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Entrevistas
Professores UA: Paulo Maria Rodrigues, professor do DeCA (Música)
“Experimentem. Arrisquem. Procurem. Inquietem-se. Apaixonem-se.”
Paulo M Rodrigues: fascínio pela partilha de viagens criativas que levam à descoberta e ao crescimento
Compositor, cantor, diretor artístico e educador. Paulo Maria Rodrigues é professor do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Após um percurso académico paralelo em Ciência e Música que o levou a concluir um doutoramento em Genética e Bioquìmica na University of East Anglia e uma Pós-Graduação em Ópera na Royal Academy of Music, enveredou pela conceção e direção no âmbito da Música Teatral. De 2006 a 2010 foi coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música. Considerando o professor alguém que “Trans-Forma”, exorta os alunos: “Experimentem. Arrisquem. Procurem. Inquietem-se. Apaixonem-se.”

Como define um bom professor?

Alguém que Trans-Forma. 

O que mais o fascina no ensino e investigação de música?

Não tenho fascínio pelo “ensino”, no sentido da transmissão dos conhecimentos ou dos conteúdos formais. Tenho fascínio pela partilha de viagens criativas que levam à descoberta de novos territórios artísticos e ao crescimento das pessoas que nelas embarcam. Fascina-me a possibilidade de criar, através da música, pontes entre pessoas diferentes e de poder criar momentos em que parece que o tempo para ou então voa. Fascina-me a “folha em branco” e possibilidade de a escrever ou desenhar sempre de forma diferente.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos (curso) a que está ligado?

Acredito que seja a melhor possível, mas sei que nunca será boa que chegue.

Se quisesse dar conselho aos seus alunos, que conselho daria?

Experimentem. Arrisquem. Procurem. Inquietem-se. Apaixonem-se.

Houve alguma turma que mais o tivesse marcado? Porquê?

Houve um conjunto de alunos que me marcou profundamente, mas não era uma turma porque o contexto não era o de uma disciplina. Era muito mais livre e por isso muito mais profundo e divertido. Falo dum projeto extracurricular que mantivemos no DeCA entre 2000-2006, o Bach2Cage. Foi lá que aprendi muitas das coisas que ainda hoje utilizo em aulas ou quando faço outros projetos. Mas sempre que um aluno me ensina alguma coisa isso marca-me. E todos os anos isso acontece. Tive duas turmas no semestre passado que foram excelentes, fizemos dois projetos com pessoas com necessidades especiais que mexeram muito comigo e com todos os que participaram.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes noutro contexto?

No Bach2Cage todos os anos criávamos uma nova versão, como num produto multimédia (o ponto de partida era a música, mas uma música “irreverente”, uma espécie de teatro dos sons e do movimento com uma curiosidade muito grande pela tecnologia). Numa das apresentações, o teatro era tão velho que não aguentava as luzes e o som ao mesmo tempo. Só percebemos isso no ensaio geral, poucas horas antes do espetáculo e já não era possível cancelar. Fomos comprar umas gambiarras e iluminámos tudo “à mão”. Fizemos um espetáculo incrível.

Tem trabalhado e orientado trabalhos relacionados com o papel social e educativo da música… Será algo ainda pouco estudado e que ainda não merece, da sociedade, a atenção que deveria merecer?

Já é “estudado”, no sentido em que já há conferências, revistas, livros e teses sobre isso. E a sociedade cada vez mais percebe a importância que este tipo de trabalho tem. Em Portugal isso é evidente, e o que tem acontecido nos últimos dez anos é uma autêntica revolução. Mas é ainda pouco valorizado, no meio académico em particular. É normal, como qualquer outra coisa “nova”, se bem que a palavra “nova” seja desadequada, se considerarmos que estamos a falar da origem da música. Parte do problema é que a essência deste tipo de trabalho é a experiência em si, protagonizada pelas pessoas que a vivem, no espaço e no tempo. O meio académico tradicional ainda não está preparado para reconhecer que os laboratórios de quem trabalha com arte e pessoas têm “ecologias” muito próprias e que os resultados mais interessantes e com maior impacto são os que se operam no presente. E a “academização” deste tipo de trabalho não é a via mais interessante para que ele se desenvolva, nem aquilo que a universidade pode fazer de melhor para que ele dê frutos na sociedade. A universidade já reconhece que tem uma “terceira missão”. Dia após dia é preciso deixar que se cumpra.

Quer referir alguns exemplos mais sugestivos que tenha acompanhado do papel social e educativamente transformador da música?

Não quero, porque não sei sequer se é possível falar em transformações sociais no sentido da “mobilidade económica” ou cultural em qualquer dos projetos que fiz. Posso apenas dizer que trabalhar com pessoas para quem a música pode dar algum sentido à vida, alguma esperança, alguma alegria, alguma voz, é uma fonte de grande felicidade e transporta todos os que participam para um universo diferente daquele que é o da realidade quotidiana. Aliás isso aplica-se a todas as pessoas: participar numa experiência musical pode fazer voar. É possível que algumas destas coisas sejam efémeras. Não vejo problema nisso, nem acho que a música deva ter uma “função” ou ser usada para manipular as pessoas. A música é basicamente uma forma de nos conectarmos. Com o mais profundo de nós próprios e com os outros.

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"Um bom professor é 'alguém que Trans-Forma'".

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Traço principal do seu carácter

Estou a atravessar a fase Rinoceronte.

Ocupação preferida nos tempos livres

Arrumar porcas e parafusos em recipientes pequenos.

O que não dispensa no dia-a-dia

Falar com a minha mulher e os meus filhos.

O desejo que ainda está por realizar

Os Rinocerontes não respondem a perguntas dessas.

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