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Opinião
(H)À Educação: Inês Cardoso, investigadora do CIDTFF e docente do Camões na York University
"Dizes-me como escreves?… Dir-te-ei quem és!"
Inês Cardoso escreve sobre a escrita como criação pessoal
“Acima de tudo, a experiência com a escrita não pode ficar reduzida ao que os alunos fazem sozinhos ou na dependência do apoio em casa”, salienta Inês Cardoso, investigadora do CIDTFF e docente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua na York University, Canadá. É sobre a “escrita como criação pessoal, em contextos sociais e escolares" e que "convoca a pessoa inteira” que a investigadora escreve no âmbito da rubrica “(H)À Educação”, do CIDTFF.

O meu trabalho de ensino, de formação de professores e de investigação em Didática do Português, acaba sempre por desembocar nesta questão, que tem, na base, uma adaptação nossa, no ProTextos - um grupo de investigação sobre Ensino e Aprendizagem da Escrita de Textos, em atividade desde 2005 - do postulado de que “Os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem escrita” (Wittgenstein – o itálico é acréscimo nosso). Efetivamente, não precisamos sequer de adentrar em conclusões de estudos académicos para compreender como é forte a correlação escrita - “sucesso” escolar/profissional. Escrever é das atividades cognitivas mais difíceis de empreender e não se adquire naturalmente como se aprende a falar. Também não pode ser reduzida a um “dom”, a uma “súbita e incontrolável inspiração”, representação comum em depoimentos que temos analisado. Confundir escrever – criar texto novo – com transcrever também parece ser recorrente; porém, o gesto físico do “escriba” que copia está longe de definir os movimentos intelectuais e afetivos nos quais se envolve quem, querendo escrever, escreve mesmo.

Todo o nosso trabalho no ProTextos (coordenação: Luísa Álvares Pereira) se organiza entre estas dimensões da escrita que assim aflorámos: escrita como criação pessoal, escrita em contextos sociais e escolares, mas uma escrita que implica um processo reflexivo de revisão e de reescrita e que, por isso mesmo, convoca a pessoa inteira. Somos um grupo de professores de vários níveis de ensino, desde o 1.º ciclo ao superior. Ensinamos Português como língua materna e não materna. Formamos professores. Produzimos e partilhamos conhecimento por meio de intervenções em contextos sociais, formativos, científicos; escrevemos muitos “textos”, de que destacaria brochuras de autoformação, de atividades para o desenvolvimento da escrita bem como de outras competências. Experimentamos a escrita em toda a sua complexidade e potência. Grande parte destes escritos e materiais encontra-se disponível para download em http://protextos.web.ua.pt/, estando o ProTextos recetivo aos contactos de professores interessados em dialogar connosco, em trocar materiais, em discutir possibilidades de trabalho.

A reflexividade que acompanha os nossos próprios processos de escrever e de ensinar a escrever é crucial para as abordagens que, em aula, desenvolvemos com os nossos alunos e que podem assumir vários enfoques. Pode interessar desbloquear para a escrita, fazer experimentar escritas livres, por prazer, como meio de construção identitária e coletiva. E interessa sobremaneira não deixarmos os alunos reduzidos às interações que geram; acreditamos no que a escola pode fazer pela pessoa e não alinhamos numa “reprodução” de que escreve quem “tem dom” ou quem traz “hábitos de leitura”. Acreditamos no que a escola pode fazer descobrir e experimentar. Sabemos que ler muito não equivale, automaticamente, a escrever bem. Mas sabemos que há modos de (trabalho com a) leitura que podem ser mais ou menos adjuvantes da produção escritural.

Acima de tudo, a experiência com a escrita não pode ficar reduzida ao que os alunos fazem sozinhos ou na dependência do apoio em casa. Pesquisamos e continuamente (re)configuramos dispositivos didáticos que possam envolver o aluno e fazê-lo descobrir vários “quereres” para escrever. E percebemos, por experiência pessoal e validação científica, que “querer escrever” na escola pode ser muito mais ativ(ad)o quando, na escola, se acolhe toda uma escrita “selvagem”, livre, que contribui para a formação do sujeito. Como ensinar “o que (achamos que) o aluno tem de aprender” acolhendo quem ele é e o que já faz com a escrita: eis o nosso “texto” em contínua construção.

“Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico”

Inês Cardoso ,

Investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro e docente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua na York University, Canadá.

Email: inescardoso@ua.pt

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