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Opinião
(H)À Educação: Filomena Martins, professora do Departamento de Educação e Psicologia da UA
Dar educação aos netos, ou histórias para ler e contar?
(H)À Educação: Filomena Martins, professora do Departamento de Educação e Psicologia da UA
Dia 26 de julho celebra-se o Dia dos Avós e na rubrica (H)À Educação, do CIDTFF, Filomena Martins docente do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro (DEP-UA), recorda a sua infância, a sua avó Rosa e as histórias por ela contadas, mas também as que agora lê aos seus netos para salientar a importância do desenvolvimento da linguagem oral numa criança e da descoberta de palavras e de mundos novos. Mas o que é ler e o que é que a leitura tem a ver com a educação?, questiona.

Chegam as férias grandes e é tempo de avós. Em pequena, era a minha avó que se encarregava de nós durante as férias para nos dar alguma educação, a mim e à minha irmã, pois ninguém lá em casa queria que fôssemos umas crianças, como havia algumas, sem educação nenhuma.

Assim, era a minha avó Rosa que tomava conta de nós e nos dava educação, porque “quem dá o pão, dá educação”. E a minha avó proporcionava-nos bom pão, muitas vezes amassado por ela e cozido em forno de vides secas do quintal. A avó Rosa era uma cozinheira exímia, sempre envolvida em infindáveis azáfamas domésticas, regendo a casa e a família de forma diligente e disciplinada. Lá por casa havia sempre várias colheres grandes (vulgo colheres de pau), com múltiplas funcionalidades e aplicações.

A minha avó Rosa era a nossa AVÓ, boa e meiga, reta e justa. Talvez por isso sinta hoje saudades do cheiro do capão dourado a estalar no forno, ou das suas madrugadas mal dormidas a preparar lautos piqueniques, com batatinhas loiras, pão de ló, panados de cabrito, espargos selvagens apanhados à beira Tejo e a indispensável sopa de feijão encarnado temperada com toucinho da terra. E era também uma grande contadora de histórias!

Havia sempre novas e velhas histórias. A avó Rosa não sabia ler nem escrever, mas tinha uma memória prodigiosamente criativa que reavivava a tradição oral, distorcendo-a a seu belo prazer para educar as netas, inventando histórias, ao sabor da ocasião. Assim, havia histórias para comer, histórias para dormir e outras para dar educação. Eram as histórias do passarito que não queria comer, ou do passarito que não queria dormir, eram as histórias da raposa e do lobo e também do carneiro e da ovelha, de sua majestade o Rei Vainu, do príncipe com orelhas de burro e do príncipe que afinal era um sapo (ou seria ao contrário?)

Ora eu não tenho a imaginação prodigiosa da minha avó Rosa, mas sei ler e escrever e tenho netos a quem é necessário contar histórias e dar educação, porque, mãe, precisas de te dedicar mais aos teus netos, a tua neta precisa de treinar a leitura, podes ler histórias com ela, fazes assim, lês uma página em voz alta, depois ela lê a página seguinte, e assim por diante.

Como afinal o método nem sempre resulta (cabeças na lua, palavras estraçalhadas, sentidos ausentes, crianças infelizes), celebrámos um pacto: eu no meio, os netos um de cada lado, e eu leio para eles. E divirto-me muito a inventar vozes desconhecias, ora zangadas, ora ténues e sussurradas, ora ameaçadoras e imponentes. Criamos um momento só nosso, avó e netos. Ela ouve em silêncio pelo prazer de ouvir ler pela voz da avó e ele, muito curioso, a querer compreender tudo, interrompendo amiúde, avó, o que significa “almejadas moedas”? Avó, o que significa recompensa? Avó, o que é ser “amável e prestável”? Avó! Pois, ler também é descobrir palavras mágicas escondidas por detrás das letras, ou escondidas por detrás do sentido que sabemos, naquele preciso momento, explicar. E, talvez por isso, ele me peça, hoje, avó, vais ler-nos aquela história do rei que vivia num luxuoso palácio? Ou a do castelo gigantesco? Ou a dos três porquinhos que habitavam na orla da floresta?

Mas o que é ler e o que é que a leitura tem a ver com a educação? Ler será “compreender o que está escrito” ou isso é a finalidade da leitura e ler é outra coisa diferente? Quando a criança titubeia palavras de forma soluçante já está a compreender o texto? Ainda não, certamente, mas está já a iniciar a grande viagem que é a aprendizagem da leitura. A decifração é uma etapa crucial que envolve a identificação das palavras escritas e a compreensão do que se vai decifrando.

O desenvolvimento da linguagem oral, e tudo o que ele implica de alargamento do repertório linguístico-comunicativo, referencial e sensorial da criança, é fundamental para a receção do texto e para a sua fruição. É imprescindível que a criança compreenda e domine o princípio alfabético da língua para que se torne um leitor autónomo, percebendo que as letras representam fonemas, que se organizam em sequências ou unidades fonológicas, que correspondem a determinados padrões articulatórios. Mas também é necessário que se torne uma descobridora de palavras e de mundos novos, de sentidos alternativos, ocultos ou ausentes, uma devoradora de histórias lidas e repetidas, ou ouvidas ler, em momentos especiais só, só de avó e netos.

 

Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

* Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

 

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