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Entrevistas
Professores UA: Rui Costa, Design, Departamento de Comunicação e Arte (DeCA)
“Quando concorremos e ganhamos, isso transmite aos alunos uma confiança essencial para o seu percurso”
''Que se mantenham curiosos e, sobretudo, críticos'', sugere Rui Costa aos alunos.
Criação de um Observatório de Design em Portugal, um sistema flutuante de suporte a painéis fotovoltaico, sinalética no campus da Universidade de Aveiro (UA)… São apenas alguns projetos de Rui Costa, professor de Design no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA) da UA. Orientou ou coorientou os alunos em trabalhos que já valeram vários prémios nacionais. “Que se mantenham curiosos e, sobretudo, críticos”, sugere aos alunos.

Como define um bom professor? Na sua perspetiva, que caraterísticas deve ter um bom professor?

Ter competência na área que leciona, estar disponível para dar tempo aos estudantes (ouvi-los), adequar a transmissão de conhecimentos ao perfil dos estudantes e avaliá-los com cuidado e respeito, seja qual for a classificação.

O que mais o fascina no ensino/na profissão docente?

A imprevisibilidade das discussões. Creio que essa imprevisibilidade decorre de dois fatores: a) projeto — porque cada tema, problema ou oportunidade, pressupõe uma análise única no seu tempo; b) estudantes — são muito diferentes, tanto individualmente como enquanto turma.

A conjugação destes dois fatores, mesmo quando as propostas de trabalho se repetem, torna os projetos, e as inerentes discussões à sua volta, imprevisíveis.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no curso a que está ligado? Quais os pontos fortes desta formação? Há uma ligação mais estreita ao mercado de trabalho da região? Ou o ponto forte está mesmo na boa formação para adaptação em diferentes contextos de trabalho?

A formação em Design na UA (neste caso, no DeCA) está já muito consolidada, sendo respeitada a nível nacional e internacional. Os resultados dos nossos estudantes em mobilidade internacional e os concursos em que participamos comprovam-no.

Cada ciclo de formação terá as suas características próprias. Se tivermos em conta o 1º ciclo, eu diria que os pontos mais fortes da nossa formação são: 1- O carácter geral da formação em Design, sem a segmentação típica gráfico/industrial. Não é hoje simples prever os suportes mais adequados para a resolução de problemas, muito menos a 5 ou 10 anos. Ser competente em áreas mais híbridas é importante. 2- O contacto dos estudantes com uma equipa docente multifacetada. Em projeto, os estudantes têm a oportunidade de consultar vários docentes em simultâneo, com opiniões por vezes divergentes sobre como avançar. Esta divergência torna óbvia a inexistência de uma resposta única. O confronto com a diferença, por vezes bastante significativa, obriga-os a refletir sobre os pressupostos inerentes à sua tomada de decisão e este ganho de consciência e de crítica é a melhor formação.

Os alunos do 3º ano são frequentemente premiados em concursos como o Glassberries, prova que envolve alunos de várias escolas de Design. É um sinal de reconhecimento, de dever cumprido?

Temos tido, consecutivamente, alguns prémios — desde menções honrosas, seleções para fases finais, e obviamente, os prémios principais. De alguma forma, nós temos a noção do que um trabalho vale, mesmo que não esteja sob avaliação externa. Estes projetos, realizados em contexto de concurso, são muito mais importantes para os estudantes, porque lhes dá uma medida externa do seu sucesso e é um sinal de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. É normal que um estudante questione se o seu desempenho numa escola possa ser replicado no mercado, ou noutro contexto escolar. Quando concorremos com outras escolas de Design a nível nacional e internacional (BA, Glassberries), ou com outras áreas científicas muito diferentes, mais reconhecidas profissionalmente pela sociedade (CAP, Cultiva o teu futuro) e ganhamos, isso transmite-lhes uma confiança essencial para o seu percurso futuro.

Se lhe fosse pedido um conselho dirigido aos alunos, que conselho daria?

Que se mantenham curiosos e, sobretudo, críticos.

Houve alguma turma/grupo de alunos/aluno que mais o tivesse marcado? Porquê?

Fazendo um pequeno esforço de memória, creio que me consigo lembrar de estudantes notáveis em quase todas as turmas que lecionei desde que estou na UA. Porque me marcam esses e não outros? Não creio que sejam sempre as mesmas razões. Em alguns casos, porque os vi crescerem, melhorarem a cada trabalho e isso é incrível. Noutros, porque eram diferentes, pensavam de forma alternativa e isso é desafiante. Na maior parte dos casos, porque eram realmente pessoas interessantes, empenhadas, trabalhadoras e talentosas.

Não sei se é muito diferente do que nos acontece todos os dias — aproximamo-nos das pessoas que respeitamos.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes (constrangimento/situação agradável)?

Lembro-me de uma aula interessante, ainda nas catacumbas, numa discussão em turma sobre o que se pretenderia com um projeto (de que não me lembro). Tinha estado presente alguns dias antes numa sessão do "café filosófico", no planetário do Porto, onde a discussão tinha um formato peculiar, se bem me lembro, inspirado em monges medievais: todos podiam entrar na discussão, mas, a cada contributo, seguia-se obrigatoriamente um período de absoluto silêncio de tempo igual ao da última participação. Os silêncios são esmagadores, o que fazia com que quem falasse demasiado se sentisse mal durante esse período. Tenho que repetir essa sessão um dia destes — pensar antes de falar é cada vez mais importante.

Um dos projetos que esteve envolvido recentemente (com o Prof. Francisco Providência), que tem a ver com a própria UA, foi a nova sinalética, placas informativas que incluem número e designação do edifício… Agora já é mais fácil a orientação de quem circula no campus… Quer referir outros projetos recentes e mais sugestivos?

Além da sinalética, estive recentemente envolvido, também numa equipa mais ampla de Design, no desenho de um sistema flutuante de suporte a painéis fotovoltaicos — PROTEVS. Imagino que nos próximos tempos a empresa ganhe alguma visibilidade graças a esse projeto. Atualmente, faço parte da equipa do DESIGN OBS. que pretende definir as bases para a criação de um Observatório de Design em Portugal. 

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Traço principal do seu carácter

Otimista, cético.

Ocupação preferida nos tempos livres…

Corrida e leitura.

O que não dispensa no dia-a-dia

Respirar… (a brincar). Não sei responder a esta

O desejo que ainda está por realizar

Fazer Vela regularmente. Ainda mais utópico: acompanhar uma Volvo Ocean Race.

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