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Entrevistas
Estudante de Mestrado de Biologia da Universidade de Aveiro pelos prados e vinhas da Alemanha
Borboletas: da poesia à ciência pelas asas da Cecília Fernandes
Cecília Fernandes e uma das suas borboletas
Não há sedução maior do que um grande mistério. E se este for alado e as asas tiverem uma beleza sem fim… é-se apanhado para sempre pela rede do amor. A Cecília Fernandes deixou-se apanhar pelas borboletas. São elas que lhe lançam sem piedade mil mistérios enquanto a hipnotizam com voos recortados de mil e uma cores. Parece que fazem de propósito para a enredarem cada vez mais. As borboletas são mesmo as culpadas pelos caminhos trilhados pela Cecília. Está a frequentar o mestrado em Biologia na Universidade de Aveiro (UA), uma opção que lhe permite, hoje, estar nos prados e vinhas de Trier, na Alemanha, a estudá-las.

Quem a vir de rede na mão, de lá para cá, de cá para lá, a apanhá-las, a catalogá-las e a devolvê-las ao vento não imagina que a rede mais poderosa é a das borboletas, que mantêm a Cecília cativa desde criança.

Cresceu numa aldeia muito pequenina da Beira-Baixa. Árvores, ribeiros, hortas e animais povoaram a infância da Cecília. «Essa paisagem, não só fez parte do meu quotidiano como continua a fazer parte da minha identidade», diz a jovem bióloga. Cresceu e com os anos foi dando cada vez mais atenção a tudo o que a rodeava na aldeia. Recua por instantes no tempo, fecha os olhos de mansinho e relata: «é maravilhoso ouvir o som dos grilos numa noite quente de verão e, em maio, seguir o caminho marcado pelos pirilampos…».

Mas nem sempre os bichinhos mais pequeninos ocuparam um espaço enorme no coração da Cecília. «Apenas quando decidi que queria estudar Biologia é que percebi que o que mais me entusiasmava eram os insetos», refere.

A metamorfose

Chegou à UA em 2005. Com ela, hospedava-se também em Aveiro uma imensa vontade de estudar a Natureza. Os insetos surgiram então pouco depois. A estudante da UA recorda que no primeiro ano da universidade frequentou uma disciplina na qual teve de «capturar e observar insetos à lupa, para a correta identificação e estudo da sua ecologia». Foi paixão assolapada que se abateu sobre ela: «Foi aí que surgiu este grande fascínio pelos insetos. Daí até às borboletas foi um saltinho».

O amor aconteceu num clique do tamanho de uma borboleta cauda-de-andorinha que a Cecília encontrou. O bicho estava inerte no chão mas «as cores e as formas» prenderam-lhe de imediato o olhar. Tocada por uma imensa curiosidade, leu depois tudo o que conseguiu encontrar sobre essa espécie. Quando mais descobria, quando mais sabia, mais se deixava levar pelo fascínio que irradia de uma lagarta feia que, feita Cinderela escolhida pela magia, se transforma numa belíssima princesa voadora.

A metafísica que envolve a metamorfose ainda hoje lhe dá que pensar: «a transformação do mesmo individuo numa forma completamente diferente é algo espantoso…». A jovem cientista, poesias à parte, explica que «a metamorfose é um processo complexo que dependente de várias reações químicas». A transformação, por exemplo, é influenciada pelas «condições meteorológicas que envolvem a passagem entre dois estádios do ciclo de vida de todas as borboletas».

Os padrões e as cores das asas das borboletas são também fonte de deleite para a Cecília. «Muitos dos padrões que apresentam fazem lembrar olhos e as cores são por vezes tão elaboradas que prendem o olhar», diz a poeta. A cientista, por seu lado, explica: «Cores e padrões têm a função de proteção, pois são entendidas por predadores como sinal de perigo».

Em setembro de 2008 viajou para a Wageningen University, na Holanda, onde realizou uma investigação no âmbito da disciplina de pesquisa no laboratório de Genética Evolutiva. Desse trabalho, salienta, resultou um artigo publicado que analisou as diferenças na reprodução de duas espécies de térmitas e a simbiose das mesmas a uma só espécie de fungo.

De regresso a Aveiro, terminou em 2009 os estudos da Licenciatura e rumou para Lisboa, cidade onde realizou um estágio profissional no TAGIS - Centro de Conservação das Borboletas de Portugal. Aí, teve oportunidade de, «pela primeira vez, estudar mais de perto os insetos em toda a sua diversidade».

No fim do estágio, mais uma vez e sempre, retornou à UA para abraçar o Mestrado em Biologia Aplicada - ramo Ecologia, Biodiversidade e Gestão de Ecossistemas. No final do primeiro ano voou para a Alemanha, mais concretamente para a Universidade de Trier, onde se encontra atualmente a desenvolver a tese de mestrado. A Cecília está a estudar a mobilidade de algumas espécies de lepidópteros (borboletas). Vai apresentar a tese em dezembro.

De rede na mão

Em Trier, a cidade que se diz ser a mais antiga da Alemanha, tem o Departamento de Biogeografia da universidade local à sua disposição para analisar a mobilidade de algumas espécies de borboletas utilizando dois métodos diferentes. O primeiro consiste numa análise genética com microssatélites, que é como quem diz, «marcadores moleculares variáveis que são adequados para responder a perguntas sobre genética populacional».

Para esta investigação, interessa-lhe sobretudo a borboleta Brenthis ino, uma das espécies de borboletas mais raras de Portugal. «Devido ao declínio dos seus habitats na Europa Central, a Brenthis ino pode sofrer com as mudanças antropogénicas da paisagem», explica a Cecília. Por isso, e para perceber de que forma a ação humana, ao compartimentar as paisagens, influencia as populações daquela espécia ameaçada, a Cecília está a analisar as características genéticas de 16 populações de diferentes localizações na região de Rheinland Pfalz, de onde a Universidade de Trier faz parte.

O segundo método nas mãos da Cecília consiste na marcação e recaptura (mark-release-recapture) de borboletas e está a ser realizado em cinco espécies diferentes: Pieris rapae, Pieris napi, Anthocoris cardamines, Leptidea reali e Araschnia levana. E é vê-la diariamente, de rede nas mãos, pelas lindíssimas e bucólicas paisagens de Trier, a apanhar borboletas, a marcá-las nas asas - «a marcação não induz mortalidade na população ou qualquer alteração no comportamento da mesma» - e a deixá-las de novo seguirem o vento.

E como se marcam borboletas? Nas asas, com tinta inofensiva, escreve-se um código único para cada uma. E num caderno é anotado, à frente de cada código, as coordenadas no GPS do local onde a borboleta foi capturada, a espécie, o sexo, os danos nas asas e o comportamento do animal no momento da captura. Uma vez recapturadas, comparam-se os novos dados com os anteriores. «Este método permite, entre outras coisas, estimar o tamanho da população, analisar a sua estrutura e os padrões de atividade da espécie», descreve a Cecília.

Segredos (ainda) por revelar

E os mistérios Cecília, os mistérios das borboletas que tanto apaixonam cientistas e poetas por todo o mundo? Suspira: «Existem tantos mistérios da vida das borboletas por desvendar…». Porque é que há populações que estão mais próximas geneticamente de outras que estão mais longe geograficamente e não daquelas que estão mais perto... Porque é que os movimentos aleatórios e padronizados produzidos por uma espécie são diferentes noutra localização geográfica com as mesmas características de habitat... Como desvenda a borboleta a planta mais viável para a postura de ovos quando têm de imensas plantas da mesma espécie à disposição…

«Todos estes mistérios têm para mim uma grande importância», salienta. As respostas, acredita, virão gradualmente «com o auxílio de todas as ciências, como a química a genética ou a física para que se possa compreender melhor um organismo que tem um papel tão importante na Natureza».

No fundo do olhar, onde batem asas de borboleta, a Cecília já tem a chave de muitos enigmas.



*Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

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