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Opinião
(H)À Educação: Carlos Fernandes da Silva, diretor do DEP/UA
É difícil educar uma criança?
Carlos Fernandes da Silva escreve sobre a dificuldade de educar uma criança
A dificuldade de educar uma criança que, sabe mais do que normalmente os pais pensam, é o tema do texto escrito por Carlos Fernandes da Silva, diretor do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro, no âmbito da rubrica “(H)À Educação”, do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF). Os textos são publicados em simultâneo no uaonline e no Diário de Aveiro.

Uma criança, mesmo com um dia de vida após o nascimento, sabe muito mais do que o adulto acredita. 

Imagine-se junto à Ria de Aveiro, num dos jardins públicos com dois bebés. Deixe que o bebé Francisco experimente uma chupeta arredondada e de textura suave e o bebé Rodrigo uma chupeta pontiaguda e de textura enrugada, não permitindo que os bebés vejam as chupetas. Depois coloque as chupetas na toalha que tem sobre a relva. Ambos olham mais tempo para a chupeta que tiveram na boca. Isto é, conseguiram reconhecer a forma das chupetas tateando-as com a boca e língua, o que exige capacidades avançadas de análise de dados sensoriais e de representação mental.

Numa das praias da Barra uma mãe leva o seu bebé de 9 meses a uma feira onde há marionetas. O bebé vê uma marioneta azul que tenta levantar a tampa de uma caixa para tirar um boneco. Aparece uma segunda marioneta amarela “ajudadora” que ajuda a marioneta azul e lhe dá o boneco. Depois repetem a cena mas com uma marioneta verde “antissocial” que salta para cima da caixa e impede a marioneta azul de tirar o boneco. A seguir dão a escolher ao bebé as duas marionetas amarela e verde e o bebé escolhe a amarela (que ajudou).

A seguir a marioneta amarela “ajudadora” perde uma bola. Aparece uma marioneta castanha “solidária” que apanha a bola e entrega à amarela. Noutra altura aparece uma marioneta roxa que rouba a bola e foge. O bebé prefere a marioneta castanha solidária que entrega a bola.

Mas, qual prefere o bebé se a marioneta que perde a bola for a marioneta verde “antissocial”? Prefere a marioneta roxa que rouba a bola e foge!

Isto é, os bebés com 9 meses de idade ajuízam moralmente tendo em conta os contextos e a história – uma noção de justiça muito avançada.

Tendo em conta esta capacidade de ajuizamento moral avançado aos 9 meses de idade, como ajuizará a criança as ações injustas e/ou violentas dos cuidadores? E em que medida causará danos no seu desenvolvimento psicológico?

Efetivamente as crianças possuem mais capacidades do que o senso comum acredita.

Numa festa de aniversário, a menina Vera, com 9 anos de idade, vendo uma grávida pergunta à mãe o que teria a senhora grávida na barriga. A mãe, com dificuldade em lidar com a questão, diz que será “água”. A Vera comenta de imediato: “Ai mãe! Sério? Assim o bebé vai morrer afogado!”. A criança quis testar uma hipótese.

Educar uma criança é fácil se se garantir que a mesma sente que pode testar as suas hipóteses colocando perguntas aos pais. Deverão dar informação verdadeira mas limitada. Sabendo que têm permissão, as crianças procurarão os pais para informação adicional.

Será igualmente importante que ao fim de um dia de trabalho para os pais e de um dia de creche e/ou escola, os pais deixem de fazer seja o que for e atendam a criança ou jovem durante os primeiros 15 minutos (escuta ativa).

Não é difícil educar uma criança, apesar da complexidade e de algumas exigirem intervenção especializada.

 

(Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

Carlos Fernandes da Silva

Diretor do Departamento de Educação e Psicologia, unidade orgânica que integra o CIDTFF. Universidade de Aveiro.

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