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Entrevistas
Professores UA: Manuel António Coimbra, professor do Departamento de Química
“Faço investigação que interessa ao cidadão, à sua alimentação, à sua saúde, à economia…”
Manuel Coimbra considera que, hoje, ''o importante é ensinar critérios para a saber selecionar, utilizar e integrar em novas situações''
Diretor de curso da Licenciatura em Bioquímica da Universidade de Aveiro, presidente do Painel Temático de Aditivos e Contaminantes da Cadeia Alimentar da ASAE, Manuel António Coimbra coordenou trabalhos de investigação marcantes para a economia da região. Por exemplo, o estudo que permitiu a autorização de exportação dos ovos moles e a possibilidade de substituição dos sulfitos para conservação de vinhos e vinagres. Durante vários anos, manteve atividade político-partidária na Assembleia Municipal de Aveiro. Hoje, considera, “o importante é ensinar critérios para saber selecionar, utilizar e integrar a informação em novas situações”.

Como define um bom professor? Na sua perspetiva, que caraterísticas deve ter um bom professor?

O bom professor é aquele que tem a capacidade de contribuir eficazmente para a formação de cada um dos estudantes nas suas diferentes vertentes. Deve, por isso, conhecer bem a matéria da sua especialidade e também o mundo que o rodeia e em que vivem os seus estudantes. A capacidade de comunicação e de empatia é também importante, criando recetividade para a aprendizagem. Tem de ter uma visão otimista, mas realista, da vida e do futuro dos estudantes que está a preparar. Quando iniciei a carreira, o importante era o professor transmitir informação científica aos estudantes. No mundo de hoje, como essa informação está disponível na internet, o importante é ensinar critérios para saber selecionar, utilizar e integrar a informação em novas situações.

O que mais o fascina no ensino/na profissão docente?

É fascinante verificar o progresso que cada estudante faz ao longo do semestre quando frequenta uma determinada Unidade Curricular. No início, não sabe nada ou sabe muito pouco sobre essa temática. Passados três ou quatro meses, já domina os assuntos tratados. Ao nível de ciclo de estudos, esta evolução é ainda mais fascinante. Nos últimos anos, temos desafiado os estudantes de Licenciatura e Mestrado a apresentarem um poster sobre uma temática à sua escolha no âmbito do dia da Bioquímica e esta evolução, de ano para ano, é bem visível.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no curso a que está ligado? Quais os pontos fortes desta formação? Há uma ligação mais estreita ao mercado de trabalho da região?

Sou o diretor de curso da Licenciatura em Bioquímica, desde a sua criação em 2006. Nesta Licenciatura, no 1.º ano é dada uma formação de base nas ciências fundamentais, como a Matemática, a Química, a Física, a Biologia e a Informática, no 2.º ano o forte é o ensino das diferentes vertentes da Bioquímica e no 3.º ano apresentam-se as aplicações, o que inclui um Projeto individual, permitindo aos estudantes uma visão abrangente das competências que querem aprofundar ao nível do mestrado e que depois os ligue ao mercado de trabalho. As reações que vamos recebendo dos estudantes revelam que a Universidade os preparou muito bem para os trabalhos que estão a desempenhar, seja ao nível da investigação, seja ao nível do emprego em empresas. Os Licenciados em Bioquímica estão espalhados pelo mundo, a maioria em empregos qualificados, e muitos ficaram a trabalhar na Região de Aveiro.

Se lhe fosse pedido um conselho dirigido aos alunos, que conselho daria?

Falo muito com os estudantes e dou-lhes conselhos, principalmente se pedem a minha opinião. Insisto muito no facto de resistirem à tentação de querer mudar de curso só porque acham que não gostam de uma ou outra Unidade Curricular. Em todos os cursos há professores e matérias que gostamos mais e outros que gostamos menos. Devemos refletir antes de tomar uma determinada opção. Depois de tomada, não devemos ficar a pensar nela. Muitos estudantes têm essa tendência: escolhem um curso e depois gastam tempo a pensar se escolheram bem ou não. Quando se escolhe um curso, depois será de cumprir os objetivos até ao fim.

Houve alguma turma/grupo de alunos/aluno que mais o tivesse marcado? Porquê?

Todos os anos as turmas são diferentes e há estudantes que, pelos mais variados motivos, ficam na nossa memória. Quando uma turma tem um estudante com necessidades educativas especiais, essa turma torna-se também especial, normalmente mais solidária. Para além do sucesso individual, o sucesso coletivo é também muito importante. No curso de Bioquímica há, em todas as turmas, alunos que atingem classificações muito elevadas e que, quando bem enquadrados, são bons exemplos para todos.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes (constrangimento/situação agradável)?

Fui surpreendido há alguns anos, no final da aula, pelos mais de 100 estudantes do 1.º ano dos cursos de Licenciatura em Bioquímica e de Biotecnologia, quando cantaram os parabéns no meu dia de anos (efeitos do Facebook, penso eu!).

Coordenou os trabalhos em pesquisas marcantes, como a conservação dos ovos moles e o substituto natural para os sulfitos no vinho, entre outras. Qual o critério e que estratégias o seu grupo adota para identificar pesquisas com relevância para a sociedade, se é que essa é uma preocupação no trabalho de investigação que coordena?

Estes trabalhos, que até são os que têm mais visibilidade para a comunidade, são feitos por solicitação/desafio das próprias empresas. Nós procuramos muito trabalhar com as empresas, pois essas parcerias permitem-nos fazer investigação fundamental e ter logo uma aplicação. A interação com as empresas é também feita através dos estágios em ambiente empresarial dos estudantes do 2.º ano de mestrado. Temos orientado muitos estudantes que, com o nosso apoio e com o apoio das empresas, desenvolvem soluções interessantes para todos. Foi assim que, por exemplo, surgiu a Sidra Vadia, que utiliza o produto e um subproduto de uma indústria de produção de concentrado de sumos de maçã na produção de uma sidra por uma microcervejeira.

O facto de ter tido atividade política a nível municipal, durante vários anos, terá contribuído para ter uma maior sensibilidade para a relevância social da investigação científica? O facto de trabalhar em compostos de origem natural, à qual se tem dado cada vez mais atenção, tem contribuído para uma maior visibilidade do trabalho?

Participei durante 24 anos como membro da Assembleia Municipal de Aveiro, assim como tenho participado em outras organizações sociais, desportivas e culturais, pois a ciência e a Universidade não se podem dissociar da sociedade em que vivemos. Antes pelo contrário, a participação cívica dá-nos abrangência de pensamento e facilita-nos a comunicação. Incentivo os meus estudantes à participação nas atividades da Universidade e da sociedade. O meu trabalho na área alimentar também facilita esta interação com a sociedade a vários níveis. Faço investigação num assunto que interessa ao cidadão, que come todos os dias, que pode beneficiar a sua saúde, que é economicamente relevante para a região e o país, etc., etc. É sempre um bom mote de conversa, principalmente quando se diz que se trabalha em vinho, cerveja ou café (para além dos Ovos Moles de Aveiro, claro!).

Quer adiantar informação sobre um ou dois projetos em curso que considere relevantes cientificamente e em termos de potencial impacto público?

De momento temos muitos projetos em curso, em colaboração com várias Universidades e empresas, principalmente do ramo alimentar. De momento as empresas pretendem desenvolver novos produtos alimentares, de preferência valorizando os seus subprodutos e se conferirem benefícios para a saúde, tanto melhor. Também as algas e as microalgas estão em fase de estudo nesta perspetiva, assim como as embalagens biodegradáveis. Outra área de trabalho tem sido a identificação de marcadores de autenticidade e de origem de frutos quando na forma de purés. Aí, podemos ter novidades muito brevemente, mas somos cautelosos antes de anunciar resultados, pois temos de ter a certeza do que dizemos, estudando todas as variáveis. Todos estes projetos estão em fase de execução, sendo anunciados os seus resultados à medida que vão sendo obtidos os resultados relevantes para a comunidade.

descrição para leitores de ecrã
A substituição dos sulfitos para conservação de vinhos foi um dos trabalhos que Manuel Coimbra coordenou.

 

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Traço principal do seu carácter…

Emotivo, ativo e solidário.

Ocupação preferida nos tempos livres…

Arranjo sempre forma de estar ocupado, pelo que não sei se o meu conceito de tempos livres são tempos livres, mas diversifico muito as minhas atividades, procurando fazer o que gosto em todas elas: quando estou nas aulas, quando faço investigação, quando visito as empresas, quando participo civicamente, quando jogo Badminton, quando leio um livro, quando vejo um jogo de futebol ou de muitas outras modalidades desportivas de que gosto, etc. A maioria destas atividades, faço-as em grupo, grupos de pessoas diferentes, raramente sozinho.

O que não dispensa no dia-a-dia…

Estar com as pessoas. A porta do meu gabinete está sempre aberta.

O desejo que ainda está por realizar…

Não me rejo por objetivos tão específicos. Felizmente vão-me acontecendo muitas pequenas surpresas positivas que nunca tinha pensado em desejar.

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