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Entrevistas
Luís Bento, aluno de mestrado em Geomateriais e Recursos Geológicos
Um estágio a 400 metros debaixo da terra
Luís Bento nas profundezas das Minas da Panasqueira
Passou seis meses debaixo da terra, descendo, por vezes, a profundidades superiores a quatro centenas de metros. Entre os milhares de quilómetros de túneis escavados por vontade humana, que fazem da Panasqueira uma das maiores minas subterrâneas do mundo, Luís Bento cumpriu mais uma etapa do sonho, ser especialista na extração de depósitos minerais. O mestrado em Geomateriais e Recursos Geológicos, que está a frequentar no Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro (UA), abriu-lhe as portas para um estágio no local onde o volfrâmio ajudou a escrever a II Guerra Mundial e, como ainda hoje, a economia do país.

O receio foi um sentimento que, inevitavelmente, bateu à porta do Luís durante as primeiras descidas às profundezas da Panasqueira. «Mas com o passar do tempo fui estando cada vez mais à vontade, apesar de manter sempre um enorme respeito pela mina», recorda o jovem geólogo. Na cabeça do Luís, para a sua segurança, ficou sublinhado um conselho que lhe deu um mineiro veterano: «Temos sempre de ouvir o que mina diz». E foi o que fez porque «os mineiros têm de ter um grande respeito pela mina assim como os pescadores têm pelo mar».

E sensações de claustrofobia? Alguma vez foi assaltado por alguma? «Sinto-me mais inseguro numa mina abandonada onde não conheço o estado do maciço, do que na Panasqueira, onde existe um maciço bem consolidado, manutenção constante, diversas entradas e locais de comunicação».

Em busca de terras-raras

O estágio acabou em dezembro mas o trabalho, esse, continua. Debaixo da terra, Luís Bento trouxe para a superfície material para dar resposta a todas as perguntas levantadas pela investigação que está a desenvolver. Nos laboratórios do Departamento de Geociências, o estudante de mestrado está a percorrer dois caminhos, o geofísico e o geoquímico.

«Na parte da geofísica, o meu trabalho prendeu-se com a procura de possíveis áreas de interesse para prospeção, no couto mineiro das Minas e arredores. Os objetivos foram alcançados, com resultados muito interessantes», explica Luís Bento. No que às análises geoquímicas dizem respeito, o jovem investigador começou por recolher amostras do filão, em vários locais da mina, «para tentar encontrar alguma relação entre os teores do filão e a sua localização».

Outro dos objetivos da análise geoquímica envolvida no seu trabalho, aponta, «consiste em tentar encontrar novos minerais que possam ser extraídos de forma viável, mais concretamente terras-raras». Estas últimas análises estão a ser realizadas no Instituto Tecnológico e Nuclear, em Loures, com o qual a UA tem parcerias de trabalho conjunto.

Trabalho em aberto

Neste momento, Luís Bento está à espera de receber os resultados de algumas pesquisas para poder fazer a interpretação dos dados. Em finais de setembro, o investigador espera já ter interpretado boa parte do material que recolheu na Panasqueira.

Quando lhe foi dada a possibilidade de estagiar nas minas situadas na Serra do Açor, concelho da Covilhã, nem pensou duas vezes. Aceitou de imediato o desafio profundo. «No meu curso temos a possibilidade de poder fazer um estágio numa empresa, durante a dissertação de mestrado. Como tal, foi-me dada a possibilidade de fazer um estágio curricular, de seis meses, nas minas de Tungsténio da Panasqueira, onde fui muito bem recebido», recorda.

No futuro, depois de concluído o mestrado, Luís Bento quer «continuar ligado à extração de depósitos minerais, de preferência em Portugal, tendo em conta o recente interesse nos depósitos portugueses existentes». Contudo, não faltam no mundo minas a precisar da experiência e vontade do Luís. Por isso, «emigrar é uma possibilidade».



*Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

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