conteúdos
links
tags
Opinião
Rubrica (H)À Educação: Rosa Maria Faneca, investigadora do CIDTFF/UA
Como mobilizar a diversidade linguística e cultural nas escolas portuguesas?
A investigadora do CIDTFF, Rosa Faneca, estuda multiculturalismo na sala de aula
O multilinguismo e a multiculturalidade no ensino e na sala de aula são temas de estudo do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF). Sobre este assunto, escreve, no âmbito da rubrica “(H)À Educação”, iniciativa desta unidade de investigação da Universidade de Aveiro (UA), a investigadora Rosa Maria Faneca: as línguas de herança, “mesmo quando tematizadas em sala de aula, e não obstante o valor afetivo e identitário que se lhes é reconhecido, não se constituem como projeto didático com valor 'per se', não sendo por isso mobilizadas em sala de aula”.

Em Portugal, o fluxo migratório das últimas décadas introduziu nas escolas uma marcada dimensão multilinguística e multicultural, conduzindo à realização de vários estudos sobre as línguas de herança (LH) dos alunos com histórias migratórias. Importa referir que, de um total de 1641003 alunos inscritos nas escolas públicas (com idades compreendidas entre 5 e 18 anos), 49743 apresentam histórias migratórias, de acordo com dados apurados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, 2016. Estes alunos são de primeira geração (nascidos em Portugal, dentro e fora da Europa) ou de segunda geração (nascidos em famílias estabelecidas em Portugal, mas cujos pais ou avós são de outros países). A maioria desses alunos vem de mais de 30 países e fala línguas variadas tais como: o Português do Brasil, seguido de línguas crioulas de base portuguesa (de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe), alemão, espanhol, francês, guzerate, hindi, inglês, mandarim, moldavo, romeno, russo e ucraniano… As suas LH são uma oportunidade valiosa para a formação de cidadãos capazes de aceitar e valorizar a diversidade linguística e cultural.

Mas afinal, o que é uma LH e quem são os falantes de herança presentes na sociedade e nas nossas escolas?

Uma LH é falada no seio da família, isto é, a língua de origem dos imigrantes, refugiados ou de diferentes etnias.  É uma língua minoritária associada à presença de comunidades estrangeiras na sociedade dita de acolhimento, maioritária, cuja aquisição começa geralmente em ambiente familiar, combinando-se com a língua do país de acolhimento (língua portuguesa). Em geral, a LH é a primeira língua à qual a criança é exposta. Os falantes de LH são aqueles cuja “casa” ou língua é diferente do português e que têm uma exposição simultânea, mas desequilibrada nas duas línguas (LH e língua portuguesa).

Perante a complexidade e as tensões que se reconhecem nos campos sociais e educativos (com especial atualidade em torno de questões de convivência religiosa) cresce a consciencialização da necessidade de a debater em contexto alargado, de forma a evitar que as possibilidades que ela encerra (em especial, enquanto potenciadora da formação de cidadãos e de sociedades mais abertas, mais inclusivas, mais plurais) não redundem em mera sensibilização… Neste contexto, um grupo de investigadores do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) tem vindo a trabalhar com alunos com experiências de várias culturas, de várias línguas, com pertenças múltiplas e transitórias e tem mostrado que esta diversidade traz desafios educativos a vários níveis. Em Portugal, importa notar, nada está ainda previsto nos programas oficiais para promover a integração e o sucesso escolares dos alunos com histórias migratórias. Dito isto, parece partir-se do pressuposto de base que as LH não só não são capitalizáveis em sala de aula, como ainda podem atrapalhar a aquisição da língua portuguesa (independentemente de serem ou não línguas próximas ou mesmo variedades da mesma língua). Assim, as línguas destes alunos, mesmo quando tematizadas em sala de aula, e não obstante o valor afetivo e identitário que se lhes é reconhecido, não se constituem como projeto didático com valor per se, não sendo por isso mobilizadas em sala de aula.

LH e português coabitam nos mesmos espaços, mas mobilizar a diversidade linguística e cultural dos meninos para quê?  Sabe-se que as línguas das famílias são fundamentais para as crianças: dão lhes segurança e transmitem uma história familiar. É também graças às LH que a criança vai aprender a falar. Além disso, quanto mais uma criança conhece e pratica a(s) língua(s) da família, mais facilmente aprende depois o português.  

Face a esta realidade, como incluir esta diversidade em sala de aula? Será que a escola portuguesa poderia valorizar o ensino-aprendizagem de LH como uma mais-valia para a nação, para o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos e como investimento no futuro? Será que as LH trazem algumas implicações para a transmissão, manutenção, legitimação e convivência face ao português, relegando-as para uma posição de não-poder, de não-importância?

Estas são algumas questões que deixamos nesta reflexão.

 

(Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

 

Rosa Maria Faneca,

investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro.

imprimir
tags
outras notícias