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Entrevistas
Professores UA - Ana Breda, Departamento de Matemática
“Formamos quadros altamente qualificados e competentes para os mais diversos setores de atividade”
Ana Breda: um professor
Um bom professor é “um esclarecedor, um provocador e um germinador de conceções, ideias e pensamentos”. Ana Breda, professora do Departamento de Matemática da Universidade de Aveiro (UA), entende ainda que um professor deve ser um “contínuo aprendiz e pesquisador de conhecimentos”. Lecionando a cursos de formação de professores e a cursos de engenharia, salienta que a UA forma “com solidez quadros altamente qualificados e competentes para os mais diversos setores de atividade”.

Ana Maria Reis D'Azevedo Breda é doutorada em Matemática Pura, na especialização de Geometria e Topologia, pelas Universidades de Southampton, Reino Unido, e Universidade de Coimbra, Portugal. É professora associada com agregação do Departamento de Matemática (DMat) da Universidade de Aveiro. Coordenadora da Linha Temática GEOMETRIX, do Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações (CIDMA), e membro do ICMI-Portugal, é também autora de diversas publicações científicas e didáticas tendo ocupado vários cargos, dos quais se destacam os seguintes: presidente da Sociedade Matemática da Região Centro, presidente do Conselho Diretivo e coordenadora da Comissão Científica do DMat e diretora da licenciatura em Matemática.

Como define um bom professor?

Qualificar, com rigor, um professor é uma tarefa impraticável. À complexidade das variáveis envolvidas acresce a subjetividade de uma grande parte delas. Como sabemos, um bom professor para um aluno, pode não o ser para outro. Há, contudo, características que considero serem consensuais e que orbitam à volta desta apreciação. Neste sentido, diria que um bom professor para além de dominar com mestria as matérias que ministra, é um contínuo aprendiz e pesquisador de conhecimentos não necessariamente adstritos à sua área de formação, planeia e organiza as suas aulas tendo em conta conexões com tópicos e áreas do mesmo e/ou de distintos domínios científicos, estimula a participação ativa dos seus estudantes e promove relações pedagógicas assentes na confiança, aceitação, consistência, dedicação e atenção individual. Um bom professor desperta e alimenta, nos seus alunos, a curiosidade, a vontade de aprender e o gosto de explorar caminhos ainda não percorridos. É um esclarecedor, um provocador e um germinador de conceções, ideias e pensamentos.

O que mais a fascina no ensino?

Fascinam-me os desafios a enfrentar e/ou a colocar, emergentes da dinâmica gerada, usualmente, em sala de aula e consequência indissociável de que quem ensina também aprende e de que quem aprende também ensina.

Fascina-me vivenciar a relevante contribuição desta ação na formação intelectual, social, ética e cívica do ser humano e presenciar, mesmo que esporadicamente, ao despontar de ideias brilhantes, criativas e inesperadas que me fazem sorrir e apreciar a minha privilegiada condição de académica.

Fascina-me conviver com as gerações com maior avidez de conhecimento e mais capazes de o gerar e aplicar.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligada?

Para além do curso de Matemática, estou ligada, essencialmente, a cursos de formação de professores e a cursos de engenharia. Dentro dos constrangimentos com que nos deparamos no dia-a-dia, comuns à generalidade das instituições portuguesas de ensino superior, somos indubitavelmente uma universidade com um elevado padrão de qualidade na formação ministrada e na investigação desenvolvida.

Formamos com solidez quadros altamente qualificados e competentes para os mais diversos setores de atividade. Contribuem, para este efeito, os contactos/estágios efetuados com empresas, institutos superiores e escolas dos ensinos pré-universitário.

Por muito qualificada que seja a formação oferecida é sempre possível melhorá-la, adaptá-la, e reestruturá-la à luz dos objetivos que se pretende alcançar. Somos uma instituição atenta, crítica e interventiva.

É possível traçar um perfil do aluno dos cursos onde leciona? Qual, ou quais, serão esses perfis?

Em termos absolutos, tal não é possível. Contudo, estes cursos são especialmente apropriados a quem gosta de analisar, sistematizar, modelar, inferir, deduzir, criar e inovar. Para além destes atributos, acrescentaria, ainda, os seguintes: ter espirito de iniciativa, ser persistente, empenhado e resiliente e ter a capacidade em integrar-se, de forma harmoniosa e produtiva, em grupos de trabalho multidisciplinares.

Se quisesse dar um conselho aos seus alunos, que conselho daria?

De entre vários destaco os seguintes: uso eficiente e eficaz do tempo de cada aula e tutoria, um bem precioso e escasso; leitura antecipada de materiais referentes a tópicos que serão abordados posteriormente, permitindo melhorar a sua compreensão e consolidação e antever possíveis conexões e aplicações; promoção de discussões/explorações de tópicos fascinantes ou “impenetráveis” com colegas

do mesmo e/ou de diferentes cursos alargando a perspetiva que se tem dos mesmos; gestão responsável na opção dos métodos de avaliação; cultivo da tolerância e respeito para com a diversidade e a diferença.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

A dinâmica geral de cada turma resultante da ação específica de cada um dos seus intervenientes, eu incluída, cria a marca com que a visualizamos, percecionamos e sentimos. Esta marca é, por um ou outro motivo, mais fortemente sentida numas turmas do que noutras. De entre as mais marcantes recordo, com gosto, o ambiente vivido em algumas aulas das turmas de Cálculo I e II dos cursos de Engenharia Biomédica e Engenharia Computacional, ano letivo 2016-2017, onde os problemas propostos eram encarados como obstáculos a transpor a qualquer custo, proporcionando, de quando em vez, avivadas e profícuas discussões, muitas delas decorrentes da utilização de resultados que ou não deveriam ser ainda usados (o corpo de conhecimento ministrado não era ainda suficiente para os validar) ou não podiam, de todo, ser usados. Foi um ano académico muito, muito, especial. Um dos alunos de engenharia computacional, que frequentou uma das turmas a que me refiro começou, há cerca de mês e meio, a trabalhar como bolseiro de iniciação científica na Linha Temática GEOMETRIX, que coordeno.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Na primeira vez que lecionei a unidade curricular de Elementos de Geometria, unidade curricular da licenciatura de Ensino Básico, achei por bem fazer uma pequena digressão histórica pelas diversas geometrias, a euclidiana, a hiperbólica e a elíptica, referenciando, sempre que considerava oportuno, ligações a tópicos científicos atuais. A partir de um certo momento apercebo-me que o silêncio, por parte dos alunos, era total... e eu num empolgamento que só visto. Pensei cá para com os meus botões, devem estar mesmo a gostar disto…

Terminada a sessão, os alunos saíram da sala e agruparam-se junto à porta. O ruído era agora bem audível! Depois de arrumar os materiais de que me servira, saí da sala, confiante e feliz.

Rapidamente constato que o ambiente envolvente não era dos melhores. Os alunos estavam tensos, angustiados e perturbados. Mas porquê? Tentei, de imediato, indagar a razão para tamanha perturbação. A resposta não se fez esperar.

- Professora, o que lhe vou transmitir não tem nada a ver consigo, mas gostávamos de lhe dizer que nunca seremos capazes de “fazer” esta unidade. É tudo muito complicado. Na verdade, não percebemos nada.

Fiquei atónita. O que preparara com o intuito de os motivar tinha surtido, precisamente, o efeito contrário. Tenho que confessar que não fazia a menor ideia que os conhecimentos matemáticos da maioria dos alunos que frequentavam, nesta altura, esta unidade curricular se situava ao nível do 9.º ano de escolaridade.

Ainda hoje sorrio ao relembrar este episódio, que me atrevo a intitular “Do êxtase ao choque”.

Traço principal do seu carácter

Sou impetuosa, dinâmica, exigente, compreensiva e amiga.

Ocupação preferida nos tempos livres

Ler, ouvir música, ir ao cinema e ao teatro, viajar, conviver com pessoas de interesses comuns.

O que não dispensa no dia-a-dia

O café, a música, a leitura, o carinho e, sobretudo, momentos de reflexão e meditação interior.

O desejo que ainda está por realizar

Ter a possibilidade de criar um programa doutoral dirigido a professores de matemática que pretendam desenvolver competências matemáticas, curriculares, didáticas e tecnológicas que sustentem as suas decisões e práticas docentes.

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