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Entrevistas
Professores UA: Liliana Sousa, professora do DEP/UA
“Ao estudar o envelhecimento, tornei-me mais consciente da minha/nossa mortalidade”
''Ao estudar o envelhecimento, tornei-me mais consciente da minha/nossa mortalidade'', afirma Liliana Xavier de Sousa
“Ao estudar o envelhecimento, tornei-me mais consciente da minha/nossa mortalidade; a forma de viver muda! E, na minha opinião, muda para melhor”, afirma Liliana Xavier de Sousa, professora do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro (UA). Aveirense e psicóloga, a professora tem vindo a dedicar-se à Gerontologia e a tentar responder à pergunta “What really matters when we are very old!” (“O que realmente importa quando estamos muito idosos?”). Foi Pró-reitora da UA entre 2011 e 2014.

Como define um(a) bo(a)m professor(a)? Na sua perspetiva, que caraterísticas deve ter um(a) bo(a)m professor(a)?

Penso que o espetro é mais colorido do que bom e mau; ou seja, acho que há várias formas de ser bom professor. Mas pensando em caraterísticas transversais a bons professores, penso que um bom professor é alguém que se interessa genuinamente… que se interessa pelos alunos, pelo seu trabalho, pela comunidade, e também que se interessa por si e pela sua evolução.

O que mais a fascina no ensino/na profissão docente e na investigação?

Sobretudo ser uma profissão que me permite estudar. E estar em constante contacto com outras gerações e também culturas.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no(s) curso(s) a que está ligada?

Penso que há um compromisso de fazer o melhor. Acho que os estudantes devem saber isso: todos dão o seu melhor para lhe permitirem a melhor formação. No Mestrado em Gerontologia Aplicada temos avançado com uma abordagem experiencial, com forte ligação à comunidade, que pensamos permite aos estudantes terem uma formação forte em termos de conhecimento e de desenvolvimento pessoal e profissional. O Programa Doutoral em Gerontologia e Geriatria (colaboração com a Universidade do Porto) funciona desde 2009, com muitos excelentes estudantes e teses.

Se lhe fosse pedido um conselho dirigido aos alunos, que conselho daria?

Um conselho é apenas a “minha” solução/perspetiva para o problema/situação do outro. Por isso, acho que diria, ouçam conselhos, saibam que quem vos aconselha está a ser generoso; mas saibam que uma boa solução/perspetiva para um não é boa para todos. Penso que diria: ouçam os conselhos e tomem as vossas decisões.

Houve alguma turma/grupo de alunos/aluno que mais o tivesse marcado? Porquê?

Todas as turmas deixam alguma marca. Por isso vou partilhar o que vivi em Timor-Leste em 2000 quando tive a oportunidade de dar aulas de português a professores timorenses. Nessa altura o país estava bastante destruído e faltava um pouco de tudo. Era difícil arranjar papel, algo tão simples como papel; quando havia algum papel, dividia-se em pequenas partes para todos os alunos terem um pedaço. Marcou-me pelo valor que era dado à educação.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes (constrangimento/situação agradável)?

Vou contornar um pouco a questão. Agora que já passei os 25 anos de carreira académica, quando encontro algum ex-aluno, costumo perguntar o que se lembra das minhas aulas. Uma das respostas mais frequentes é que ainda usam um método que costumo usar: o Photovoice. Realmente a fotografia é um meio poderoso de envolvimento e consciência crítica. Outra resposta diz respeito a algumas “tiradas”; por exemplo, uma ex-aluna disse que se lembra de eu dizer que quando estou “bloqueada” vou dormir uma sesta, porque a seguir as coisas correm bem; referiu que adotou a estratégia e sente que resulta.

Tem-se dedicado às questões do envelhecimento, apoio familiar à demência e à doença prolongada… Quer explicar, em traços gerais, qual o contributo que a UA tem dado nestas áreas?

Penso que a UA tem o mérito de ter lançado a formação em gerontologia em Portugal. Além disso, há investigadores de praticamente todas as áreas a contribuir para o conhecimento em gerontologia. E temos formação de alta qualidade na área: Mestrado em Gerontologia Aplicada e Programa Doutoral em Gerontologia e Geriatria.

Em Portugal, com uma rede de cuidados continuados incipiente, sem o estatuto do cuidador aprovado, o panorama do envelhecimento e do apoio às pessoas com doença prolongada é mais negro do que a generalidade dos países europeus?

Portugal é o quinto país mais envelhecido do mundo. E todos estamos a envelhecer. É importante olharmos para o envelhecimento sabendo que está no futuro de todos nós, não é algo que só acontece aos outros. E, com certeza, todos nós temos pessoas que amamos já muito idosas e vulneráveis; por isso, também é algo que está no nosso presente. Espero que esta consciência se torne mais forte, pois fará certamente toda a diferença.

Há anos que estuda questões associadas ao envelhecimento e ao apoio a seniores e pessoas com doença prolongada… Que espera para si quando chegar a essa idade?

Acho que espero o que a maioria espera: viver enquanto estiver bem e não dar trabalho a ninguém. Essencialmente, penso que estudar o envelhecimento me tornou mais consciente da minha/nossa mortalidade. Por norma, vivemos como se fossemos imortais; sabemos que não somos, mas não vivemos com essa consciência. Quando nos tornamos conscientes da mortalidade, a forma de viver muda! E, na minha opinião, muda para melhor. As prioridades mudam!

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Quando a idade avançar, a gerontóloga espera ‘viver enquanto estiver bem e não dar trabalho a ninguém’.

 

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Traço principal do seu carácter…

Acho que sou uma pessoa comprometida com a minha palavra.

Ocupação preferida nos tempos livres…

O que gosto mesmo é de ter tempo para não fazer nada.

O que não dispensa no dia-a-dia…

Meditar! E passear o Tim (o meu cão)!

O desejo que ainda está por realizar…

Ir à Lua! [um desejo que vou realizando em sonhos].

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