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Entrevistas
Antigo aluno UA: Luís Frederico, Engenharia Física
"As competências que adquiri na UA foram fundamentais: saber aprender a aprender, 'connecting the dots'"
Luís Frederico é empresário e dedica-se à promoção da inovação e empreendedorismo
Luis Frederico é licenciado em Engenharia Física pela Universidade de Aveiro. É empreendedor nas áreas de Energias Renováveis, TIC, e inovação. Atualmente, é vice-presidente da Associação de Jovens Empresários de Cabo Verde (AJEC), "project manager" do projeto Smart Cities Cabo Verde, fundador e mentor das iniciativas Kriol Campus, STEAM Bootecamp Campo de Férias Tecnológico que inclui programaçãoe robótica para crianças e jovens. Foi "public speaker" no TEDxPraia e em vários outros fóruns. Considera que a passagem pela UA foi fundamental para o que faz hoje: ensinou-o a aprender a aprender. Não esquece professores e o ambiente no campus de Santiago.

Luís Frederico tem formação profissional em Data Visualization-Tableau, Project Management e experiência em Marketing Digital, Business Analytics. Diz ser fã de eventos como "hackathons" e encontros de "startups".

Quais os motivos que a levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

A UA tinha sido recomendada pelo meu professor de Física no ensino secundário e antigo aluno desta universidade. Ele partilhou que era uma boa universidade para o curso que pretendia fazer: Engenharia Física. Por outro lado, a localização perto do mar e o facto de a UA não ser muito grande também foram importantes.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

O curso de Engenharia Física, não só correspondeu, como superou as minhas expectativas. O mesmo aconteceu à UA, em geral, por ser muito acolhedora e considerada uma das melhores de Portugal. Adorei a camaradagem com os colegas e professores. O saldo foi bem positivo.

O que mais a marcou na Universidade de Aveiro? (algum professor/colega/ episódio?)

Posso contar um dos muitos episódios que vivi. No quarto ano do curso, num pequeno grupo de 8-10 alunos, erámos cinco os que se chamavam Luis… até que um professor estava sempre a brincar que ia fazer uma correlação entre o nome e o curso.

Muitos professores me marcaram na UA, cada um contribuindo, de alguma forma, para a pessoa que sou hoje. O professor Sushil Kumar Mendiratta, meu orientador: aprendi muito com ele, incentivava muito a nossa curiosidade sobre as matérias e era exigente com o trabalho. Os professores Manuel Valente, Luis Cadillon: pelas lições de vida que nos davam durante as aulas e fora das aulas, sempre presentes. Outros professores com grande impacto no profissional que sou hoje, pelos exemplos que me deram, foram os professores Nikolai Andreevitch Sobolev, Maria Celeste da Silva do Carmo e Luis Carlos.

Quanto à vivência académica, refiro a amizade com os colegas, alguns ficaram para a vida. Mesmo estando longe, e cada um seguindo a sua carreira, ainda mantemos contacto. Na semana do enterro, a vivência na cidade era muito boa. A criação da Associação dos Estudantes Cabo-Verdianos de Aveiro e a organização dos Encontros de Estudantes Cabo-Verdianos em Portugal, em que recebíamos estudantes de todos os cantos do Portugal, já na 19ª edição, é uma das coisas mais marcantes. Fico contente por ter feito parte do grupo dinâmico que a criou.

Tinha intenção, antes da formação na UA, de desenvolver a atividade principal atual – empreendedorismo na área das novas tecnologias? A partir de que momento começou a definir as ideias neste capítulo?

Nem imaginava que iria estar a fazer o que eu faço hoje. Antes da formação na UA, não tinha ideia de desenvolver atividades na área de empreendedorismo, queria fazer alguma coisa nas novas tecnologias, mas ainda não tinha ideias concretas.

Eu já trabalhava com o meu pai aos fins de semana. A atividade dele na área da topografia. Tinha-lhe proposto, uma vez, aos 15 anos, criarmos uma empresa. Nessa altura nem sabia muito bem o que era, mas queria fazer coisas interessantes.

Depois, na Universidade, convidaram um investigador português que vivia nos EUA, ele tinha criado uma empresa baseado na sua investigação e a forma como ele abordou o assunto marcou-me muito. Disse que tinha que dar o passo (tornar-se empresário) antes dos 50, caso contrário não o iria fazer nunca mais. Mais interessante foi ver o seu percurso. Acreditem que, no Departamento de Física, não se vê, todos os dias, um professor/empresário, e essa combinação me fascinou muito.

Foi fácil começar a carreira profissional na sua principal área de trabalho (Startup Weekend e Health 2.0 Chapter, na Bélgica, Smart Cities Cabo Verde e Kriol Campus, Cabo Verde)? Refira os principais fatores que contribuíram para a facilidade/dificuldade.

O meu contexto não foi um percurso normal ou linear. Tinha planos para desenvolver a minha experiência profissional num outro país e aprender coisas diferentes, conhecer novos mercados e enfrentar um desafio novo.  Então, assim que terminei o curso, fui para Bélgica. E esta parte não foi fácil, apesar de ser recém-formado em engenharia, fui para um mercado novo competir com os quadros nacionais, no seu próprio terreno. A primeira coisa que fiz foi aprender holandês, o que  acabou por facilitar muito depois na vida profissional, apesar de dominar cinco idiomas (na Bélgica ou BeNeLux - Bélgica/Holanda/Luxemburgo - um engenheiro, para além da sua formação técnica, tem que dominar, pelo menos, três línguas porque o mercado exige isso também. Tive de aproveitar outras competências que eu tinha e comecei a trabalhar mais nas áreas de TIC, depois em multinacionais (como a Siemens, Caterpillar). Como sempre estava fascinado pelas startups e pela inovação, comecei a pesquisar mais sobre o tema. Até que um dia encontrei a iniciativa da Startup Weekend, que não havia em Gent (cidade onde eu vivia) nem na região da Flandres. O mais perto era em França, Holanda ou Alemanha. Decidi ir até França para participar num dos eventos da Startup Weekend e tudo começou nesta nova fase. Criei uma equipa de trabalho, com jovens muito dinâmicos, envolvida na organização do TEDxGhent e organizamos o primeiro Startup Weekend na região de Flandres. Isso abriu as portas para outras colaborações com outras empresas e organizações na área da inovação. Permitiu-me conhecer empreendedores de renome na Bélgica e outros profissionais também.  Também me permitiu adquirir competências a nível de liderança, gestão de projetos, comunicação, negociação, que são muito importantes hoje em dia na minha vida profissional.

Hoje estou de volta a Africa a trabalhar em dois projetos importantes. Um deles é o Smart City Cabo Verde, onde estamos a desenvolver um projeto inovador em Cabo Verde sobre urbanizações inteligentes usando todas as soluções possíveis ( www.smartcitycv.com). Dedico também muito do meu tempo ao projeto Kriol Campus ( www.kriolcampus.com) uma iniciativa da minha empresa KMINDZ, agência digital onde as crianças dos 7-17 anos aprendem STEM através de programação, robótica, design, criação de jogos e aplicativos móveis. Já vamos em quatro edições e estamos a expandir.

Como descreve o seu dia a dia profissional?

O meu dia a dia é muito variado, apesar de planear a semana, há sempre muitas surpresas. Dependendo dos projetos que estou trabalhando, desde marketing digital, a outros projetos de inovação.  Normalmente, tento começar bem cedo com atividade física para me preparar, porque depois surgem as reuniões, sessões de trabalho, dar orientação às equipas, coaching... Quando preciso de fazer trabalho que exige maior concentração já tenho que trabalhar sem interrupções e isto só é possível num ambiente isolado e sem distrações. Para o empreendedor, como costumo dizer, não há feriados ou fim-de-semana.

O que mais o fascina nessas suas atuais atividades?

É a variedade de pessoas com quem interajo e de ideias e projetos que surgem. Como consultor e project manager, é muito gratificante porque sentes muita ambição dos jovens quando estás a interagir com eles, fazendo coaching ao mesmo tempo.

Como empreendedor, quer deixar um conselho aos jovens recém-formados que pretendam seguir esse percurso?

A sua base técnica precisa ser forte. Mas não acredite apenas nas competências técnicas. Para se tornar um líder nos negócios é preciso desenvolver  soft skills. Tem que perceber como liderar mudanças, gerir o seu tempo, as tuas emoções, influenciar, negociar, como alinhar pessoas à volta de um objetivo comum. Aprender a comunicar bem em público e desenvolver relações fortes. Acima de tudo, acredite e mantenha a perseverança.

Vi uma apresentação sua no TEDxPRAIA. Falava do salto que África tem de dar para acompanhar outros continentes em termos de iniciativa, novas tecnologias e educação… Quer deixar, resumidamente, algumas dicas para que isso seja possível?

O meu TED talk no TEDxPRAIA se referia a educação STEAM e nas competências do século XXI e a possibilidade de fazer um “leapfrogging” no continente. Mais de 50% da população da África Subsaariana tem menos de 25 anos de idade e todos os anos, durante a próxima década, esperamos que 11 milhões de jovens africanos ingressem no mercado de trabalho. Este dividendo demográfico oferece uma tremenda oportunidade para a África construir uma base de capital humano muito valiosa que servirá de motor para a transformação económica do nosso continente. Para ser claro: representa um “dividendo” apenas se esses jovens forem bem formados nas áreas STEAM (Science, Technology, Engineering, ARTS, Mathematics) e empregáveis.

Atualmente, em África, a maior parte do trabalho STEAM é outsourced ou terceirizado para multinacionais da China, Índia, UE e EUA. África precisará de uma nova geração de engenheiros, cientistas, programadores, contabilistas, auditores, criativos,  designers, professores de matemática e assim por diante. Todos esses trabalhos exigem um mínimo de competências em STEAM.

Com os projetos que eu faço como Kriol Campus, tento criar condições para esses jovens, desenvolvendo aqueles com potencial para serem líderes e empreendedores, não apenas de pequenas empresas, mas de grandes organizações, empreendimentos em grande escala.

Penso que a única maneira de sair da pobreza para a prosperidade, criando  empregos, é através do empreendedorismo, e não da caridade. Para desenvolver empreendedorismo em qualquer lugar são preciso de três coisas: 1. Ideias; 2. Pessoas que executam a ideia – Capital Humano; 3. Capital Financeiro.

Nos países desenvolvidos, há muitas pessoas instruídas que podem executar as ideias e há capital ou pessoas que acreditam e investem nestas ideias. O que é “escasso” são ideias novas, porque muito já foi feito. Em África, a mistura dessas três coisas é diferente: há muitas ideias e, por incrível que pareça, há capital em África. O que é escasso são as pessoas (estou a falar em quantidade) que possam executar em escala e à velocidade que é exigido hoje. Isso, acredito, pode e vai criar centenas e até milhares de empregos nas áreas referidas.

Tem alguma outra atividade paralela que queira referir? Como descomprime do stresse do dia a dia?

Tento, sempre que posso, correr e treinar para descontrair. O que mais adoro fazer mesmo é caminhar.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades? O percurso na UA teve algum efeito no seu caminho profissional/atividades paralelas que exerce? De que maneira?

Acho que as competências que adquiri na UA que foram fundamentais. Capacidade de aprender a aprender. O que eu chamo “Connecting the dots” para ligar diferentes temas, das mais diversas áreas e conseguir extrair informações, analisar problemas complexos. Capacidade de pensar de forma holística sobre os problemas, e desafios. Principalmente, ter a consciência que existe um método ou um caminho para chegar a uma ou várias soluções. Esta base científica que recebi na UA tem sido muito valiosa nas diversas áreas que atuo.

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