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Entrevistas
Graham John Pierce, responsável pela Cátedra CGD Estudos do Mar da Universidade de Aveiro
“Prefiro embarcar em projetos que ajudem a manter a integridade do ambiente marinho”
O investigador Graham John Pierce
Mamíferos marinhos, cefalópodes, biodiversidade marinha, gestão de zonas costeiras e modelos de habitat em animais marinhos são algumas das áreas que Graham John Pierce, professor catedrático da Universidade de Aberdeen, na Escócia, trata há muito por tu. O responsável pela Cátedra CGD Estudos do Mar da Universidade de Aveiro (UA) é mesmo um dos maiores especialistas mundiais em Biologia Marinha e Pescas. O investigador, cujo trabalho se tem centrado particularmente nas águas costeiras da Península Ibérica, da Escócia, do Mediterrâneo e do Atlântico Sudoeste, é o novo ‘ponta de lança’ de uma academia cada vez mais apostada em vencer nos campos da investigação e da economia do mar.

Financiada pela Caixa Geral de Depósitos, a Cátedra vai ser lançada dia 22 fevereiro, a partir das 16h00 no Auditório da Reitoria, na mesma sessão onde vão ser apresentados o Aveiro Institute for Marine Science and Technology e a Plataforma Tecnológica do Mar.

Quais os pontos que salienta da sua carreira científica?

Entre o trabalho mais gratificante que já desenvolvi encontra-se, por certo, a coordenação de projetos europeus como o BIOCET, sobre a bioacumulação de contaminantes em mamíferos marinhos (2001-04), o CEPHSTOCK, sobre a biologia, ecologia e pesca de cefalópodes (2002-05) e a rede de formação ECOSUMMER Marie Curie (2006-09). Durante parte deste último período fui também responsável por uma cadeira do Marie Curie em Vigo, Espanha, no âmbito do projeto ANIMATE. Os dois últimos projetos tiveram grande ênfase na formação pós-graduada. O projeto ANIMATE deu-me a possibilidade de cossupervisionar cinco estudantes de doutoramento em universidades portuguesas (Aveiro e Minho), com bolsas FCT.

É provavelmente evidente que os meus interesses de investigação são variados, dentro das áreas da biologia e da ecologia, e nos últimos anos o meu grupo tem vindo a integrar estudos socioeconómicos e biológicos.

Qual é a sua opinião em relação à forma como se pesca em Portugal, particularmente no que diz respeito a sardinhas e cefalópodes?

Penso que a gestão e manutenção do processo de pesca de cefalópodes na Europa estão ainda a passar pela sua infância, mas reconheço que em Portugal tem havido um grande esforço na sua melhoria através do trabalho desenvolvido com pescadores no sentido de desenvolver novas abordagens na pesca de polvos de pequena dimensão.

A pesca da sardinha tem, recentemente, vindo a tornar-se controversa. Por princípio, a certificação MSC é um processo que encoraja as boas práticas de pesca. Contudo, também apresenta os seus desafios. O Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, da UA, através de José Vingada e da sua equipa, abriu o caminho no que diz respeito a trabalhar com pescadores portugueses de forma a gerir e mitigar a apanha involuntária de cetáceos.

Como encara a evolução de viveiros marinhos em Portugal?

Na Europa em geral, a reforma da CPF e a Diretiva-Quadro “Estratégia Marinha” estão a ser um grande motor para a prática de uma pesca “baseada no ecossistema”. Contudo, os assuntos relacionados com a sua implementação têm de ser resolvidos à escala nacional e regional, preferencialmente tendo a participação ativa da indústria das pescas. Um bom exemplo disso é o anúncio recente de que as descargas de peixe serão banidas, o que parece, em princípio, algo bom, mas que está a ser introduzido sem que tenha havido grande preocupação com a sua implementação. Portugal tem um papel importante no setor de pesca de peixe de pequena escala e vai ser um grande desafio manter esta prática sustentável tanto em termos ecológicos como socioeconómicos.

Que tipo de projetos pretende levar a cabo na UA?

Não quero estabelecer neste momento qualquer fronteira nesse aspeto. Contudo, os meus interesses centram-se na biologia e ecologia marinha e, em particular, nos cefalópodes e cetáceos.

Comecei a minha carreira a trabalhar na área da ecologia comportamental desenvolvendo, essencialmente, uma investigação pura, baseada na curiosidade. No entanto, a maioria do trabalho que desenvolvi subsequentemente foi no âmbito da ciência aplicada, sobretudo no que diz respeito à pesca e conservação marítima e, frequentemente, à interação entre os dois. Prefiro embarcar em projetos com valor social e que ajudem a manter a integridade do ambiente marinho. Contudo, a investigação ativa depende essencialmente dos fundos recebidos, sejam do setor público ou privado, a nível regional, nacional ou europeu.

Como começou a sua paixão pelo mar?

Ao contrário de muitos (provavelmente da maioria dos) biólogos marinhos, eu não comecei a minha carreira com o objetivo de me tornar um biólogo marinho. O meu interesse estava mais centrado no comportamento animal. Depois de terminar o meu Doutoramento, trabalhei num projeto relacionado com a dieta das focas e, posteriormente, num outro sobre a biologia e pesca das lulas, tendo-me então apercebido que queria continuar a trabalhar nessa área (e que precisava de aprender mais coisas sobre a biologia marinha).

Dentro da sua área de pesquisa, para que questões gostaria de encontrar respostas?

A melhor coisa na investigação (ou possivelmente a pior, quando se procuram respostas definitivas) é que todos os estudos levantam questões. 

O vídeo da apresentação da entrevista pode ser visto aqui.

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