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Entrevistas
Professores UA: Clara Magalhães, professora do Departamento de Química
“No ensino o que mais me fascina é ver a mente dos alunos a funcionar"
¿No ensino o que mais me fascina é ver a mente dos alunos a funcionar
Docente na Universidade de Aveiro (UA) desde 1979, Clara Magalhães, professora do Departamento de Química, ligada durante 20 anos à formação de professores, afirma: “No ensino o que mais me fascina é ver a mente dos alunos a funcionar". Considera que o ensino da Química “está cada vez mais asséptico” e que não há metodologias de ensino certas ou erradas, cada um deve usar aquela com que se sente mais confortável. A professora, que tem uma postura mais “why not?” do que “why?”, é também coordenadora da equipa responsável, na UA, pelo “Gabinete Extrajudicial de Apoio ao Consumidor Endividado (GEACE-UA)”.

Como define um bom professor?

Para se ser bom professor, em primeiro lugar, tem que se dominar bem o conhecimento científico da área que está a ensinar. Obviamente que gostar do que se faz ajuda muito, mas não chega. Um professor excecional é aquele que alia o conhecimento com o prazer de ensinar – que faz os alunos apaixonarem-se!

Como docente, de uma área científica, que esteve vinte anos (1990 a 2010) também ligada à formação de professores, defendi sempre que o mais importante é o conhecimento científico. Não há metodologias de ensino certas ou erradas. Cada professor deve utilizar o método de ensino com que se sente mais confortável. São estes dois fatores – conhecimento científico e utilização de um método de ensino adequado à pessoa - que determinam o sucesso de um processo de ensino-aprendizagem. De que serve dominar todas as metodologias de ensino se não se dominam os conteúdos? O que se vai ensinar?  Mas também dominar bem os conteúdos e utilizar uma metodologia pessoalmente não adequada pode dar mau resultado.

Um bom professor deve também estar atento aos alunos e saber comunicar com eles. Perceber num grupo quem trabalha e quem não trabalha, quais as dificuldades dos alunos, ou de um aluno em particular. Perceber se as dificuldades de um aluno resultam de falta de estudo, de falta de conhecimentos prévios ou de dificuldades pessoais de aprendizagem. A tarefa de um professor é muito complicada: por um lado deve ensinar mas também deve promover a aprendizagem.

O que mais a fascina no ensino e na investigação?

No ensino o que mais me fascina é ver a mente dos alunos a funcionar. Fazer uma pergunta e esperar pela resposta. Fazer os alunos compreenderem que não há respostas certas ou erradas a priori, mas tentar perceber, com os alunos, porque responderam de determinada maneira e onde poderá estar o erro que determinou a resposta se ela não for a correta. Se a resposta for correta utiliza-se a mesma metodologia pois uma resposta correta não indica necessariamente um raciocínio correto. Obrigá-los a pensar, e a pensar sobre o modo como pensam. Ver os olhos a brilhar quando descobrem algo de novo, que os fascinou. Fazer os alunos gostarem de Química, compreenderem a importância do conhecimento em geral, e compreenderem como raciocinar perante um problema.

Na investigação o fascínio está ligado à resolução de problemas complicados que exigem a intervenção de várias áreas científicas. Identificar e isolar os vários componentes do problema. Que propostas foram apresentadas e quais as suas limitações? Que novas abordagens se podem fazer?

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos (curso) a que está ligada?

O ensino da Química está cada vez mais asséptico. Há uma limpeza constante de conteúdos considerados difíceis pelos alunos. Sinto que é necessário repensar profundamente o ensino da Química em Portugal. Há uma, provavelmente, aparente contradição ao nível dos conceitos abordados. Quanto maior é o desenvolvimento científico menores e menos abrangentes são os conceitos estudados. O problema é mais vasto e não está centrado só na universidade. Cada vez mais, os alunos chegam à universidade com menos conhecimentos de Química, não por culpa dos professores, mas por re-estruturação contínua dos ensinos básico e secundário. Há países onde já se abordam conceitos que podem ser considerados da área da química, ao nível do 1º ciclo do ensino básico. Nos cursos que ministro, a maioria dos futuros professores, dos 1º e 2º ciclos do ensino básico, ainda consideram que não é preciso saber algo sobre temas relacionados com Química. Coisas simples como: o que é um átomo, a sua constituição e estrutura, …

Se quisesse dar conselho aos seus alunos, que conselho daria?

Um dos conselhos que dou aos alunos é que queiram sempre saber mais. Nunca estejam contentes com o que sabem. O conhecimento está em evolução constante. Aconselho-os também a fazer um Erasmus. Sair de Portugal, conhecer novas maneiras de ser, de pensar e de estar. Estarem abertos à diferença. Tenham interesses variados e não se foquem só no estudo.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Ao olhar para quarenta e seis anos de atividade docente não sou capaz de identificar qualquer turma que me tenha marcado, mas posso identificar muitos antigos alunos que me marcaram. Tive três alunas de cursos e anos diferentes que posso classificar como as mentes mais brilhantes que alguma vez tive. Tenho pena de lhes ter perdido o rasto. Muitos alunos têm carreiras de sucesso. Alguns alunos marcaram-me pela sua humildade. Sabiam quais eram os problemas e souberam como pedir ajuda. Com alguns dos antigos alunos ainda tenho projetos ou outras atividades científicas e/ou didáticas variadas.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes noutro contexto?

Ao fim de tantos anos a lecionar há alguns episódos que se poderiam contar. Posso relatar um caso passado há já bastantes anos. Quando a maioria das licenciaturas ainda eram de cinco anos, apareceu-me numa aula prática de uma disciplina dos últimos anos, um aluno que vinha rotulado como o melhor do curso dele. Ao fim da segunda aula já tinha verificado que o referido aluno não realizava qualquer trabalho prático e colocava a turma inteira a trabalhar para ele. Ele só se dignava fazer o relatório do trabalho realizado pelos outros. A situação era de tal ordem que numa outra aula mais tarde tive a visita de uma antiga aluna que ao entrar no laboratório deu-me os parabéns por naquele ano ter um assistente a ajudar nas aulas práticas. Tive que elucidar a antiga aluna que o referido assistente era o dito aluno que colocava a turma inteira a trabalhar para ele. O que mais me impressionou, neste caso, foi que por mais que quisesse convencer os/as colegas a obrigá-lo a trabalhar a resposta foi sempre, “já o conhecemos bem, sabemos que sempre foi assim”. No final, ao aluno foi atribuída a nota da componente prática correspondente ao trabalho desenvolvido e não só aos relatórios, tendo ficado o resto da turma muito admirada porque tal nunca tinha acontecido.

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Clara Magalhães diz ter uma postura muito mais “why not?” do que “why?”

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Traço principal do seu carácter

Um desejo permanente de saber mais. Não só de Química mas muito para lá da Química. Trilhar caminhos diferentes mas bem fundamentados cientificamente. Muito mais “why not?” do que “why?”. Cruzar o conhecimento de áreas científicas diferentes. Os percursos académico e profissional foram influenciados por tudo isto. Uma formação científica muito abrangente, e uma atividade de investigação pluri e interdisciplinar. Uma atividade docente muito variada ao nível das disciplinas lecionadas que também contribuíu para um alargar de horizontes.

Ocupação preferida nos tempos livres

Desde pequena que os tempos livres foram ocupados a ler e ouvir música. Atualmente, como a leitura faz parte da atividade quotidiana no trabalho docente e de investigação, privilegio estar com os amigos sempre que possível, seja em Portugal seja no estrangeiro. O que me leva a tentar viajar nos tempos livres. Aproveito também para conhecer outros países, outros povos, outras mentalidades e culturas.

O que não dispensa no dia-a-dia

Um momento de tranquilidade de manhã após o levantar e antes do pequeno-almoço. Um momento importante para ordenar ideias, analisar as situações complexas, procurar soluções.

O desejo que ainda está por realizar

 Atravessar toda a cordilheira andina, mas não nos picos mais altos. Por rios e vales, pelo meio das populações, da pré-história, da história antiga e moderna, da sua riqueza mineralógica, das paisagens únicas…

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