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Entrevistas
Investigadora Sónia Coelho analisa níveis de EDC nos alimentos e no corpo humano
Da UA para o Japão, numa viagem atrás de revoluções científicas
Sónia Coelho no país do sol nascente
Uma dose de bacalhau assado com batatas a murro. E, já agora, um café por favor! Não, não é um pedido num qualquer restaurante português. É antes um dos sonhos da Sónia Coelho. Está há um mês no Japão, o suficiente para a comida lusa ganhar um enorme contorno de saudade. A cafeína do nosso café expresso ainda a consegue ir buscar ao tradicional chá verde nipónico, mas o bacalhau demolhado é insubstituível. Mas isto é só um um sonho dentro de um sonho do tamanho da vida que, esse sim, está a concretizar.

A Sónia Coelho tem o raro privilégio entre a comunidade científica ocidental de estar num dos melhores centros de investigação mundial dedicado à avaliação de EDC (já lá vamos às explicações). A excelência científica da investigadora da Universidade de Aveiro (UA) e o Doutoramento em Biologia, que está a realizar desde 2011 na academia aveirense, carimbaram-lhe o passaporte para paladares de outro mundo.

É precisamente na comida que se centra parte da investigação de Sónia Coelho. A cientista está a estudar amostras de todas as refeições ingeridas durante sete dias por um grupo de voluntários da UA. E, agora sim, a investigadora explica o que são os EDC, que é como quem diz, Compostos Disruptores Endócrinos: «são substâncias presentes no meio ambiente, comida e diversos produtos de consumo diário que interferem com a síntese, o metabolismo e a ação hormonal tendo diversos efeitos prejudiciais».

Presentes no grupo destas substâncias, há os Retardadores de Chamas Bromados (BFR), o alvo a identificar pela Sónia. Estes são um grupo de elementos químicos usados em plásticos, têxteis, materiais de construção ou equipamentos eletrónicos para impedir que os produtos se incendeiem. O problema é que «com o decorrer dos anos estes produtos degradam-se, havendo libertação destes compostos que inevitavelmente se acumulam no meio ambiente e, por isso, nos nossos alimentos, e também no pó das casas e dos locais de trabalho». 

Assim, a Sónia quer mesmo saber o que ainda ninguém investigou: «avaliar os níveis dos BFR na nossa dieta». Nas restantes fases deste inédito trabalho, a cientista vai procurar no pó das nossas casas e também no nosso organismo, através de análises de sangue, de urina, dos cabelos e das unhas, os químicos em causa.

Um percurso em crescendo

Chegou à UA em 2003 para estudar Biologia. Licenciou-se e fez o Mestrado em Toxicologia e Ecotoxicologia durante o qual realizou a primeira viagem para Oriente. Esteve então cinco meses na Tailândia, mais concretamente no Departamento de Aquacultura e Gestão de Recursos Aquáticos, do Instituto Asiático de Tecnologia.

Concluiu o mestrado em 2009. Seguiram-se 16 meses de trabalho num projeto de investigação sobre a ilha das Berlengas até regressar de novo à UA para realizar o Doutoramento em Biologia, na área de Saúde Humana e Ambiental, no Departamento de Biologia e no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da academia. «É uma das áreas de maior interesse pessoal», aponta a jovem investigadora. O programa doutoral da Sónia, para além da UA, incluiu ainda a participação do Centro de Estudos Ambientais Marinhos, da Universidade de Ehime, precisamente no Japão.

Ainda é cedo para ter resultados - «estou na fase de aprendizagem da técnica, que levará algum tempo uma vez que são protocolos complexos de química analítica» - e nem sabe muito bem o que vai alcançar pois «trata-se de um trabalho pioneiro no nosso país».

A pedalar no país do sol nascente

Na cidade de Matsuyama, e «ainda em fase de adaptação a uma cultura, comida e dia a dia tão diferentes», o trabalho no laboratório tem ocupado grande parte do tempo da Sónia. Mas nada que não a impeça, pelo menos aos domingos, de passear por uma terra «encantadora e muito quente, onde o principal meio de transporte é a bicicleta». 

E foi mesmo a pedalar que já visitou «o Castelo de Matsuyama, os templos, os parques e os Spas maravilhosos que contemplam a cidade». Comunicar é um «desafio interessante». Nada que a mímica, «cada vez mais perfeita», não resolva.

«Está a ser uma estadia enriquecedora, tanto a nível pessoal, como também, e principalmente, a nível profissional. Aprender num ambiente tão motivador é muito gratificante», congratula-se. À mesa de um restaurante, por mímica e sem medo dos EDC, Sónia consegue esquecer as saudades do bacalhau por um vício incontrolável que lhe entrou na vida muito recentemente: «o maravilhoso sushi».



*Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico  

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