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Entrevistas
Formada na UA, Sara Bárrios é bióloga no Jardim Botânico de Kew
"O trabalho que faço parece-me um sonho"
Sara Bárrios nas estufas dos Kew Gardens
Para uma bióloga encantada pelo mundo das plantas seria difícil trabalhar num local mais apaixonante. O Jardim Botânico Real de Kew, em Inglaterra, é um dos mais extensos, antigos e prestigiados jardins botânicos do mundo e Sara Bárrios é uma das biólogas que lhe dá alma e rumo. Sara contribui para a implementação da Estratégia Mundial para a Conservação das Plantas, um plano pensado pela Convention for Biological Diversity (promovido pela ONU) para diminuir à escala planetária o risco de extinção de plantas.

Em 2003 licenciou-se em Biologia pela Universidade de Aveiro (UA). Seguiram-se dois anos de trabalho divididos entre a Associação Portuguesa de Educação Ambiental e o Herbário da academia de Aveiro. Em 2005 bateu à porta de um sonho, entrou e voou para os jardins de Kew, onde um projeto de conservação de plantas nos territórios ultramarinos do Reino Unido estava mesmo a precisar do trabalho de Sara. A dedicação da bióloga formada em Aveiro é atualmente uma enorme contribuição no trabalho que os jardins londrinos fazem em prol da conservação de uma das maiores riquezas do planeta: a biodiversidade vegetal.

Nos KewSara trabalha num herbário com 8 milhões de plantas. Já foi coordenadora do projeto Iniciativa para as Plantas Latino-Americanas nos Kew, um dos maiores projetos de digitalização de espécimenes tipo de herbário e que envolveu mais de 130 instituições do mundo da botânica. Hoje, a bióloga da UA está novamente na equipa dos territórios ultramarinos dos Kew. Desta vez, Sara está a preparar uma plataforma digital das coleções que existem no jardim inglês e a analisar em que aspetos precisam de ser melhoradas.

As viagens anuais que Sara faz às ilhas inglesas das Caraíbas, onde se embrenha nas florestas tropicais em busca de espécies para estudar e acrescentar às coleções dos Kew, é apenas um (enorme!) pormenor que faz de Sara, provavelmente, a bióloga mais feliz do mundo. Contribui para a implementação da Estratégia Mundial para a Conservação das Plantas, um plano pensado pela Convention for Biological Diversity (promovido pela ONU). Na prática, para além de estudar a biodiversidade vegetal desses territórios, onde muitas espécies esperam ainda por serem descobertas, a bióloga portuguesa promove localmente estratégias que combatem o risco de extinção das espécies mais vulneráveis, seja através, por exemplo, do estabelecimento de áreas protegidas, seja pela sensibilização e formação de técnicos locais.

Aqui, aqui ou, por exemplo, aqui, ao longo do blog que Sara mantém com a equipa, pode-se medir um pouco o tamanho dessa felicidade.


Era um sonho de criança ser bióloga?

Na escola primária dizia a toda a gente que queria ser professora de matemática. Felizmente, para as crianças portuguesas que não me deu para isso! Depois, devo ter mudado de profissão todos os anos. Foi por ter achado que gostava mais de Biologia do que de Geografia, que escolhi ciências naturais na escola secundária.

E como ganha raiz a paixão pelas plantas?

Decidi que ia estudar plantas quando o meu professor de Biologia do 12o ano entrou na aula e disse: «Vamos começar pelas plantas pois são a coisa mais interessante que há para estudar»! Uma semana depois já concordava com ele! Nos anos anteriores, as plantas eram sempre deixadas para o final do ano lectivo e, na maioria das vezes, os professores acabavam por não ter tempo para completar o currículo. Mas acho que tive sorte em ter escolhido Biologia, embora agora não tenha dúvidas o quanto gosto do que faço!

De onde surge a oportunidade de ir para Jardim Botânico Real de Kew?

Durante o ano em que trabalhei no herbário da UA, percebi que  gostava muito de trabalhar com plantas. E sempre tinha tido vontade de viver uns meses num país distinto… Assim, decidi procurar um sítio onde pudesse trabalhar com plantas e passar, pelo menos, seis meses. Decidi ir falar com o Prof. Jorge Paiva, do Jardim Botânico em Coimbra.

O Prof. Jorge Paiva que é umas das maiores referências da botânica nacional…

O Prof. Jorge Paiva é uma inspiração para qualquer botânico português! Ele, que mal me conhecia, recebeu-me extremamente bem. Disse-lhe que queria estudar plantas e ele recomendou-me os Kew Gardens. E fez uma coisa para a qual lhe estarei eternamente grata. Como o professor Jorge Paiva já tinha estado nos Kew e conhecia o então Keeper dos Kew, pegou no telefone e perguntou-lhe se eu podia ir para lá com uma bolsa de estudo. E eles disseram que sim! A partir daí, foi só tratar da burocracia. Se não fosse o Jorge Paiva nunca teria tido esta oportunidade!

Que trabalho está actualmente a desenvolver no Jardim Botânico Real de Kew?

Neste momento estou a estudar o risco de extinção de espécies vegetais que são nativas dos territórios ultramarinos do Reino Uniddo. Fazendo uso das categorias estabelecidas pela União Internacional para a Conservação da Natureza, estabelecemos quais as plantas que estão com maior risco de extinção para, depois, as colocarmos no topo das prioridades em termos de conservação.

E que caminho faz a equipa de biólogos para verificar se determinada espécie está ou não em risco de extinção?

Temos que fazer um estudo completo de cada planta; saber onde crescem, que outras espécies habitam os mesmos habitats e quais as ameaças às quais estão sujeitas. O primeiro estudo é todo baseado em espécimenes de herbário. Só mais tarde vamos ao campo verificar se os resultados obtidos são correctos. Vamos demorar 2 anos só para completar este estudo para as plantas endémicas, que são as plantas que só existem nestes territórios e em mais lado nenhum da Terra. O grande objectivo é escrever o livro das plantas vermelhas, o Red List book, para estes territórios.

Ao longo dos últimos anos tem-se deslocado muito às Caraíbas para estudar no local as espécies endémicas e nativas. Imagino que essas expedições sejam um sonho tornado realidade…

Eu nunca tinha sonhado ir às Caraíbas! O trabalho que faço enquanto estou lá, esse sim, às vezes, parece-me um sonho. Quando era nova e via os documentários na televisão da National Geographic com os cientistas no meio da floresta amazónica à procura de espécies raras… Sempre pensei que era um trabalho fascinante! Eu agora participo em expedições parecidas.

Como descreve o trabalho que realiza nas florestas das Caraíbas?

O objectivo principal deste trabalho de campo é ir à procura de plantas endémicas e nativas destes territórios, estudar onde ocorrem, que tipos de ameaças estão sujeitas e tentar garantir que sobrevivam no futuro. Trabalhamos sempre em colaboração com os nossos colegas que são destas ilhas. Eles ajudam-nos porque conhecem a floresta muito melhor do que nós e, simultâneamente, ensinamos-lhes a técnicas de campo que sabemos. Por exemplo, em Junho deste ano, estive nas Ilhas Virgens Britânicas a ajudar os meus colegas de lá a fazerem recolha de sementes viáveis para o banco de sementes que temos nos Kew e para os viveiros que eles têm na ilha. É muito importante que, durante estas parcerias, se transfira conhecimento para os habitantes nativos, para que, no futuro, possam ser eles a conduzir este tipo de trabalho. E, sobretudo, para que tenham orgulho e queiram proteger a vegetação que ocorre naturalmente no seu país natal! É um trabalho muito interessante, mas com muito suor e mosquitos à mistura!

Como é o dia a dia de trabalho nessas florestas?

Em trabalho de campo não há muita rotina. Tudo depende para onde vamos e que tipo de floresta vamos explorar. Como eu trabalho em ilhas pequenas, o meio de transporte são barcos. Por isso, normalmente, temos que nos levantar muito cedo para chegarmos onde queremos. Connosco, temos de levar todo o material que precisamos: prensa para as plantas, jornais (as plantas são secas entre folhas de jornais), pequenos sacos com gel de sílica para as amostras de ADN, sacos de algodão para as amostras de sementes, tesouras e os computadores de bolso. Os computadores são usados para marcarmos o lugar onde as plantas são colhidas e registarmos toda a informação relacionada com a planta (habitat, morfologia, altitude, tipo de solo, etc). Essencial é também não esquecer água (muita!) e alguma comida! Quando chegamos ao local que queremos é pôr a mochila às costas e começar a explorar! Temos que estar atentos ao tipo de vegetação, para saber onde podemos encontrar as plantas que estamos à procura.

E o que faz quando encontra uma espécie com interesse científico?

Quando encontramos uma das plantas desejadas e, antes de começarmos a tirar amostras, temos que contar quantas plantas temos no total. Temos que garantir que não vamos ser a nós a ser responsáveis pela extinção da planta!! Em relação às amostras fazemos, no mínimo, dois espécimenes de herbário: um para o país de origem e outro para os Kew. Cortamos uma pequena parte das folhas para os sacos de ADN e, se existirem e se poderem ser colhidos, trazemos uma parte dos frutos. E isto, continuamente, durante o dia, com todas as plantas de que quisermos trazer uma amostra. A caminhada pela floresta pode ser desafiante! Principalmente, quando envolve andar em caminhos cheios de lama onde se escorrega muito facilmente ou subir montanhas mais altas! Mais fácil é quando temos que encontrar plantas  que crescem junto à praia ou nas dunas. Aí, às vezes, só é insuportável o calor. Mas estamos mais perto de um mergulho no mar azul das Caraíbas quando o dia acaba...! 


O vídeo da apresentação da entrevista pode ser visto aqui.

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