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Opinião
Texto de Nelson Zagalo, professor e investigador do Departamento de Comunicação e Arte da UA
Pornografia foi um dos motores da evolução tecnológica
Nelson Zagalo, do Departamento de Comunicação e Arte, escreve sobre a influência da indústria porno nos avanços da tecnologia
A pornografia e a evolução deste mercado influenciou o desenvolvimento tecnológico. Disso trata o texto de opinião de Nelson Zagalo, professor do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. O professor é investigador na área dos media interativos, autor de estudos sobre videojogos editados em livro, criou o EngageLab e fundou a Sociedade Portuguesa para a Ciência dos Videojogos.

É mais ou menos consensual nos dias de hoje, o facto da pornografia ser um dos maiores impulsionadores de várias tecnologias nos domínios do audiovisual e da internet. O caso mais citado é o da vitória do formato de gravação vídeo, o VHS (da JVC, suportada por outras marcas) sobre o Betamax (exclusivo da Sony), que diz que o VHS ganhou a guerra de formatos por ter sido o formato adotado pela indústria pornográfica. Existem várias perspetivas sobre este caso, na verdade as cassetes da Sony apresentavam melhor qualidade de imagem, mas só permitiam 2 horas de gravação, enquanto o VHS, apesar de apresentar uma qualidade ligeiramente inferior, permitia até 3 horas, ao que se acrescentavam custos do sistema, de gravação e reprodução, bastante mais baixos. Claro que também não ajudou o facto da Sony não ter licenciado a sua tecnologia para uso pela indústria pornográfica, algo que ganha imenso relevo quando no final dos anos 1970, metade das vendas de cassetes de vídeo eram de conteúdos pornográficos.

Do mesmo modo, durante décadas a palavra “sex” foi a mais procurada na internet, dando conta da importância do tema para o interesse e crescimento da rede à escala global. Se no início de 2000 existiam cerca de 100 000 sites dedicados ao tema, hoje ultrapassam os vários milhões. Grande parte dos sites e conteúdos são gratuitos, funcionando como canalizadores para site pagos. Podemos juntar a isto o enorme desenvolvimento do comércio eletrónico, que suportaria o aparecimento do Ebay, da Amazon ou do Paypal, ou o design de sistemas de microtransações que tornariam as lojas de Apps tão apetecíveis e os videojogos online “free-to-play”. Num estudo de 2005, 69% de todas as vendas realizadas online eram relacionadas com pornografia, impondo-se sobre qualquer outro conteúdo do jornalismo ao desporto, passando pela música ou videojogos. Já no caso do vídeo online, podemos dizer que os sistemas de codificação e streaming de vídeo foram fortemente impulsionados pela ânsia dos internautas em consumir pornografia.

Nenhuma destas tecnologias foi desenvolvida especificamente para a pornografia, nem esta se envolveu no financiamento das mesmas. Seria sempre complicado assumir esse posicionamento por qualquer centro de investigação científica. Contudo, foi o uso massivo dessas tecnologias para produzir e partilhar conteúdos dessa natureza que permitiram a essas tecnologias crescer, e justificar nelas o investimento e financiamento.

A pornografia vive da tecnologia, hoje e sempre, desde o momento em que começámos a exteriorizar e a registar o nosso pensar e sentir. Nas cavernas da Europa pudemos encontrar desenhos e esculturas de falos com mais de 30 mil anos. Na arte das primeiras civilizações, da Mesopotâmia e do Antigo Egipto, com mais de 5 mil anos, não faltavam composições escultóricas e gráficas com posições sexuais. A prensa de Gutenberg foi utilizada em toda a Europa para divulgar clássicos da literatura mundial, mas também para fazer circular escrita popular erótica e pornográfica. A fotografia e o cinema do final do século XIX elevaram o realismo e a excitação a novos níveis, e sempre que novas tecnologias de comunicação foram surgindo, do vídeo à internet, da multimédia à realidade virtual, a pornografia soube posicionar-se e utilizá-las por forma a estimular o seu desenvolvimento.

Podemos dizer que a necessidade de exteriorizar do ser humano foi sendo sempre amplamente correspondida pela necessidade de consumir. A vontade de aceder à experiência do mesmo sentimento no outro é muito forte, porque compreender-se a si implica compreender o outro, e o sexo é um dos elementos centrais da existência. Sem ele não teríamos vida, por isso os nossos genes fazem-nos mover numa busca apenas comparável à busca por água e comida. Mas se todos compreendemos que temos de comer e beber, o sexo é algo mais enigmático, sim precisamos dele para reproduzir, mas não a toda a hora! Basta entrar numa qualquer casa de banho pública para nos darmos conta dessa urgência! Daí que as tecnologias da comunicação sejam fundamentais à expressão do sexo, porque abrem a porta à necessidade da sua compreensão.

Nelson Zagalo

Professor do Departamento de Comunicação e Arte da UA e investigador em media interativos e em videojogos.

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