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Entrevistas
Roberto Martins, biólogo e investigador na Universidade de Aveiro
Uma vida com o mar por horizonte
Roberto Martins numa campanha oceanográfica
Os oceanos correm nas veias do Roberto Martins. Passou a infância a imaginar que tesouros haveria lá em baixo e os últimos anos a descobri-los. E não são arcas carregadas de ouro de piratas naufragados. É muito mais precioso do que isso. O Roberto já ajudou a descobrir espécies nunca antes vistas pela Ciência. O investigador da Universidade de Aveiro (UA), mais concretamente do Laboratório de Ecologia e Biodiversidade e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), tem participado em múltiplos projetos de investigação oceanográfica.

Atualmente está a concluir o doutoramento em Biologia Marinha através do qual está, precisamente, a trabalhar na identificação e caracterização de  organismos que habitam as profundezas de toda a plataforma continental portuguesa. Quando o tema da conversa é o mar, o Roberto, inevitavelmente, sorri.

 

Já em criança tinha atração pelos enigmas do mar?

Desde criança que o mar me fascina. Não é por acaso que, frequentemente, me dizem que “pareces um peixe”, tais são as horas que passo dentro de água quando tenho oportunidade de ir, por exemplo, à praia. Em criança, nas aulas de Estudo do Meio, questionava frequentemente a professora da escola primária sobre: Como é que os peixes nadavam? Como é que respiravam ou se alimentavam? E o fundo do mar também tem vida?

Está então explicado porque escolheu uma vida académica onde o mar esteve e está sempre presente. E curiosamente começou pelo ensino ao tirar a Licenciatura em Ensino de Biologia e Geologia na UA…

Além de me interessar pelas ciências naturais, e pela biologia em particular, sempre considerei que tinha apetência para o ensino. Por estes motivos decidi frequentar, na UA, essa licenciatura.

Gostou do curso?

Foi sem dúvida um marco na minha vida, tal foi a riqueza desta formação. Entre as disciplinas mais cativantes do curso estava Biodiversidade Animal, que foi ministrada pela Professora Ana Rodrigues. Após ter recebido o Prémio Município de Aveiro para o melhor finalista daquele curso, em 2007, a Professora Ana Rodrigues e o Professor Victor Quintino convidaram-me a conhecer os trabalhos que desenvolviam na equipa deles e, naturalmente, acabei por me integrar na mesma. Após uns meses a adquirir experiência, iniciei em 2009 o Doutoramento com o estudo dos habitats bentónicos de substrato móvel da plataforma continental Portuguesa, com a orientação científica de ambos os Professores do Departamento de Biologia e CESAM.

O que o atrai no trabalho que tem desenvolvido no âmbito da investigação marinha?

A riqueza de vida que encontrei em cada amostra de sedimento despertaram-me para uma realidade: “Há muito mais vida no fundo do mar, do que eu imaginava”. Por conseguinte, durante o processo de triagem dos organismos do sedimento, deparei-me com o entusiasmo da exploração das amostras de sedimento seguintes, para perceber se as espécies eram as mesmas e se não eram, quais seriam os motivos.

Até parece fácil…

Desengane-se quem pensa que o processo de triagens e identificação é um processo simples ou rápido! Durou mais de 75 por cento do ciclo de estudos! A fase de tratamento de resultados biológicos e ambientais foi também muito entusiasmante, pois comecei a responder àquelas questões e a muitas outras tais como: As espécies agrupam-se em comunidades biológicas? Os padrões de distribuição espacial das espécies são coerentes?

E que outros aspetos do seu trabalho científico o cativam?

Atraiu-me o fascínio da escrita dos artigos científicos e a possibilidade de poder dar a conhecer a outros investigadores aquilo que fizemos e concluímos! No final do Doutoramento, e vendo todo o processo em retrospetiva - centenas de espécies, das quais quatro novas, vários artigos e muitos amigos - posso afirmar que este período foi admiravelmente enriquecedor, quer científica quer pessoalmente.

Tem participado em campanhas oceanográficas. Que recorda desses períodos passados em alto mar?

A participação em campanhas oceanográficas foi um requisito fundamental neste trabalho. A mais longa foi sem dúvida a que envolveu a recolha de amostras para a minha tese e que durou quase cinco semanas, com curtas interrupções para atestar combustível e mantimentos ou por más condições climatéricas. A equipa da UA que se manteve a bordo, durante todo o período, era composta pelo Renato Mamede, responsável pela obtenção de dados acústicos, auxiliado nos primeiros dias dessa campanha pela Doutora Rosa Freitas, por mim e pelo Sr. Rui Marques, técnico do Departamento de Biologia. Estávamos incumbidos de realizar a colheita, lavar e conservar as amostras.

E o estômago aguentou-se bem nessa primeira experiência em alto mar?

Tratou-se da minha primeira campanha e digamos que os primeiros dias foram para esquecer… de tanto enjoar! Mas depois de me habituar à ondulação, foi o máximo! Esta e as demais campanhas estão repletas de bons momentos! Dias inesquecíveis à espera para embarcar, uma draga perdida no fundo do mar, um açafate que ficou para trás, muitos enjoos e muitas risadas.

Fala dos seus companheiros de bordo com um carinho especial…

A bordo de um navio durante tanto tempo é natural que se criem fortes laços de amizade com as pessoas que nele trabalham. Durante a noite, quando quase todos descansavam, eu e o Sr. Rui trabalhámos arduamente - nunca menos de 10 ou 11 horas por dia, todos os sete dias da semana. Trata-se de uma pessoa admirável, que me transmitiu dois valores importantes: o espírito de sacrifício e a humildade. Não admira que tenha um enorme respeito por ele e uma profunda gratidão pelo trabalho que me ajudou a executar. Obrigado a todos os meus colegas que colaboraram neste trabalho ao longo destes mais de quatro anos!

Recentemente esteve envolvido na descoberta de novos vermes marinhos para a ciência. Foi um acontecimento marcante?

Como para qualquer investigador, e particularmente no princípio da carreira, é sempre muito entusiasmante descobrir espécies desconhecidas para a ciência. Foi um processo longo e de muitas incógnitas. Inicialmente julgava que seria eu que não estaria a identificar bem os vermes, mas a incapacidade constante de “encaixar” as características que eu estava a ver com aquelas que estavam descritas nos manuais e chaves dicotómicas levou-me a colocar a questão: Será que estes vermes são espécies novas?

E quando percebeu que tinha nas mãos espécies marinhas nunca vistas pelo Homem?

Foi um processo longo! Entre identificar os quase de 2000 lumbrinerídeos (nome da Família dos referidos vermes poliquetas), ir ao México para concluir que havia novas espécies e perceber como as caracterizar minuciosamente com a ajuda do Doutor Luís Carrerra-Para (perito internacional nestes organismos), até à descrição detalhada das características das quatro espécies e a sua publicação na revista de taxonomia “Zootaxa” passou um ano, aproximadamente. Depois também foi entusiasmante a recetividade dos órgãos de comunicação social após a divulgação da descoberta das quatro novas espécies de vermes marinhos.

No fundo do mar, na costa portuguesa, haverá mais espécies à espera de serem descobertas pela Ciência?

Esta descoberta foi um caminho natural deste trabalho, uma vez que temos vindo a demonstrar que a costa Portuguesa é bastante rica em biodiversidade, pois está localizada numa zona de transição de faunas com afinidade boreal e outra com afinidade mediterrânica e subtropical. Assim, é muito provável que ainda existam mais espécies novas algures nessa imensa costa!



O vídeo da apresentação da entrevista pode ser visto aqui.

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