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Entrevistas
PessoasUA: Jorge Anjos, assistente técnico nos Serviços de Comunicação, Imagem e Relações Públicas
“Sinto saudades de andar de mota, de andar de carro e de ir ao cinema”
PessoasUA: Jorge Anjos
Se ligar para a Universidade de Aveiro (UA) é bem provável que do outro lado da linha lhe atenda o Jorge Anjos. Natural de Ílhavo, é há 18 anos a voz que dá as boas vindas a todos os que ligam para o 234370200. Apesar de ter uma deficiência visual, minimizada pelo Quito, o cão-guia que o conduz para todos os lados, não deixa de concretizar a sua grande paixão, a música. Baterista na banda Edevez, é com as baquetas que marca o ritmo da vida com um enorme sorriso.

Quais as funções que desempenha?

Entrei na UA há 18 anos e estive sempre como assistente técnico nos Serviços de Comunicação, Imagem e Relações Públicas. Faço essencialmente atendimento por telefone e por email. Tiro todas as dúvidas relacionadas com assuntos académicos. 

Se pudesse escolher a sua profissão o que seria?

Músico! Se conseguisse viver só da música sem dúvida que era essa a minha profissão. Tenho como base musical o rock e jazz.

Quais as principais características que o definem?

Sou teimoso, mas só quando sei que tenho razão. Considero-me um profissional muito dedicado, tenho noção dos meus direitos e deveres enquanto profissional. Sou responsável porque gosto de cumprir com as tarefas que me são propostas.

O que faz nos seus tempos livres?

Brinco e passeio com o Quito, o meu cão-guia e toco bateria numa banda amadora de rock e de origem portuguesa, a Edevez. Cantamos originais e baladas. Somos dez elementos, incluindo o staff, mas em palco somos cinco: para além de mim, que sou o baterista, temos dois guitarristas, um baixista e um vocalista.

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Jorge anda sempre com o seu fiel amigo de quatro patas, o Quito. Ao fim do dia, antes de ir embora, vai sempre brincar e dar um passeio

Em que tipo de eventos tocam?

Tocamos em festivais de rock, concentrações motard e já tocámos em festas como a Rádio Faneca. Dentro em breve, em princípio, vamos tocar no Festival do Bacalhau. Recentemente começámos a tocar em bares, mas em acústico. Tivemos de nos tornar versáteis. Deixámos de tocar o instrumento que normalmente tocamos, para outro em formato elétrico. Como fui operado recentemente a um pé, toco cajón.

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Banda Edevez da esquerda para a direita: Sérgio Nirvana é guitarrista, Armando Patarra é baixista, Jorge Anjos é baterista, Acácio Santos é vocalista e Cláudio Vieira é guitarrista

Existem outros instrumentos que toque?

Sei tocar guitarra, acordeão e já dei aulas de educação musical (guitarra e bateria). Mas tive de deixar de dar aulas por falta de tempo.

Como surgiu a banda Edevez?

A banda começou em 1986. Éramos um grupo de amigos e todos gostávamos de música.  Resolvemos então avançar com a banda. Mas entre 1993 e 2014 fizemos uma interrupção. Eu fui para Lisboa e tivemos de suspender. Voltámos em 2014 com três elementos fundadores e dois músicos novos.

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Banda Edevez: Na foto da esquerda Jorge está com a banda após um concerto no Centro Cultural da Gafanha da Nazaré. Na foto da direita a banda está na Casa da Cultura em Ílhavo

O que o fascina para estar ligado há tantos anos à música?

Gosto do convívio de palcos, de tocar com diversas bandas e adquirir experiências novas. Já tocamos, por exemplo, ao lado dos Xutos e Pontapés, dos GNR, do Rui Veloso e dos UHF. Fico sempre ansioso quando oiço uma enorme multidão. Sinto ‘borboletas na barriga’ e penso logo: “Isto tem de correr bem”!

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Na foto da esquerda está Jorge a tocar bateria na Casa da Cultura em Ílhavo. Na foto da direita Jorge toca Cajón no Chico Bar em Ílhavo

Há alguma história que queira partilhar connosco e que o tenha marcado?

Há muitos anos atrás fui para Lisboa a tirar o curso de baterista de jazz. Nunca mais vou esquecer esta experiência na vida. Fui fazer o teste de audição para ser admitido no curso e quando o professor percebeu que eu via mal, ficou incrédulo. Não sabia como iria dar as aulas a uma pessoa que tem deficiência visual, pois para tocarmos bateria temos de ter certos pontos para atingir um determinado som. Ele não sabia como eu ia conseguir. Questionou-me como iria tocar e eu respondi que se a bateria fosse montada por mim eu saberia qual o ponto certo para a batida certa. No fim dos seis meses do curso abraçámo-nos e chorámos. Ele achou que eu não conseguiria e no fim, em vez de ser ele a ensinar-me a mim, fui eu a ensiná-lo.

De que mais sente saudades?

Sinto saudades da minha mãe. Eu nasci com 60 por cento de visão e 40 por cento de cegueira e conseguia ver. Não via tão nitidamente, mas via. Sinto saudades de andar de mota, de andar de carro e de ir ao cinema.

Que conselho dá a pessoas que tenham algum tipo deficiência?

Ninguém deve estar à espera que as coisas venham ter connosco. Deve-se ir à luta, estar integrado, estar no ativo. O facto de se ter uma deficiência não deve ser um impedimento. Deve-se ter força de vontade, mas claro que também é necessário que deem as condições e os meios para que isto tudo aconteça. Há entidades patronais que veem um entrave e não contratam pessoas com deficiência pelos custos associados aos softwares próprios.

Um dia vou…

Ter uma banda famosa e tocar dentro e fora do país.

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A série #PessoasUA pretende mostrar as estórias e vivências das pessoas que fazem a comunidade UA. Se conhece alguém que deva estar aqui retratado, envie-nos uma mensagem para noticias@ua.pt com as suas dicas

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