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Entrevistas
Antigos alunos UA: Paulo Morgado, Engenharia Geológica
"Fui crescendo na minha formação em simultâneo com o crescimento da UA"
Paulo Morgado dedica-se ao estudo do património, à ao estudo do património, à Geoarqueologia ou às Arqueociências
Formado em Engenharia Geológica na Universidade de Aveiro (UA), Paulo Morgado dedica-se hoje ao estudo do património, à Geoarqueologia ou à Arqueociências. Para além da investigação e do trabalho como técnico, desenvolve funções na ADERAV e no Clube UNESCO de Aveiro. Considera que frequentou a Universidade num período crucial para a evolução da instituição, de tal modo que, afirma: “Fui crescendo a nível da minha formação pessoal em simultâneo com o próprio crescimento e evolução da UA”.

Quais os motivos que a levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

Sendo natural de Ílhavo, a proximidade da Universidade na vizinha cidade de Aveiro, tornou esta escolha natural. Para além da questão geográfica, aqui existiam algumas áreas do meu interesse de estudo, como o Ambiente, a Biologia, ou as Geociências. A primeira escolha foi mesmo Engenharia do Ambiente, mas acabei por entrar em Engenharia Geológica.

A Universidade de Aveiro, embora à data contasse com apenas 15 anos, afirmava-se já como uma escola de excelência em algumas áreas, e apresentava um futuro promissor. Estava a crescer no seu campus; era uma universidade jovem, mas já com muita vida.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

Completamente. Desde muito cedo, ainda no secundário, usava parte do meu tempo livre a recolher pedras, mas também insetos (como escaravelhos e borboletas). Lembro-me perfeitamente de ir para os esporões que se estavam a construir nas praias da Barra e da Costa Nova e colher alguns minerais que se encontravam nos blocos de granito e calcário. Depois, durante o curso, tive oportunidade de saber que minerais eram e como se formavam, mas também para que serviam. Depois, percebi que na geologia havia mais do que o estudo das rochas e os minerais, e que esta também tratava do estudo das águas, ou da estabilidade dos terrenos através da geotecnia, ou ainda dos solos e da problemática da sua contaminação; o que eram os sismos e como ocorriam, como se formavam as praias e como decorriam os processos de erosão. Foi um grande manancial de aprendizagem de novas áreas que, antes do ingresso neste curso nem fazia ideia que se ligavam com a geologia e com a engenharia associadas a esta disciplina.

Posso afirmar claramente que fui crescendo a nível da minha formação pessoal em simultâneo com o próprio crescimento e evolução da Universidade de Aveiro. Passei pela transição do Departamento de Geociências dos pré-fabricados, por todos conhecidos por Galinheiros, para o novo edifício. Tive professores que foram verdadeiros mestres, ensinando-me os conhecimentos e as ferramentas técnicas, mas também um conjunto de competências sociais e humanas.

O que mais a marcou na Universidade de Aveiro? (algum professor/colega/ episódio?)

Tive a oportunidade e, sei agora, o privilégio, de ter uma turma de colegas excecionais, cada um com as suas caraterísticas. Pela primeira vez estava numa família com elementos provenientes de todo o território: “Norte Sul e Ilhas”. Este foi mesmo o nome a que demos a um efémero “grupo musical”, constituído para atuar num dos Saraus de uma das Semanas Académicas.

Marcantes foram também as visitas de estudo/recreio que fizemos às ilhas da Madeira e dos Açores organizadas por nós, mas coordenadas e orientadas por alguns dos nossos professores. Considero também que a minha passagem pela COSE – Comissão Organizadora da Semana Académica-, foi um momento de forte enriquecimento de competências sociais, onde ocorreram episódios marcantes e que ainda hoje recordamos. Vivi e participei no fecho da Universidade, que durou alguns dias, quando os estudantes protestavam contra o aumento das propinas. Ainda como aluno, tive a oportunidade de colaborar com alguns trabalhos e projetos de investigação que se desenvolviam no Departamento. Um deles foi o trabalho de levantamento de dados de campo para a produção da Carta Geotécnica do Concelho de Aveiro e que me permitiu ficar a conhecer um pouco melhor o subsolo deste território e desta região.

História: de indiferença a curiosidade e interesse

Para além de investigação e conservação na área do património e arqueologia, é ainda vice-presidente da ADERAV. Tinha intenção, antes da formação na UA, de se dedicar às atuais atividades? A partir de que momento começou a definir as ideias neste capítulo?

Esta é uma questão muito interessante. Ainda aluno do ensino secundário, na minha escola em Ílhavo, quando andava no 11º ano, conjuntamente com mais três colegas, fundámos um grupo de defesa do património, neste caso focalizado no património natural e ambiental, a que chamámos o NEI – Núcleo Ecológico Independente. Foi formalizado junto do conselho diretivo, tínhamos o apoio da Associação de Pais e, no nosso plano de ação e atividades, tínhamos a edição de um jornal/boletim que era distribuído não só na escola, mas também na comunidade. Digo que é uma questão muito interessante porque, quando foi para escolher uma área para a entrada na universidade, dizia que podiam ser todas as áreas, mas nunca a História. E assim foi. Navegava nas ciências e nas tecnologias, nas engenharias. Mas, como digo, a determinada altura tropecei na História, no Património construído, na Arqueologia. Profissionalmente, comecei a colaborar em alguns projetos nesta área. E assim acabou por surgir, de forma natural, o associativismo, também, na área do património cultural e edificado. Em 2003, por convite do meu colega Luís Souto, integrei a direção da ADERAV – Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro. Curiosamente, um dos aspetos particulares desta Associação é precisamente olhar, desde a sua génese, com o mesmo cuidado e sem criar barreiras ou fronteiras artificiais, para o património natural e para o património cultural.

Foi fácil começar a carreira profissional nestas áreas? Refira os principais fatores que contribuíram para a facilidade/dificuldade.

A entrada para o trabalho nestas áreas surgiu com a possibilidade de colaboração nos trabalhos de investigação histórica que, pelos anos de 1999/2000, estavam a decorrer no Paço das Escolas da Universidade de Coimbra. Nos trabalhos de picagens de paredes, no edificado, e na escavação arqueológica que decorreu no Pátio da Universidade, sempre que era preciso alguém para identificar uma rocha, identificar ou descrever sedimentos em estratigrafia ou mesmo realizar alguns levantamentos topográficos lá era pedida a minha ajuda pelos responsáveis dos trabalhos arqueológicos. De início, nunca pensei que esta colaboração, na altura lateral ao meu percurso profissional e de investigação, pudesse evoluir para algo mais consistente e permanente. À medida que outras colaborações foram surgindo, verifiquei que podia aplicar os conhecimentos de algumas disciplinas da Geologia em trabalhos de património e Arqueologia, ramos de estudo designados por Geoarqueologia e Arqueociências. E, tão ou mais importante, percebi que gostava destas temáticas.

O que mais o fascina nessas suas atuais atividades?

Os desafios que nos são colocados na investigação histórica e arqueológica são muito interessantes. Quando, por via do nosso trabalho, se obtêm dados novos que ajudam a fazer/refazer a história de um local ou de uma comunidade, a satisfação e a emoção são muito gratificantes.

O Homem no passado, sem recurso aos conhecimentos, equipamentos e tecnologias de hoje em dia, conseguiu construir estruturas monumentais, quer em dimensão quer em dificuldade técnica. Considero que é um dever nosso, por um lado, aprender as formas de bem fazer de então e, por outro, ir mantendo algum deste património. As intervenções de manutenção, restauro e reabilitação de edifícios históricos ou outras estruturas antigas, quer para retardar a sua degradação, quer para a sua adaptação ao conforto e condições de segurança atuais, necessitam obrigatoriamente do contributo de técnicos de várias áreas num trabalho multi e interdisciplinar. O maior fascínio acontece quando se consegue o diálogo entre todos os envolvidos no desenvolvimento deste trabalho e, no final, o resultado obtido é clara valorização do património em questão. Este património não tem de ser obrigatoriamente monumental; pode passar por uma simples construção vernacular em adobe, tão tradicional da região de Aveiro. Pode, e deve.

No conjunto das atividades de investigação e conservação do património em que tem estado envolvido? Quer referir um caso que tenha sido mais marcante?

Todos os trabalhos deixam a sua marca. Posso, no entanto, nomear o trabalho que desenvolvi na Universidade de Coimbra, no Gabinete de Candidatura à UNESCO, responsável por elaborar todo o processo de candidatura da Universidade de Coimbra a património Mundial da UNESCO. Neste âmbito, a reconversão do antigo edifício setecentista do Laboratório Chimico, em pré-figuração do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, foi uma das intervenções que mais desafios colocou, mas que culminou com um trabalho final muito interessante e diferenciador.

De uma forma muito particular e tocante, não posso deixar de referir o arqueossítio da Agra do Crasto, implantado em pleno campus da nossa Universidade. Corria o ano de 2003, quando, conjuntamente com o Prof. Fernando Almeida do Departamento de Geociências, identificámos os primeiros artefactos arqueológicos que atestaram este local como um sítio arqueológico. Verificou-se que se trata do local de ocupação humana mais antigo em Aveiro, datado cronologicamente do período calcolítico, com cerca de 5000 anos. Saber como se alimentavam, em que utensílios comiam, ou mesmo o que comiam, como eram as suas casas, é um processo de investigação muito desafiante e gratificante.

O trabalho que tenho desenvolvido com o Prof. Fernando Rocha, na unidade de investigação GeoBioTec, sobre o estudo de cerâmicas antigas, nomeadamente a designada cerâmica do açúcar, produzida nas olarias de Aveiro na época dos Descobrimentos, permite-nos conhecer os circuitos e rotas comerciais da cerâmica e do açúcar. É muito interessante verificar a associação entre as argilas, matéria-prima para a produção olárica, a exportação deste tipo de cerâmica, o seu uso na produção do açúcar e a vinda de algum deste para Aveiro, logo no séc. XVI. É um trabalho que continua e esperamos que venha ainda a dar resultados ainda mais interessantes para a história de Aveiro, mas também para o comércio na época dos Descobrimentos. A produção desta forma cerâmica, de configuração particular e função específica, em Aveiro, a par com o extenso circuito da distribuição e comércio da enorme quantidade de peças aqui produzidas, constituem importante testemunho desta primeira globalização, na qual Portugal desempenhou papel fundamental.

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”Se já existe alguma preocupação no estudo e valorização do património, muito ainda se tem a fazer”.

"Deixou-se desaparecer muito do património que existia"

No contexto da defesa do património histórico, arqueológico e edificado da região e do país – cada vez mais necessária, se outras razões não houvesse, pela relevância crescente da atividade turística - como está Aveiro?

Em Aveiro, aliás, à semelhança de tantos outros locais do País, deixou-se desaparecer muito do património que existia. Algum não desapareceu por simples abandono ou ruína, mas mesmo por clara intenção de demolição e destruição. Foi o caso da muralha quatrocentista que circundava a então vila de Aveiro, ou algumas igrejas como a atualmente tão falada Igreja de S. João do Rossio, ou a vetusta Igreja de S. Miguel, provavelmente a mais antiga que Aveiro possuía. Das sete antigas casas conventuais, somente se manteve, mesmo que já muito adulterado, o Mosteiro de Jesus, onde atualmente está instalado o Museu de Aveiro / Santa Joana. Mesmo os edifícios de arquitetura tradicional foram e vão sendo destruídos ou profundamente alterados. Muito do património industrial também já desapareceu.

Atualmente, penso que já não seria possível ocorrerem situações destas. Ninguém deixaria demolir a Igreja de Jesus ou a da Misericórdia! Mas ainda assistimos, frequentemente, à destruição de azulejos históricos, à descaracterização da malha urbana antiga, ou ao desmiolar dos edifícios, por intervenções de puro fachadismo e sem qualquer cuidado com a preservação dos espaços ou, sequer, das memórias.

Se já existe alguma preocupação no estudo e valorização do património, muito ainda se tem a fazer. E se, felizmente, algumas das intervenções na malha urbana ou em infraestruturas já vão tendo acompanhamento arqueológico, muitas outras vão sendo realizadas sem esta preocupação.

Posso dizer que, nesta área deveremos estar atentos e preocupados, mas com otimismo e esperança no futuro. É nesse sentido que todos os dias trabalhamos.

Tem alguma outra atividade paralela que queira referir? Como descomprime do stresse do dia a dia?

Costumo dizer que não tenho tempos livres. Quando estão livres arranjo sempre alguma coisa para fazer. Já se referiu a minha atividade na ADERAV. Mas também estive na génese e estou na direção do Clube UNESCO de Aveiro, associação que tem como objetivo promover a UNESCO e os seus programas, junto do público, a nível local. Como objetivo específico, este Clube pretende investigar, reunir, fixar e divulgar património histórico-cultural da Região Centro, com sede em Aveiro, nas suas vertentes de património cultural edificado, móvel e imóvel, bem como o Património imaterial.

No movimento confrádico, pertenço à Confraria dos Ovos Moles de Aveiro, que tem por missão o estudo, promoção, divulgação e defesa deste doce como património gastronómico ligado às casas conventuais. Posso dizer que é uma atividade muito doce, e que recomendo a todos!

Quando ainda sobra algum tempo, dedicou-o aos livros, nomeadamente os antigos, pois entendo-os como guardiões da nossa memória coletiva, em todas as áreas do saber e do conhecimento. Sempre que abro um livro que não conheço, sinto a emoção antecipada de estar prestes a saber o que contém. O que alguém escreveu em determinado lugar, e num determinado tempo, ficou ali, fossilizado. À espera do seu leitor. É essa a magia que encontro nos livros.

Quer deixar algumas dicas aos recém-formados na UA que pretendam seguir esse percurso?

Primeiro gostaria de dizer que devem entender a universidade mais como um local de aprendizagem de competências do que somente um local para adquirir conhecimentos. Depois, tem mesmo de se gostar do que se faz. Não vale a pena sabermos muito e sermos muito bons numa determinada área se não gostamos daquilo que fazemos. A realização pessoal é meio caminho para o sucesso. Depois, temos de encontrar a harmonização de linguagem com as outras disciplinas com as quais temos de trabalhar. E, depois, é só arregaçar as mangas e fazer! A matéria de trabalho nestas áreas é quase inesgotável. Basta lembrar a reabilitação que é necessária fazer nos nossos edifícios, históricos ou não.

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