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Entrevistas
Professora UA - Graça Magalhães, mestrado em Criação Artística Contemporânea
“Porque não conseguimos ver, em absoluto, com os olhos do outro, o fascínio do ensino é a discussão”
Conselho de Graça Magalhães aos alunos:
Embora prefira receber do que dar conselhos, se tivesse de escolher um dirigido aos alunos, diria para procurarem “o encontro consigo próprios, que se sintam a si próprios antes de se deixarem conduzir pelos outros”. Graça Magalhães é diretora do Mestrado em Criação Artística Contemporânea, lecionado do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Ensinar artes visuais é, antes de mais, ensinar a ver e a primeira condição é que, cada visão, por muito que aspire a ser explícita e universal, nunca o será integralmente, afirma. Por isso, na sua perspetiva, “o fascínio do ensino é a discussão, a construção da argumentação”.

Graça Magalhães é professora auxiliar no Departamento de Comunicação e Arte da UA onde atualmente é diretora do Mestrado em Criação Artística Contemporânea. É doutorada pela Universidade de Aveiro. Licenciou-se em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (atual FBAUP). De 1987 a 1990, foi bolseira do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Fundação Calouste Gulbenkian em Roma e Florença. De 1990 a 1993, foi bolseira do Ministério da Educação do Japão realizando o mestrado na Tama Bijutsu Daigaku, Tóquio. Em 1995, estagiou no Departamento de Arqueologia e História de Arte da Universidade de Louvain-la-Neuve. De 1993 a 2000, trabalhou para a Universidade Católica Portuguesa, Porto, no projeto de instalação da Escola das Artes. Participou em congressos nacionais e internacionais e em publicações académicas no âmbito de desenho e imagem. Expôs em Portugal, Japão e Coreia do Sul.

Como define um bom professor?  

A pergunta, sendo abrangente, parece-me de difícil resposta, no entanto, diria que o que mais define um bom professor é a generosidade. Desde logo, sinónimo de disponibilidade, largueza,... Numa época (a nossa) onde já não podemos escolher os desejados ‘mestres’ (a proximidade de alguém que nos faria desejar ser como eles) o desígnio do professor será o de estar disponível, suscitar interesses, compatibilizar desejos. Porque me refiro, sobretudo, a um professor que ensina ‘a’ e ‘através’ da prática trata-se, fundamentalmente, de rentabilizar a experiência. Ou seja, se eu ensino algo que conheço (pelo menos, até certo ponto...), estudei e pratico, essa matéria deve ser compatível com aquilo que o aluno mantém como espectável. Em última análise trata-se sempre do mesmo..., de sermos aptos a comunicar, na ‘medida’ justa, harmonizando o discurso, suscitando empatia, ajudando a que se revelem desejos.

O que mais o fascina no ensino?

A plena consciência da passagem do tempo. Cada ano que passa a curiosidade de me sentir mais velha com a chegada de alunos que serão cada vez mais novos. O que implica estar cada vez mais envolvida pela experiência. O ‘barómetro’ – para usar uma expressão muito do nosso tempo...! – é determinado pela quantificação da alegria com que trabalhamos! Um dos factores que fomentam essa alegria é a diferenciação. Tenho sorte porque o que ensino, partindo da ação (do fazer), é determinado pela subjetividade (o ser individual que cada um é). Ensinar a desenhar ou ensinar artes visuais é, antes de mais, ensinar a ver e a primeira condição é que, cada visão, por muito que aspire a ser explícita e universal, nunca o será integralmente. Porque nunca nenhum de nós poderá ver, em absoluto, com os olhos do outro. Por isso, o fascínio do ensino é a discussão, a construção da argumentação. 

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligado?

Acredito que a formação é boa! Creio que vivendo numa época em que os modelos são permanentemente efémeros a qualificação da formação deriva, em boa parte, do entusiasmo com que a pomos em prática. Sempre defendi que a qualificação da formação só poderá ser avaliada muito à posteriori. Ou seja, quando mais tarde vemos os nossos ex-alunos serem bem sucedidos. Isso, sim, é um grande prazer!

Pode traçar um perfil do aluno mais comum no Mestrado em Criação Artística Contemporânea?

Talvez o traço principal seja o de um aluno com uma maturidade um pouco maior do que a média de outros curso de 2º ciclo,  determinado pela escolha que faz ao candidatar-se a um curso que tem o “pressuposto de transdisciplinaridade  (...) alicerçado no conhecimento e reflexão para as artes visuais, (...) onde todas e quaisquer ações expõem uma consequência proporcionando toda uma abordagem consciente da gramática implícita na constituição do discurso da obra de arte contemporânea”.  Penso que, de uma forma geral, o perfil dos alunos do Mestrado em Criação Artística Contemporânea (MCAC) procura a integração dos seus conhecimentos e experiências naquilo que é a arte contemporânea.

Se tivesse que dar um conselho aos seus alunos que conselho daria?

Neste ponto sou levada a pensar que, ainda hoje, mantenho mais o lado da ‘aluna’ do que o da professora..., prefiro mais receber do que dar conselhos! Se tivesse que os dar, diria para procurarem o encontro consigo próprios, que se sintam a si próprios antes de se deixarem conduzir pelos outros. No plano da aprendizagem, que argumentem para que o pensamento consolide a ação e esta se torne cada vez mais forte. 

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Inevitavelmente o que nos marca são as pessoas. Como professora e aluna não recordo nenhuma turma em particular. Quando me lembro dos alunos, não os associo a determinada turma ou ano. Vou mantendo contacto pessoal com alguns ex-alunos e isso é para mim um prazer e uma vaidade. Enfim, é um reconhecimento ser ex-professora! Eu própria mantenho um grande carinho por um ou outro ex-professor.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Talvez a pergunta deva ser colocada aos estudantes. No caso, do mestrado em CAC nós fazemos, anualmente, uma residência artística e aí, talvez devido à proximidade, normalmente, acontecem momentos surpreendentes e curiosos. Sobretudo, desvelando a personalidade de cada um e o reconhecimento que cada um tem do outro.

Traço principal do seu carácter

O traço bom: a curiosidade. O traço mau: a impaciência.

Ocupação preferida nos tempos livres

Depende dos dias. Se for num fim de tarde quente e relaxado uma cerveja em boa companhia! Um prazer sempre presente, o cuidar de plantas (jardim).

O que não dispensa no dia-a-dia

A leitura do jornal. Já foi um vício, hoje é uma atividade mais controlada!

O desejo que ainda está por realizar

O desejo não sei dizer..., é difícil enunciar os desejos. Vontades, tenho muitas, por exemplo, continuar a deslocar-me para ver aquilo que ainda não vi e o que já tendo visto continuo a desejar ver, amigos, lugares, desenho, pinturas, ... Um sonho..., seria plantar um bosque. 

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