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Entrevistas
Pessoas UA: Rita Santiago, bolseira no Instituto de Telecomunicações e Tatiana Santos bolseira no Departamento de Engenharia Civil
“Talvez voltemos a fazer voluntariado juntas, mas noutro país”
PessoasUA: Rita e Tatiana
Viveram em conjunto uma aventura que lhes mudou para sempre a forma de viver e de estar! Construíram uma intensa e bonita amizade entre ambas. Estiveram em São Tomé e Príncipe (STP) a fazer voluntariado e experienciaram momentos que nunca mais vão esquecer. Rita Santiago tem 23 anos é bolseira no Instituto de Telecomunicações (IT) pólo da Universidade de Aveiro (UA) e é da Gafanha da Encarnação. Tatiana Santos tem 21 anos é bolseira no Departamento de Engenharia Civil (Decivil) da UA e é da Barra, Aveiro. Ainda sonham em fazer voluntariado juntas noutro país e voltar a STP.

Querem-nos contar o que experienciaram?

Rita: Fizemos voluntariado em São Tomé e Príncipe (STP). Inicialmente tivemos formação durante um ano no Centro Universitário Fé e Cultura da Diocese de Aveiro pelo SDAM – Serviço Diocesano de Animação Missionária. Esta formação dá-nos a capacidade de gerir situações que possamos ter de lidar em campo e ideias de atividades que podemos vir a fazer. Somos acolhidos em associações católicas.

Éramos para ir para Angola, mas por causa das eleições que estavam a decorrer na altura seria perigoso ir para lá. Uma semana antes avisaram-nos que íamos para STP. Foi confuso para nós por causa da aquisição rápida dos bilhetes e dos vistos, mas acabamos por ir. Em vez de dois meses ficamos um mês e pouco.

Tatiana: Quando chegamos lá, íamos entusiasmadas, mas, tivemos um grande choque cultural. Fomos recebidas por dois frades e duas colegas portuguesas, o que acabou por ser bom para nós, porque foi rápida a adaptação. Fomos para a uma casa que acolhe voluntários. A casa tinha vários quartos, uma cozinha, uma mini sala de jantar, mas, não havia janelas, não havia água, não havia luz quando chovia e como choveu todos os dias, foi raro haver luz.

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Tatiana do lado esquerdo e Rita lado direito com as crianças que conviveram diariamente

Como é viver em STP?

Rita: Vivíamos no meio deles, em STP existem duas estradas e ficamos em Ribeira Afonso. No início sentimos protegidas porque tínhamos as duas colegas, mas, entretanto, elas foram embora.

Tatiana: Não havia limitação na casa, eles eram curiosos, batiam-nos à porta várias vezes, queriam ver o que estávamos a fazer. Estávamos a dormir e as crianças batiam à janela, vivíamos com as galinhas e outros animais. Às 5h da manhã colocavam música. Dormíamos pouco. Íamos sempre cedo para casa porque anoitecia cedo, por volta das 17h e como não havia luz na rua tínhamos que nos salvaguardar.

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Tatiana Santos a passear com as crianças numa das ruas de São Tomé e Príncipe

Como era o vosso quotidiano?

Rita: Na primeira semana andamos a conhecer STP, fiquei doente, o que deu para perceber como funciona o sistema de saúde de STP, ou seja, é inexistente. Durante duas semanas organizamos um campo de férias. De manhã dávamos apoio ao estudo. Levámos material escolar porque eles não tinham. Pedíamos para eles pintarem desenhos e depois escreverem o nome do desenho, jogávamos com as cores e tentamos ensinar inglês. A nossa maior dificuldade foi lidar com todos, porque os irmãos mais velhos levavam os irmãos mais novos e havia ainda outros irmãos mais velhos que iam sempre, então tínhamos crianças desde os 2 anos aos 17 anos, eram muitos e só nós as duas, era uma confusão que por vezes tínhamos de falar alto para os acalmar. Não tinham o sentimento de partilha, tivemos de os ensinar como partilhar por exemplo um lápis.

Tatiana: Eles levavam os lápis para casa e contavam uns aos outros, então tivemos de lhes ensinar que os lápis não eram para levar para casa, quando perceberam a importância da partilha, nunca mais levaram material para casa. À tarde jogávamos com eles, aprendemos os jogos deles.

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Rita Santiago com um grupo de crianças. É evidente os sorrisos que ambas provocavam nestas crianças

O que sentem que ganharam com esta aventura?

Rita: Eu não conhecia a Tatiana e agora sei que posso ir para qualquer lado que a Tatiana vai comigo, criámos uma amizade muito sólida. Conseguimos desembaraçar-nos sozinhas, só tínhamos uma à outra. Descobrimos como tomar banho sem chuveiro. Aprendemos com esta aventura que conseguimos viver felizes com muito pouco.

Tatiana: Apanhamos uma mudança muito grande em STP, o lançamento de água potável, foi uma festa, até veio o Presidente. O choque cultural é muito grande, mas admiro a nossa adaptação rápida, o facto de lavar os dentes com caneca, o estar sempre tudo sujo, porque há terra por todo o lado, não havia janelas, logo, o fumo na casa por causa da comida era muito, todas estas situações deixaram de nos fazer confusão.

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Rita Santiago do lado esquerdo e Tatiana Santos lado direito construíram uma amizade para a vida. Ainda ambicionam fazer voluntariado juntas

Existe algum momento que vos tenha marcado?

Rita: O que mais me marcou foi a ideia de pensar que as crianças em STP eram sorridentes, que fazíamos brincadeiras e que se riam facilmente. Num dos dias do campo de férias, apareceu uma criança com cinco anos que trazia a irmã de um ano e meio, nunca vi uma criança com um olhar tão triste. Eu tentei de tudo para a fazer rir. Como andava sempre ao colo da irmã, eu peguei nela para dar espaço à irmã para brincar. No último dia das férias, ela estava sentada ao meu colo e senti que fez xixi em cima de mim. Eu tive logo a reação “então?” e ela começou-se a rir. Foi o dia mais feliz que passei em STP, a situação causou-me desconforto, mas a alegria dela, aquele sorriso marcou-me. E nunca mais me vou esquecer.

Tatiana: STP tem muitas roças que ficam no alto do monte das serras, que são de difícil acesso e onde as pessoas vivem isoladas. Nós arranjamos um jipe, fomos até lá praticar atividades e quando vínhamos a vir embora um dos rapazes mais velhos mandou-nos parar. Começou a dar-nos cocôs como forma de agradecimento. Nós ficamos surpreendidas, porque até esse dia nunca tínhamos tido um gesto tão bonito.

Esta vivência mudou a vossa forma de ser?

Rita: Eu sou escuteira há muitos anos, por isso sei o que é viver com falta de algumas coisas. O facto de aprender a viver sem água, fez com que atualmente em casa tenha a tendência de pedir à minha mãe para desligar a água, assim como, esqueci que tenho telemóvel, estive dias sem o usar. As memórias ficaram-nos, o facto de não termos certas condições foi o que mais mudou a minha forma de ser.

Tatiana: A mim faz-me pensar que devemos viver um dia de cada vez. A azáfama do nosso dia, de fazermos as coisas com o objetivo que virá a recompensa daqui a uns tempos e que só vivemos para isto. Lá não é assim! Este dia, é este dia, eu vou trabalhar este dia e vou receber, mas talvez no próximo não vá, mas isso não é importante. Isso marcou-me muito e ajudou-me em outras atividades que já organizei na UA. Foi uma terapia!

Trouxeram algum objeto de STP que vos exprime sentimentos?

Rita: Trouxe uma concha, primeiro porque é diferente das nossas. Segundo porque STP é um país pobre, mas muito bonito. Esta concha foi encontrada numa praia, guardei-a e todos os dias olho para ela e consigo lembrar que já vivi com pouco e que continuo a consigo viver com pouco.

Tatiana: Trouxe um top feito por um costureiro de lá. Não sei como é que ele aprendeu a costurar tão bem! Ainda não o usei, não tive coragem porque é muito importante para mim.

 

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Rita Santiago do lado esquerdo com uma concha que trouxe de STP. Tatiana Santos lado direito trouxe um top que tem um grande significado

Um dia vou…

Rita e Tatiana: Vamos voltar a São Tomé e Príncipe porque queremos encontrar algumas das crianças com quem nos cruzamos e conhecemos. Podemos esquecer dos nomes mas nunca das caras… E talvez voltemos a fazer voluntariado juntas, mas noutro país!

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A série #PessoasUA pretende mostrar as estórias e vivências das pessoas que fazem a comunidade UA. Se conhece alguém que deva estar aqui retratado, envie-nos uma mensagem para noticias@ua.pt com as suas dicas

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