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Entrevistas
Professor UA: Susana Sardo, professora do Departamento de Comunicação e Arte (DeCA)
“Desobedientes e irreverentes, sim, mas que o façam com argumentos, com modéstia e com paixão”
Susana Sardo, professora do Departamento de Comunicação e Arte (DeCA)
Entende que um bom professor, ou professora, “é aquele ou aquela que duvida do que pensa que sabe, que aprende com os alunos e as alunas e não desiste de nenhum, nem de nenhuma.” Susana Sardo, professora na área de Etnomusicologia no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA) da Universidade de Aveiro (UA), estuda o mundo nas suas relações entre música e sociedade, sobretudo no que à vertente lusófona diz respeito. No ensino fascina-a “a liberdade que a escola nos dá de poder interpelar o próprio conhecimento, sempre em diálogo e em interlocução com os nossos contemporâneos e com aqueles que o fizeram antes de nós.”

Susana Sardo é ainda professora visitante na Cátedra Cunha Rivara da Universidade de Goa. Desde 1987, tem desenvolvido trabalho de investigação sobre Goa num quadro de pesquisa mais vasto associado à música e lusofonia. Os seus interesses de investigação incluem, para além desses, música nas comunidades diaspóricas, música e pós-colonialismo, música no território português, onde tem igualmente desenvolvido trabalho de investigação sobre processos de folclorização e sobre música e pós-ditadura. Desde 2011, tem-se dedicado também à pesquisa sobre música e memória social a partir dos arquivos de som e da aplicação de práticas de investigação partilhada. É autora do livro Guerras de Jasmim e Mogarim: Música, Identidade e Emoções em Goa (Leya 2011), que foi Prémio Cultura da Sociedade de Geografia de Lisboa, e coordenadora da coleção “Viagem dos Sons” (Tradisom 1998), entre outras publicações discográficas e artigos. É, desde 2007, coordenadora do polo da UA do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança.

Como define um/a bom/boa professor/a?  

Um bom professor ou uma boa professora é aquele ou aquela que duvida do que pensa que sabe, que aprende com os alunos e as alunas e não desiste de nenhum, nem de nenhuma.

O que mais a fascina no ensino?

A possibilidade de estar sempre a aprender e a estudar e de o fazer com prazer e, em conjunto com colegas, estudantes e demais pessoas, sem as quais a escola não poderia existir. Fascina-me poder olhar para o complexo da vida e perceber como podemos estabelecer um contínuo entre ele e a sala de aula. E fascina-me, sobretudo, a liberdade que a escola nos dá de poder interpelar o próprio conhecimento, sempre em diálogo e em interlocução com os nossos contemporâneos e com aqueles que o fizeram antes de nós. Este é, em minha opinião, o caminho mais bonito para o desenvolvimento do sentido crítico.

Como qualifica a formação que é dada aos/às estudantes nos cursos a que está ligada?

Muitíssimo boa. A formação em música na Universidade de Aveiro, seja ao nível da licenciatura, do mestrado ou do doutoramento, é de superior qualidade quer no quadro nacional quer no âmbito internacional. Falta-lhe apenas algum ecletismo que só adquire quando chegamos à investigação e onde podemos estudar todas as músicas. Porém, no âmbito da formação, a UA apenas a oferece em dois domínios: o da chamada música erudita (mais forte) e o do jazz. Falta-nos, portanto, ainda muito para que a nossa oferta formativa em “música” não seja excludente.

Pode traçar um perfil do aluno mais comum nos cursos onde leciona?

Não existe um perfil comum porque ele varia bastante em função do ciclo de estudos.  Enquanto na licenciatura os alunos têm uma enorme afinidade com a prática da música (erudita sobretudo), no mestrado já encontramos alguma diversidade que se distribui também pelo jazz e no doutoramento encontramos interesses altamente diversificados desde a composição, a performance, a educação e a etnomusicologia. No entanto, e em todos os casos, todos os alunos têm em comum a afeição e o interesse pela música.

Se tivesse que dar um conselho aos seus alunos que conselho daria?

O meu conselho é que sejam desobedientes e irreverentes em relação às instituições e ao conhecimento. Mas que o façam com argumentos, com modéstia e com paixão. Se não for assim não há confronto nem curiosidade e, sem eles, não há crescimento, aprendizagem e desenvolvimento do sentido crítico.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Eu prefiro olhar para as turmas como um conjunto de individuais e não como uma unidade coletiva, embora esses individuais dinamizem um coletivo e sozinhos tenham pouca possibilidade de crescer ou de se transformar. Claro que, por vezes, há grupos que geram sinergias particulares e redes de solidariedade que acabam por impulsionar o grupo no sentido da excelência. Mas essa excelência não tem que ser inevitavelmente traduzida em resultados escolares, ou académicos, medidos em notas. Ela pode ser entendida também por dinâmicas humanas de enorme valor e cujos resultados acabam por ser extra-ordinários conduzindo, também, a excelentes resultados académicos. Nesse sentido, lembro com saudade uma turma de licenciatura em Ensino da Música do ano de 2001 (creio) constituída por alunos com interesses bastante divergentes, mas onde reinava a curiosidade, o interesse pelas matérias e pelo conhecimento, a solidariedade e um enorme sentido de humor! Lembro-me de ter ouvido um dos alunos da turma que, por acaso, é hoje docente da UA, pouco tempo antes do seu exame final, dizer para os outros: “Ainda não acabei o curso e já estou com saudades disto!”. Era um prazer enorme trabalhar com este grupo.

Lembro ainda uma turma de mestrado quase maioritariamente formada por alunos provenientes de diferentes lugares do Brasil. Com esta turma aprendi que o sonho não é impossível. Os alunos tinham uma preparação académica muito diferente da que estamos habituados. Eram excelentes músicos, mas com uma dificuldade extrema de ler, interpretar textos – mesmo em língua portuguesa – e de escrever. Traziam a ilusão de que as economias que tinham feito ao longos dos anos lhes permitiriam viver em Portugal durante os dois anos de mestrado. Mas não era assim. Estes alunos tinham, portanto, muitas dificuldades e de ordens muito diversas. Mas tinham um sonho maior do que qualquer dificuldade: o de fazer um mestrado em música. E isso fez deles a turma que mais vi “crescer” ao longo de 29 anos de docência universitária. Todos os dias eram os primeiros a chegar ao Departamento de Comunicação e Arte (DeCA) – sempre antes das 8h30 da manhã – e os últimos a sair. Estudavam em grupo, amparavam-se uns aos outros de forma altamente solidária e, no dia em que fizeram o seu exame de qualificação para avaliar o seu projeto de dissertação, chegaram cedíssimo, vestidos com a sua roupa de concerto e quase todos em jejum porque simplesmente não conseguiam comer. Sabiam que daquele exame, onde iriam defender oralmente o seu projeto, dependeria muita coisa. A dignidade e seriedade com que encararam aquele momento foi, paradoxalmente, perturbadora. Ela fez-me perceber o modo leviano como banalizamos as nossas rotinas académicas e o quanto estamos vinculados a paradigmas de luxo.  Habituados que estamos ao privilégio do ensino obrigatório e do direito à educação, acabamos por trivializar o que, para muitos, é um sonho muito difícil de materializar. Esta turma guardo-a nas minhas memórias e nas minhas emoções. Para mim, foi uma lição de vida.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Recebi a turma de 2001 (de que falo em cima) logo a seguir à minha dispensa para doutoramento. Era o 4º ano da licenciatura em ensino da música, um grupo bastante exigente, e eu tinha estado 3 anos sem dar aulas, a escrever e a ler muito sobre a minha área de especialidade. Tinha a sensação que sabia muito sobre a Índia, Goa, história da expansão portuguesa, pós-colonialismo.... aplicado à música, mas muito pouco sobre tudo o resto. No final da primeira aula, e após uma produtiva e vibrante discussão sobre música, educação e modos de ser musical - onde até se falou de V.S Naipul em The Mimetic Man - ouvi um dos alunos comentar para outro quando saía da sala “Fiquei na mesma!”. Nesse momento o chão fugiu-me por debaixo dos pés. Se eu estava insegura antes da aula, fiquei completamente desorientada após aquele comentário. Inicialmente, achei que o melhor era repensar o meu lugar na academia, tentar encontrar outras formas de subsistência, voltar a dar aulas privadas de piano... Mas, depois de uma semana tormentosa, resolvi que o melhor era mesmo tentar encontrar formas de superar esta angústia e dedicar-me ainda mais às aulas, à clarificação das matérias, à produção de materiais didáticos mais cuidados... enfim. Todo o semestre decorreu envolto neste sentimento ensombrado de que as minhas aulas não serviam para nada! No final do semestre fiz o que sempre fazia quando ainda não havia SGQ: passei aos alunos um inquérito anónimo sobre as aulas de forma a discutir com eles eventuais formas de melhoria das mesmas. Surpreendentemente, os inquéritos não podiam ser mais elogiosos e referiam em vários casos, justamente a primeira aula como um momento especial. Nessa altura interpelei diretamente o Nuno que aparentemente estava de acordo com esse veredicto: “Como pode estar de acordo se após a primeira aula ficou na mesma?” Afinal, o seu comentário tinha sido sobre outro assunto. E ele até se lembrava qual.

No que diz respeito à autoestima, este terá sido o semestre mais instável da minha carreira como professora. Mas foi seguramente um dos mais desafiantes.

descrição para leitores de ecrã
Parte da turma de doutoramento em Música e investigadores do INET-md: Ana Flávia Miguel, Helena Ferreira, José Santos, Pedro Baptista, Eduardo Falcão, Daniel Escudeiro, Tiago Lestre, Ana Margarida Cardoso, Elielson Gomes, José Baptista Júnior, Nery Borges, Pedro Berardinelli, Clarissa Foletto, Alfonso Benetti, Gilvano Dalagna (Foto de Vitor Vieira, 2/03/2018).

Traço principal do seu carácter

Acho que isto não posso ser eu a definir. Ninguém é bom juiz em causa própria!

Ocupação preferida nos tempos livres

Caminhar, observar os lugares e ler.

O que não dispensa no dia-a-dia

Dar mimo às minhas filhas!

O desejo que ainda está por realizar

Viajar no tempo e aterrar em Paris na década de 1920… Acho que a vida tem sido bastante generosa comigo; por isso, todos os meus desejos vão no sentido da grande revolução de ideias e da construção de um mundo mais justo, mais pacífico e onde seja possível eliminar todas as abissalidades sociais. Infelizmente creio que este será um desejo irrealizável.

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