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Opinião
Rubrica "HÀ Educação: texto de Rui Neves, investigador do CIDTFF
Provas de Aferição de Educação Física no 1º Ciclo do Ensino Básico – Porquê e Para Quê?
Rui Neves
O "percurso sinuoso e irregular" da Educação Física na escola do 1º Ciclo do Ensino Básico (CEB), apesar de constar desde sempre do seu currículo obrigatório, e as provas de aferição em Educação Física realizadas no 2º ano do 1º CEB. Estes temas motivam um texto de opinião, no âmbito da rubrica "HÀ Educação" publicada em simultâneo com o Diário de Aveiro, do investigador Rui Neves, membro do Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” (CIDTFF) da Universidade de Aveiro.

A Educação Física (EF) na escola do 1º Ciclo do Ensino Básico (CEB) em Portugal tem tido um percurso sinuoso e irregular, apesar de constar desde sempre do seu currículo obrigatório. Ao longo dos anos, pudemos identificar a exclusão da abordagem desta área nas práticas educativas de muitas escolas, em paralelo com muitas outras com práticas regulares e de qualidade.

A partir de 2006 com o surgimento das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) alguma confusão concetual ficou instalada, entre currículo obrigatório (Educação Física) e currículo facultativo (Atividade Física e Desportiva). A Organização Mundial de Saúde considera fundamental que cada criança tenha um mínimo de 60 minutos de atividade física diária. Se considerarmos que cabe à escola proporcionar os melhores exemplos no desenvolvimento das crianças, a EF com níveis regulares e de qualidade deve ser uma prática existente em todas as escolas do 1º CEB em Portugal. As crianças ao longo do 1º CEB atravessam um período crítico do seu desenvolvimento, onde manifestam uma maior disponibilidade para realizar determinadas aquisições e desenvolver certas capacidades motoras. As crianças não têm duas vezes 6 anos, 2 vezes 7 anos ou 2 vezes 8 anos… A escola tem de compreender que o desenvolvimento da criança exige estimulação cognitiva, sócio-afetiva mas também motora adequada. Até porque o desenvolvimento não é parcelar, ele emerge como um todo, em que o prazer nas atividades realizadas deve estar sempre presente.

As Provas de Aferição em EF realizadas aos alunos do 2º ano de escolaridade constituem-se como uma forma de monitorização do trabalho das escolas nesta área obrigatória do currículo.

Estas provas quando foram anunciadas provocaram as mais distintas interpretações (“Como é que vão avaliar as crianças?”; “As crianças só têm 7 anos não deveriam ser avaliadas”; “Olha agora, vão avaliar cambalhotas!?”, etc). Apesar de todas as opiniões divergentes, relativamente à sua pertinência consideramos que foram uma forma de “virar a página” sobre um tempo em que apenas duas áreas do currículo tinham atenção.

Estas provas são assumidas como de caráter diagnóstico e formativo e vinculadas a uma lógica de avaliação qualitativa. Mais do que um sinal político por parte do Ministério da Educação, estas provas de aferição vieram dar visibilidade a uma área do currículo aos olhos de escolas, professores e famílias. Não está em causa a excelência ou a pobreza dos resultados alcançados pelas crianças, antes caraterizar fraquezas e potencialidades para melhor direcionar o trabalho formativo por parte de escolas, professores e famílias.

A EF como área do currículo é o contexto onde cada criança realiza a sua socialização com uma cultura motora, alicerçada no domínio de ações, habilidades, conhecimento das práticas e desenvolvimento de atitudes e valores próprios do universo das Atividades Físicas e Desportivas (AFD). Está em causa proporcionar a TODAS as crianças oportunidades de aprendizagem para desenvolver competências para uma participação mais eclética numa futura opção de vinculação a uma atividade desportiva. A EF no 1º CEB tem finalidades educativas de em termos inclusivos facultar uma mais forte relação das crianças com as AFD, já que a natureza dessa relação deve assentar no prazer das práticas, associado ao seu domínio e perceção de competência em termos evolutivos.

É neste quadro que as Provas de Aferição em EF dão a possibilidade de evidenciar de forma mais precisa pontos mais e menos fortes no domínio de competências motoras consideradas fundamentais no desenvolvimento das crianças nestas idades. Num tempo em que há uma perceção de vida sedentária nas nossas crianças, importa evidenciar dados objetivos sobre o que cada criança domina em termos motores, no contexto das suas práticas de EF na escola do 1º CEB.

Rui Neves 

Investigador do Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

(“Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico e publicado, em simultâneo, no Diário de Aveiro, no âmbio da rubrica "Há Educação")

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