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Opinião
(H)À Educação: Manuela Gonçalves, professora do Departamento de Educação e Psicologia da UA
E se lhe contasse como foi o meu primeiro dia de aulas depois das férias do Natal?
Manuela Gonçalves, investigadora do CIDTFF, escreve sobre o primeiro dia de aulas depois das férias do Natal
“Olá! Chamo-me Sofia e estou no 4º ano, numa escola perto de si. Vou-lhe contar como foi o meu primeiro dia de aulas depois das férias do Natal”. História fictícia do primeiro dia de aulas depois das férias do Natal, por Manuela Gonçalves, professora do Departamento de Educação e Psicologia e investigadora do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), da Universidade de Aveiro (UA). O texto é publicado no âmbito da rubrica “(H)À Educação”, do CIDTFF, em simultâneo no uaonline e no Diário de Aveiro.

Um parêntesis sobre as minhas férias. O meu pai trabalha fora e só chegou para o Natal no dia 23. A minha mãe só conseguiu folga do emprego no dia 31. Então, tive de ir para o ATL durante a primeira semana de férias. De manhã brincava e à tarde fazia os TPC. Na segunda semana, fomos, o meu pai e eu, visitar parentes que vivem longe. O meu irmão, o Jojó, já tem 16 anos e não quis ir.

Agora vou-lhe contar o meu primeiro dia de aulas depois das férias do Natal.

Desculpe-me outro parêntesis, esqueci-me de dizer que não fiz um dos muitos TPC que a minha professora nos deu antes das férias - uma pesquisa na net sobre um rio de Portugal. No ATL não há computador, ou melhor, há, mas nós não o podemos usar – está reservado para as coisas importantes dos adultos. O portátil do Jojó está avariado e a reparação ficou adiada para este mês de janeiro. A mãe diz que o dinheiro não dá para tudo, por isso comprou um smartphone usado para oferecer ao Jojó no Natal. O outro, velhinho, passou para mim. Eu não me importo com a rachadela pequenina que tem num dos cantos, mas é muito lento para pesquisar na net. Não posso usar dados móveis, ninguém me explicou porquê, e as tias onde estive com o meu pai não têm net em casa. Quando regressámos da visita, fui ao senhor Toninho, o vizinho simpático do 2º Esquerdo, para lhe pedir se podia usar o seu computador, mas ele tinha ido para a terra passar o Ano Novo, disse a dona Georgina do 2º Direito. O Jojó não me emprestou o smartphone. Nenhuma das minhas colegas mora perto de mim, para fazermos juntas a pesquisa.

Finalmente, o meu primeiro dia de aulas depois das férias do Natal.

Com o pão com manteiga numa mão, o peso da mochila nas costas e das saudades do meu pai no coração, saí de casa a reboque da mãe, que me puxava pela alça da mochila, a reboque para o autocarro, depois a reboque pela rampa para a escola. Alegria ao ver os amigos, ao ver a Professora, também ela alegre, a cheirar a perfume novo.

Ups… estou a ficar sem espaço para lhe contar como foi o meu primeiro dia de aulas depois das férias do Natal! Trabalhei toda a manhã e toda a tarde trabalhei, tendo engolido à pressa o almoço e o lanche para brincar mais tempo no recreio. Os TPC não foram corrigidos, apenas se conferiu quem os tinha feito na totalidade. A professora zangou-se com aqueles que não cumpriram… se continuam assim, conseguirão ir para o 5º ano?, perguntou. Não tive oportunidade de explicar porque não tinha feito a pesquisa.  No fim da aula…  mais TPC! Fi-los no ATL. Regressei a casa de autocarro com a mãe, já eram 19h30m. Estávamos cansadas e com fome. A mãe convenceu o Jojó a ajudar-me no TPC das férias em falta: escolhemos o rio Mondego. Terminámos já depois das 21h, enquanto jantávamos. Antes de adormecer, ainda mandei um J ao pai pelo whatsapp.

Não foi um dia muito diferente de todos os outros dias de aulas, certamente dos dias de aulas de muitas outras crianças. Um dia explico-lhe melhor porque é que nós gostaríamos de não ter tantos TPC e de poder brincar mais na escola, em casa e na rua; porque é que às vezes estamos distraídos nas aulas e ficamos irrequietos ou apáticos no ATL. Um dia irá perceber que nós não somos apenas alunos e alunas... somos crianças! 

Nota: Esta é uma história fictícia de uma criança imaginária.  

 

(Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

Manuela Gonçalves

Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores da Universidade de Aveiro

manuelag@ua.pt

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