conteúdos
links
tags
Opinião
Artigo de opinião da autoria de Luís Carlos, docente do Departamento de Física
Querido (e pobre) Pai Natal
Prendas de Natal
É sabido que na noite do dia 24, o Pai Natal trava uma luta contra o tempo para conseguir entregar todos os presentes. Luís Carlos, docente no Departamento de Física da Universidade de Aveiro, fez as contas e chegou à conclusão que o Pai Natal terá cerca de 1 milésimo de segundo para estacionar o trenó, descer pela chaminé, encher as meias com os presentes, comer alguns acepipes, subir pela chaminé, saltar para o trenó e partir em direção à próxima casa. Surpreendido? Confira os cálculos no texto de opinião que segue e saiba também por que razão todas as renas que puxam o trenó são fêmeas, incluindo o Rodolfo.

Há aproximadamente dois mil milhões de crianças (e adolescentes) menores de 18 anos na Terra, de acordo com as últimas estimativas da população mundial do United States Census Bureau. Contudo, como o Pai Natal não visita crianças muçulmanas, hindus, budistas, judias e de outros credos que não têm a tradição do Natal, vamos admitir que apenas 20% daquele número, cerca de 400 milhões de crianças, recebem a sua visita na véspera de Natal. Considerando uma média de 3,5 crianças em cada casa e que em cada família há, pelo menos, uma menina (ou menino) bem comportado, ficam mais de 100 milhões de casas para o Pai Natal visitar na noite da consoada.

Partindo do princípio que a viagem é feita no sentido este-oeste, para tirar partido do movimento de rotação da Terra, “ganhando” assim 24 h, o Pai Natal terá cerca de 31 horas para efetuar a sua visita noturna. Um cálculo simples conduz-nos ao resultado espantoso de cerca de 900 visitas por segundo. Por outras palavras, o Pai Natal terá cerca de 1 milésimo de segundo para estacionar o trenó, descer pela chaminé, encher as meias com os presentes, comer alguns acepipes, subir pela chaminé, saltar para o trenó e partir em direção à próxima casa.

Considerando de forma grosseira (e falsa) que todas as 100 milhões de paragens estão uniformemente distribuídas na superfície terrestre (138 milhões de km2), a distância média entre casas é cerca de 1,4 km, o que dá uma viagem total de 140 milhões de quilómetros.

Isto quer dizer que o trenó do Pai Natal move-se a 1250 km por segundo (não levando em linha de conta o tempo gasto nas paragens) mais de 3.000 vezes a velocidade do som no ar. Como termo de comparação as sondas espaciais Hélios 1 e 2 (os veículos mais rápidos que o Homem construiu até hoje), moviam-se a uma velocidade máxima de 70 km por segundo e uma rena “vulgar” consegue, no máximo, correr a 24 km/h.

A carga transportada pelo trenó é também um assunto no mínimo intrigante. Supondo que cada criança bem comportada recebe 1 presente de 1 kg, o trenó teria de suportar uma carga superior a 100.000 toneladas, sem contar com o peso do Pai Natal e das renas. Ora, em média, uma rena consegue puxar cerca de 150 kg. Mesmo admitindo que as famosas “renas voadoras” conseguem carregar 10 vezes mais, o Pai Natal não conseguiria transportar a sua carga com somente 8 ou 9 renas, precisaria de cerca de 67 mil, o que faria aumentar o peso (massa) em 20 mil toneladas. O trenó seria, assim, bem mais pesado do que o porta-aviões USS Enterprise (cerca de 93 mil toneladas).

Um corpo de aproximadamente 120 mil toneladas, deslocando-se a 1250 km por segundo, sofreria uma enorme resistência do ar. As renas aqueceriam (devido à fricção do ar), tal como o “Space Shuttle” ao entrar na atmosfera terrestre, e vaporizar-se-iam num intervalo de tempo muito curto. Por outro lado, ao passar do repouso para 1250 km por segundo num milésimo de segundo, o Pai Natal ficaria sujeito a uma aceleração de cerca de 125 milhões de vezes superior à aceleração da gravidade à superfície da Terra. Considerando a massa do Pai Natal igual a 125 kg (que parece razoável atendendo às fotografais conhecidas) ele seria, assim, esmagado contra o encosto do trenó por uma força equivalente à de um corpo de 16 milhões de toneladas.

Fica, assim, claro que o espírito do Natal – disponibilidade para partilhar – (corporizado hoje pelo Pai Natal como há quatro ou cinco décadas o era pelo Menino Jesus e descrito de forma sublime por Dickens em A Christmas Carol) não é convenientemente descrito pela ciência.

Um feliz Natal para todos, são os meus desejos (e estou certo de que também do Pai Natal, esteja ele onde estiver).

PS: Todos os anos, no verão, crescem os chifres tanto às renas macho como às renas fêmeas (as renas são a únicas espécie da família dos Cervídeos cujas fêmeas têm chifres). Os machos perdem os chifres geralmente em finais de novembro ou meados de dezembro, enquanto as fêmeas mantêm os seus chifres até à primavera. Deste modo, chegamos a uma conclusão curiosa: todas as renas que puxam o trenó na noite de Natal (incluído Rodolfo) são fêmeas, porque todas elas têm chifres.

Nota: texto adaptado de “Europhysics News”, 32, 4, 2001

 

Luís Carlos
Departamento de Física da Universidade de Aveiro

imprimir
tags
veja também
 
outras notícias