciam o luto?

O defilhar, embora seja complexo e, em regra, alongado por toda a vida, não se manifesta de forma doentia, na imensa maioria dos casos. O defilhado alterna o seu comportamento entre a desorganização emocional profunda e a consciencialização dos detalhes da perda, em todo o processo que contempla: a negação ativa da perda, durante a fase aguda do luto; a descrença da privação, caraterizada pela busca da multidimensionalidade da pessoa perdida; o reconhecimento da irreversibilidade da perda, que se manifesta em episódios de raiva, culpa, depressão, deceção, desapego, angústia, agonia e medo; a superação da perda, em que se opera uma reconciliação com o passado e se reassume o presente como o tempo adequado para a vida.

Será alguma vez possível extinguir essa dor ou é preciso aprender a viver com ela até ao fim da vida?

O sofrimento provocado pelo defilhar não é constante. À medida que o luto decorre, o defilhado encontra estratégias de conformação com a ausência ou a deficiência do filho. A superação do luto, neste processo, não culmina com a aceitação, como acontece, com frequência, na perda de antepassados ou na viuvez. O sentimento de ablação de uma parte de si próprio expõe o defilhado a uma ferida cavada, cuja cicatriz permanece indelével até ao fim dos seus dias. Todavia, superadas a negação, a descrença e o reconhecimento da perda, é possível conviver de forma serena e apaziguada com o passado, não com doces e suaves recordações, como nos lutos aceites, mas com memórias agridoces.

Depois do acidente que envolveu a sua família fez um Mestrado em Psicologia da Saúde e Intervenção Comunitária. Porquê?

Com ironia, costumo mencionar a realização do mestrado como uma “deformação profissional”. Habituado à curiosidade científica de tentar explicar a realidade da vida, face a uma década de vivência conturbada do defilhar, senti necessidade de consciencializar sentimentos, emoções e comportamentos caóticos vivenciados no luto. A frequência académica da psicologia do luto pareceu-me, na altura, o mais adequado, tendo vindo a revelar-se, pessoalmente, muito útil. Este foi o primeiro período de uma reflexão aprofundada sobre a temática do luto que tenho seguido, através da escrita, intervenção comunitária e investigação científica, na última década.

É pioneiro, no nosso país, na escrita sobre o luto. Quer falar-nos sobre os seus livros?

Os três livros já publicados versam o luto de forma genérica e focalizada em temas específicos. O primeiro, “Desatar o nó do luto: silêncios, receios e tabus” dá resposta a três questões essenciais: o que é o luto; qual a necessidade de o realizar e se o processo vivenciado é doentio. Aborda, também, a perspetiva do primeiro grande pensador sobre a temática: Sigmund Freud. O segundo, “Amor, Luto e Solidão”, analisa a essência da vida, em geral, e da conjugalidade, em particular, observando o desenrolar da construção, manutenção e perda dos afetos. É uma obra mais vocacionada para o luto por divórcio ou viuvez. O mais recente, “Defilhar: como viver a perda de um filho”, aborda o luto dos pais, por morte, deficiência ou toxicodependência dos filhos. Introduz um novo item lexical, “defilhar”, o luto por perda de um filho, e os derivados “defilhado” e “defilhada”, o pai e a mãe em luto por um filho, no intuito de conceder a quem sofre esta dor maior uma identidade e aceitação social.    

Fundou o Espaço do Luto, a associação APELO, a SPEIL-Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção do Luto e o Observatório do Luto em Portugal para ajudar pessoas que sofreram perdas profundas e para formar e investigar sobre o luto. Fale-nos destas atividades.

No início do próximo ano a APELO comemora uma década de atividade dedicada ao apoio a pessoas, famílias e comunidades em luto. Tem sido um trajeto paulatino, mas persistente, no sentido de uma atividade empenhada e de excelência, espalhada pelo país, através dos CAPELO-Centros do Apoio à Pessoa em Luto. A ação recebeu um impulso significativo com a formação de Conselheiros do Luto promovida, desde há dois anos, pelo Espaço do Luto, com a acreditação da SPEIL. A investigação científica e o apoio a mestrados e doutoramentos, em colaboração com a Universidade de Aveiro, as Faculdades de Psicologia das Universidades do Porto e Coimbra e a Universidade Católica, através do Grupo de Investigação em Estudos Científicos do Luto, sediado no Espaço do Luto, alicerçam uma viragem na visão sobre o luto no país. Essa nova perspetiva é sedimentada no Congresso “O Luto em Portugal”, o qual terá a sua segunda edição, em Lisboa.

De que forma o biólogo e o investigador da temática do luto convivem em si?

A compreensão das leis essenciais da vida, como motivação primeira a nível científico e filosófico, tem sido incontornável e estruturante para a reflexão, pesquisa e intervenção sobre o luto.

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