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Entrevistas
Professor UA: António Caetano, Departamento de Matemática
Sempre à procura de novas abordagens no ensino para uma aprendizagem mais eficaz
A procura incessante de novas metodologias de ensino é um dos temas que move António Caetano, professor do DMat
Escrever um livro de referência na sua área de investigação, a Análise Funcional, mais especificamente Espaços de Funções, com uma componente de formação, é um desejo a longo prazo mas que vai perseguindo sempre que o dia a dia o permite. Para António Caetano, professor do Departamento de Matemática da Universidade de Aveiro, há um outro objetivo que o move e o obriga a despender algum tempo: implementar novas abordagens ao ensino para tornar a aprendizagem mais eficaz.

Licenciado em Matemática pela Universidade de Coimbra, doutorado na mesma área pela Universidade de Sussex (Reino Unido), obteve a agregação em Matemática já na Universidade de Aveiro, onde chegou em 1993 e onde é Professor Catedrático desde 2013. Nos últimos anos, tem dado aulas na área da Análise Matemática a cursos de ciências e engenharias e, mais esporadicamente, ao curso de matemática, tendo nesse âmbito construído materiais de apoio à aprendizagem com recurso a novas tecnologias, como são exemplo http://amiii.wikidot.com/http://ami.wikidot.com/http://calculo.wikidot.com/. No âmbito da chamada Análise Funcional, onde, em particular, estuda tópicos relacionados com Espaços de Funções publica regularmente artigos em revistas de circulação internacional. É membro da Unidade de Investigação e Desenvolvimento CIDMA (http://cidma.mat.ua.pt), da qual foi, aliás, vice-coordenador durante os últimos anos. Ainda no âmbito do CIDMA mantém também a componente do projeto MATEAS (http://mateas.wikidot.com/) dedicada à divulgação de novas abordagens ao ensino e à avaliação da matemática no Ensino Superior.

descrição para leitores de ecrã
António Caetano prepara um livro sobre a Análise Funcional, mais especificamente Espaços de Funções.

Como define um bom professor?

Penso que haverá várias definições possíveis, consoante os alunos. Arrisco talvez a mais ambiciosa de todas: aquele que consegue levar os alunos a interessarem-se pela matéria a estudar.

O que mais o fascina no ensino?

O desafio de conseguir passar uma ideia, principalmente quando ela não é trivial.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligado?

Pelo que está nos programas, considero-a muito boa. Infelizmente sabemos que aquilo que o professor "dá" não é muitas vezes aquilo que o aluno "recebe" e acho que ainda há caminho a percorrer para conseguir ligar melhor as duas partes. Mas isto não é específico dos cursos em causa nem desta universidade.

É possível traçar um perfil do aluno dos cursos onde leciona? Qual, ou quais, serão esses perfis?

Tenho ensinado a alunos do 1.º ano, embora este ano letivo tenha lecionado a cursos diferentes dos que estava habituado. Nesse contexto é fácil apanhar alunos que estão "em trânsito" (à espera de uma oportunidade para mudarem de curso), alunos que já estiveram no mercado de trabalho e agora regressaram à universidade (com vontade de estudar mas reconhecendo muitas vezes que já esqueceram muitas coisas básicas e que a recuperação vai ser difícil) e alunos que estão em anos mais avançados com aquela unidade curricular (UC) em atraso. Os perfis do grosso dos alunos - os que estão a frequentar a UC. pela primeira vez - ainda assim variam com os cursos, e provavelmente com a qualidade da formação anteriormente obtida na área da matemática. Mas digamos que há ainda um número considerável de alunos que parece interessar-se natural e genuinamente pela matéria a aprender (mesmo nos casos em que a matemática é apenas uma área subsidiária dos seus cursos). Infelizmente muitos trazem deficiências de aprendizagem (vulgo falta de bases) dos ensinos básico e secundário e estão ainda a aprender a lidar com o volume de trabalho que lhes é exigido na universidade.

Se quisesse dar um conselho aos seus alunos, que conselho daria?

Alguns dos conselhos que tenho dado e continuarei a dar têm a ver com o que acabei de referir: para lidarem com o volume de trabalho que lhes é exigido na universidade, os alunos devem estudar mais amiúde, não deixar acumular matéria por estudar e acompanhar todas as aulas. Infelizmente muitos ignoram estes conselhos, provavelmente porque vêm habituados dos ensinos básico e secundário a terem sucesso sem necessidade de muito esforço, e pensam que conseguem fazer o mesmo brilharete na universidade.

Houve alguma turma que mais o tivesse marcado? Porquê?

Embora tenha havido um ou outro caso mais recentemente, a mais marcante penso que terá sido há muitos anos, quando eu era um jovem assistente em Coimbra. Era uma turma prática dos primeiros anos, creio, mas calhou o número de alunos ser tão pequeno (creio que seriam pouco mais de meia dúzia) que eu decidi pô-los a resolver os exercícios individualmente, cada um no seu lugar, enquanto eu ia circulando para esclarecer dúvidas e ajudar na resolução consoante fosse necessário. Apesar de as aulas se designarem por práticas, com turmas de tamanho regular (30 ou mais alunos) geralmente passava-se um tempo considerável no quadro a resolver os exercícios, após algum tempo dado para os alunos os tentarem resolver por eles próprios no seu lugar. Aquela turma exigiu-me mais trabalho do que uma turma regular, mas foi bastante gratificante. Mas penso que também tive a sorte de ser constituída por vários alunos bem preparados.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Passou-se numa turma que talvez seja a segunda que mais me marcou. Desta vez já foi em Aveiro, no ano letivo 2010/11. Apesar de estarem inscritos para cima de 40 alunos na turma, desde o início que apareceram sempre pouco mais de 20. De modo a conseguir que os alunos se debruçassem mais do que o habitual sobre os exercícios a resolver, a certa altura organizei-os em grupos, de modo a que pudessem discutir uns com os outros em cada grupo sobre o que havia a fazer em cada exercício, permitindo-me circular entre grupos num trabalho parecido com o que descrevi anteriormente (embora aqui, dada a dimensão da turma, as minhas intervenções tivessem de ser para cada grupo à vez, e não individualmente).

Não me lembro de haver alunos excecionais na turma, mas eram em geral alunos bastante esforçados. Mas lembro-me de um aluno cujo comportamento desafiava a lógica que eu tinha como certa: tinha bastante falta de bases, mas conseguia perceber as linhas gerais da matéria que eu transmitia, de tal modo que era dos alunos mais interventivos, colocando questões pertinentes sobre a matéria; no entanto, na hora de se resolverem exercícios em grupo tinham que ser os colegas a executar as suas ideias, pois ele não tinha capacidade técnica para o fazer!

Traço principal do seu carácter

Ser minucioso. Geralmente deteto erros que passam despercebidos à maior parte das pessoas (embora, com a idade, também comece a cometer mais erros). Tem como consequência gastar porventura mais tempo do que devia a fazer certas tarefas, como por exemplo a escrever uma simples mensagem de e-mail. Mas tem as suas vantagens na minha área de investigação, onde eventuais erros muitas vezes só saltam à vista após algum trabalho minucioso.

Ocupação preferida nos tempos livres

Quais tempos livres?

Devido ao traço de carácter acima identificado, é normal o trabalho entrar pelos tempos livres adentro. Ainda assim, durante vários anos e até há pouco tempo reservava sempre algum tempo na semana para praticar dança. Hoje em dia tento, pelo menos, fazer caminhadas com mais frequência do que já fazia. E nas férias de verão tento pôr alguma leitura (não relacionada com a atividade profissional) em dia, embora também não dispense fazer nessa altura duas a três semanas de praia.

O que não dispensa no dia-a-dia

Verificar o e-mail (por razões profissionais; nas férias passo bem sem isso).

O desejo que ainda está por realizar

Escrever um livro de referência na minha área de investigação, com uma componente de formação. Existe um projeto a andar nesse sentido, em parceria com um colega, mas o tempo disponível para esse projeto tem sido pouco. Em parte, porque também nos anos mais recentes tenho gasto algum tempo a implementar novas abordagens ao ensino, correndo atrás de um outro desejo: o de tornar a aprendizagem mais eficaz.

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