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Entrevistas
Antigo Aluno UA: António Rodrigues, professor na Gafanha da Nazaré e coordenador do Gafe Bike Lab
“A universidade é uma escola de vida”
António Rodrigues coordena o Gafe Bike Lab, na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, Ílhavo
Licenciado em Ensino de Física e Química na Universidade de Aveiro (UA), António Rodrigues é docente da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré desde 1991. Nessa década, começou a usar a bicicleta como meio de transporte para a sua escola. Não por acaso, hoje é coordenador do Gafe Bike Lab que inclui uma oficina para os alunos repararem e alterarem as suas bicicletas, espaço de trabalho e partilha pelo interesse em torno da bicicleta. O projeto faz todo o sentido numa escola onde cerca de 70 por cento dos alunos usa a bicicleta no seu dia a dia, caso único a nível nacional.

Quais os motivos que o levaram a estudar na UA?

Um curso com grande saída profissional, pois havia na altura uma enorme falta de professores no ensino. Também o facto de ser de curta duração (!). Este, desmentido à chegada à Universidade de Aveiro, onde descobri – para meu espanto… – que o curso de três anos não existia…

Vir estudar para uma cidade no litoral também agradou. Vivia então em Vidago, Chaves.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a UA?

A universidade sim, bem como a cidade. O meu curso não foi um mar de rosas, não fui um aluno brilhante, longe disso! “Estudei” mais na cidade do que na universidade... A vida também tem destas coisas.

O que mais o marcou na UA? (algum professor/colega/ episódio?)

A ambiente era muito bom. A universidade tinha umas poucas centenas de alunos, portanto conhecíamo-nos todos. A cidade estava a começar a habituar-se a ter uma população estudantil, era portanto um ambiente muito interessante.

Na UA havia apenas dois blocos e os famosos galinheiros

Uma vez, fizemos uma greve e apareceu a notícia no JN e a foto que surgiu na capa era não a da Universidade de Aveiro mas sim do Hospital de Aveiro!!!???

Fazíamos muito vida de cafés! O café Palácio, o Convívio e o Gato Preto…

Na universidade também se fazem amigos para toda a vida e eu também colecionei alguns que ainda hoje conservo.

Sempre soube qual era atividade principal (professor do ensino secundário) que queria realizar? A partir de que momento começou a definir as ideias neste capítulo?

No início do secundário queria ser engenheiro civil, depois mudei de opinião e segui o ensino. Reconheço hoje que os motivos foram basicamente o ser um curso com saída profissional e vir para uma cidade que, de alguma maneira, me poderia abrir outros horizontes. Houve uma altura em que pensei que poderia mudar para Engenharia Cerâmica e do Vidro, mas não isso não chegou a acontecer! Gosto do ensino e de ensinar.

Foi fácil tornar-se professor efetivo na Escola da Gafanha? Refira os principais fatores que contribuiu para essa facilidade/dificuldade.

Era minha ideia ficar num recanto pequeno para o interior onde pudesse chegar à cidade de Aveiro em meia hora, para cá vir dar uma volta e ver o mar…

Entretanto, conheci a minha mulher que é da Gafanha da Nazaré e esse meu plano foi por água abaixo.

Foi fácil chegar a professor efectivo. Bastaram três anos. Digo hoje aos meus alunos que, no meu tempo, não era preciso estudar muito, porque havia um emprego seguro à espera, para eles verem que têm que trabalhar hoje bastante mais. Digo-lhes, em contrapartida, que enquanto estudante não tínhamos à nossa disposição toda a panóplia de que eles dispõem hoje: bens de consumo, internet, telemóveis, acesso a quase tudo e mais dinheiro, que nós não tínhamos…

Como descreve o seu dia-a-dia profissional / a sua atividade profissional atual?

Antes da 8h30 já estou na escola. Vou sempre de bicicleta, a não ser que chova. Moro perto também. Há 26 anos que o faço. Durante 10 anos fui o único, agora na escola somos 8 professores a deslocarmo-nos de bicicleta.

Passo lá o dia. Sou professor de Física e Química, dou aulas, coordeno o projecto das bicicletas onde há sempre que fazer, apoio também a nível técnico organização de palestras, debates, apresentações ou espectáculos na escola. Tenho, felizmente, alunos que ajudam. Só tenho a tarde de sexta-feira livre.

Em casa, à noite, o trabalho continua, por vezes noite fora. Há, obviamente, muito trabalho organizativo e burocrático.

Cada vez que ouço dizer que os computadores vieram facilitar o trabalho do homem desminto: vieram dificultá-lo, formatá-lo, burocratizá-lo. Somos quase os novos escravos…

Cada vez mais velho e cada vez me sobra menos tempo. A minha mulher diz que antes tínhamos muito mais tempo para nós que agora e é verdade.

Como surgiu a ideia de criar a oficina e espaço de formação na escola?

Na escola, bem como na cidade, há uma tradição na utilização da bicicleta como meio de transporte. No Censos de 2011, a Gafanha da Nazaré é a freguesia do país com maior número de utilizadores diários da bicicleta (1201). Cerca de 70% usam a bicicleta como meio de transporte diário para a escola. Faz parte, digamos, do ADN da Gafanha da Nazaré.

Ultimamente, de modo estranho, diminuiu ligeiramente o número de alunos que usa a bicicleta no transporte diário para a escola. Isto tem várias motivos. Os pais temem que as vias não sejam seguras para os seus filhos andarem de bicicletas, preferem trazê-los de carro.

A ideia primeira do projecto tem também a ver com a segurança, daí o termos criado a oficina. Por outro lado pretendemos fazer da bicicleta um símbolo da escola e da comunidade, numa cidade que possui poucas referências, e, há ainda a questão da ambiental e da partilha / culto deste meio de locomoção. Hoje, ao contrário do que acontecia há uns anos, os alunos gostam de personalizar a sua bicicleta, compram os componentes e montam e nós podemos ajudar nesse processo.

Aproveitamos este espaço para abordar o tema da segurança. Desde cumprir regras, até ter a bicicleta em condições de locomoção e de visibilidade. Oferecemos, no ano passado, 550 leds de iluminação aos alunos e, este ano, braçadeiras refletoras.

Finalmente, os alunos adquirem competências neste tipo de trabalho. Fabricámos este ano lectivo já 8 bicicletas, construídas a partir de sucatas e materiais oferecidos.

O que mais o fascina nas suas atuais atividades, como professor e coordenador da oficina e espaço de formação?

Ambos. Acho que até são um bom complemento uma da outra. É talvez por isso que ao longo dos tempos me tenho ligado a atividades de carácter mais lúdico na escola. Adapto uma frase do médico e professor Abel Salazar: “Um professor que é só professor nem professor é!”

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades? O percurso na UA teve algum efeito no seu caminho profissional? De que maneira?

A universidade é uma escola de vida. Tudo o que fizemos para atingir as nossas metas nos deu as ferramentas de que dispomos para intervir no presente. Como o mundo actual é dominado pela tecnologia e pela informação, muito do que aprendemos já ficou para trás, mas também aprendemos que estamos sempre a aprender, portanto, tudo valeu a pena…

Como promover mais ainda o uso da bicicleta na região em Portugal e diminuir o consumo de combustíveis fósseis e, desse modo, a poluição?

Vivemos numa sociedade em que as vias públicas foram construídas e pensadas para os automóveis. A maioria da população vive nas cidades onde a poluição ambiental é uma forma de vida. As bicicletas podem e devem alterar este estado de coisas por responderem a este desafio e alterar esta forma de vida, promovendo boas práticas a favor do ambiente e da saúde, fazendo com que os espaços verdes façam parte também da paisagem e da vida das cidades.

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