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Opinião
Artigo de opinião da autoria de Alexandra Monteiro, investigadora no CESAM
Se eu fosse um livro infantil…
Alexandra Monteiro, investigadora no CESAM e autora de livros infantis
No dia dedicado à literatura infantil, Alexandra Monteiro, escritora e investigadora no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), laboratório associado da Universidade de Aveiro, deixa uma reflexão sobre importância do livro nos primeiros anos de vida. E porque todos os dias são bons para visitar uma biblioteca, fica a sugestão da autora: “Hoje é um bom dia para lermos uma história a uma criança, seja pequena ou grande”.

Disseram-me que hoje era o meu dia. No mundo inteiro. E parece ser, de facto, um dia diferente dos outros. Desde manhã cedo que olham para mim como se acabassem de encontrar o que procuravam há muito, para depois me partilharem de mãos em mãos, como um presente precioso. E não há melhor sensação do que a de ser aberto com olhos grandes arregalados e com um sorriso que vai aparecendo à medida que eu vou deixando… Por vezes, dão gargalhadas. Algumas de espanto, outras de troça, e outras simplesmente divertidas. Gosto de todas. Mas as melhores são as dos mais pequeninos, que transbordam de autenticidade e genuinidade.

Tomara que eu não cresça. Que continue sempre cheio de histórias e desenhos entrelaçados nas palavras. Porque os meus primos que são mais gordos (e têm tantas letras que não deixam espaço para desenhos) parecem-me demasiado sérios e cinzentos. Modéstia à parte aposto que não conseguem pôr os mais pequeninos a rir, chorar, ou mesmo a dormir tão bem e tão rápido como eu. E não são só os mais pequeninos que querem saber o que está na página a seguir, também os maiores – aqueles que leem os mais gordos e cheios de palavras - gostam de me ter ao colo, com ou sem pequeninos por perto. É por isso que eu me sinto um gigante mesmo quando me chamam “infantil”. Um gigante que cabe no colo de todos…

Quando me abrem, sinto o nervoso miudinho de uma estreia, que vai diminuindo e dando lugar à confiança enquanto as páginas são percorridas, até acabar em saudade quando me fecham e guardam na prateleira de cima. Sou tentado a querer estar sempre aberto à mão de semear. Mas não, não trocaria a emoção da escolha quando sou (ou não) o preferido numa prateleira cheia. Definitivamente. Podem pôr-me novamente na estante. Esperarei impaciente, mas confiante, pela minha próxima vez. Tenho todo o mundo do tempo.

Se eu fosse um livro (infantil) este seria o texto que eu escreveria hoje aqui. Mas não sou... Sou alguém que gosta de escrever histórias que caibam neles, acompanhadas de desenhos que lhes deem uma vida mais colorida e com mais significado. Imaginar no que um livro se transforma depois de lhe darmos vida é, no mínimo, engraçado… Sei que esta imaginação, minha e de tantos outros, nunca se esgotará e que haverá sempre criadores de histórias prontos a tornar o mundo num tesouro mais colorido.

Um livro infantil é especialmente importante por ser um dos primeiros das nossas vidas. Um dos primeiros a ser contado, a ser lido, a ser gostado. Simplesmente, um dos primeiros. Talvez por isso, faça todo o sentido haver um Dia Mundial do Livro Infantil. Porque todos os pequeninos devem crescer e tornarem-se grandes ao som de histórias que os façam sonhar e fantasiar. E os grandes continuar a ler e a ver o mundo com os olhos dos mais pequenos, pois só assim poderão ser realmente “gigantes”.

Hoje é um bom dia para lermos uma história a uma criança, seja pequena ou grande, ou oferecermos a nossa história preferida a alguém que não tenha tido o privilégio de a conhecer. Um bom dia para entrar numa biblioteca, como a da Universidade de Aveiro, passar os olhos pelas prateleiras e causar aquele nervoso miudinho aos vários livros. Porque, já o dizia Walt Disney, tudo o que conseguimos imaginar torna-se real…

 

Alexandra Monteiro

Investigadora no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e autora de livros infantis

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