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Opinião
Luís Seabra Lopes, Professor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática e investigador no Instituto de Engenharia Eletrónica e Telemática de Aveiro (IEETA)
Inteligência Artificial: um passado divertido, um presente útil, um futuro em debate
Luís Seabra Lopes, Professor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática e investigador no Instituto de Engenharia Eletrónica e Telemática de Aveiro (IEETA)
A Inteligência Artificial (IA) está na moda. Aparece regularmente nas notícias e, cada vez mais, em peças publicitárias. Claramente, é um chavão que vende. Um número crescente de empresas internacionais aposta nas técnicas da inteligência artificial para desenvolver os mais variados produtos e serviços. Entretanto, o cidadão comum, embora possa ter uma intuição sobre o assunto, não faz ideia do que se trata exatamente quando se fala de inteligência artificial.

A inteligência artificial é uma área da engenharia que pretende desenvolver “artefactos inteligentes”, isto é, artefactos com capacidade de percecionar o seu ambiente e escolher e executar ações nesse ambiente. Nos primeiros tempos da IA considerava-se que estes artefactos, para serem inteligentes, tinham que exibir um comportamento semelhante ao do ser humano em todas as atividades cognitivas. A partir de meados da década de 1980, a ênfase passou a estar no desenvolvimento de sistemas (robôs, programas de computador, etc.) capazes de realizar determinadas tarefas de forma autónoma, adaptável, eficiente e robusta, tornando-se ferramentas úteis ao ser humano.

Entretanto, a ficção científica tem continuado a explorar a ideia de máquinas tão inteligentes como o ser humano ou, até, máquinas cuja inteligência excede largamente a do ser humano. E, obviamente, o desenvolvimento de um robô com aparência e comportamento semelhantes aos humanos é publicidade garantida para qualquer empresa ou laboratório. Pode argumentar-se, por outro lado, que as máquinas com aparência e comportamento semelhantes ao do ser humano serão mais compatíveis com o ser humano e, por isso, mais “usáveis”. Independentemente destas considerações, a biologia e, em particular, o ser humano sempre serviram e continuam a servir de fonte de inspiração para o desenvolvimento de novas técnicas de inteligência artificial.

Por todos estes vários fatores, a comparação da inteligência artificial com o ser humano está novamente em destaque.

Quando terminei a licenciatura fui desafiado a iniciar doutoramento na área dos robôs com capacidade de aprendizagem. Não hesitei em aceitar o desafio, e lembro-me que um dos fatores decisivos foi ter achado divertida esta ideia de desenvolver máquinas que aprendem. Passada uma década, o envolvimento em projetos na área do futebol robótico, nomeadamente para participação no RoboCup, teve também uma componente lúdica evidente. Era na altura coordenador de uma incipiente Atividade Transversal em Robótica Inteligente, no IEETA/UA, e recordo que um dos meus objetivos foi, através da componente lúdica do futebol robótico, atrair colegas de outras áreas para a robótica inteligente. A verdade é que resultou!

Entretanto, a IA amadureceu e estamos já a colher os frutos. A utilização de ferramentas de IA passou a ser um fenómeno do quotidiano: busca de informação, tradução automática, assistentes virtuais, aspiradores autónomos, telemóveis que reconhecem objetos, carros já com algum grau de autonomia, etc. Reconhece-se que os sistemas atuais estão ainda muito centrados em classes restritas de tarefas. A investigação prossegue com projetos mais ambiciosos, em que se procura integrar diferentes funcionalidades de forma a suportar um leque mais variado de tarefas. A UA tem estado envolvida em alguns projetos desse tipo, nomeadamente no âmbito do 7.º Programa Quadro da União Europeia. Por exemplo, o projeto RACE: Robustness by Autonomous Competence Enhancement integrou funcionalidades de perceção visual, representação do conhecimento, inferência, planeamento, e aprendizagem num robô semi-humanoide, um PR2, que servia à mesa num restaurante. Mais recentemente, o projeto EuRoC desenvolveu funcionalidades que permitem aumentar a autonomia, reconfigurabilidade e tolerância a falhas em tarefas industriais.

A IA suscita atualmente expectativas elevadas relativamente ao impacto que poderá ter na resolução de vários problemas. Mas também surgem sinais de perigo. Enquanto escrevo este artigo, estoura o escândalo da utilização ilícita dos dados de milhões de utilizadores do Facebook para manipular a opinião pública. Pensa-se que as técnicas de IA terão sido cruciais para a eficácia dessa manipulação. Mas a IA também pode ser usada para lidar com alguns dos aspetos negativos das redes sociais atuais. Martin Zuckerberg, prestando esclarecimentos no Congresso Americano, anuncia que irá desenvolver, num horizonte de cinco a dez anos, novas ferramentas de IA para detetar o “discurso do ódio” no Facebook.

Ninguém consegue prever até onde pode chegar a IA. Atendendo à evolução exponencial das tecnologias da informação, admitem alguns que em poucas décadas serão desenvolvidos sistemas com capacidades cognitivas equiparadas ou mesmo superiores às do ser humano. No entanto, não basta aumentar a memória e a velocidade de processamento… Seja como for, é melhor a sociedade preparar-se para o que aí vem. E, de facto, a União Europeia até já considera atribuir personalidade jurídica aos robôs inteligentes, estabelecendo os seus direitos e responsabilidades. Aliás, a Arábia Saudita já em 2016 atribuiu o estatuto de cidadão ao conhecido robô Sophia, iniciativa essencialmente publicitária que em nada contribuiu para o esclarecimento sobre a IA atual. A verdade é que, no estado atual da tecnologia, passar as responsabilidades para os robôs inteligentes servirá, quando muito, para isentar de responsabilidades os fabricantes.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 29 da revista Linhas.

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