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Entrevistas
Antigo Aluno UA - João Roque, licenciado em Ensino de Biologia e Geologia
Entre o prazer da escrita, a participação cívica e a docência na Gafanha da Nazaré
João Roque é docente do ensino secundário, autarca e autor premiado de livros
Professor do ensino secundário na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, João Alberto Roque divide o seu tempo entre a docência, que é a sua atividade principal, a escrita, a sua participação cívica e a política local. Autor premiado de textos para a infância, João Roque, antigo aluno da licenciatura em Ensino de Biologia e Geologia na Universidade de Aveiro, também colabora na imprensa local.

Entrou na UA em 1980 e é professor do quadro de escola desde 1985 - ano de conclusão da Licenciatura em Ensino de Biologia e Geologia. Paralelamente tem-se dedicado a diversas atividades, muitas delas em torno das artes. No final do século passado voltou à UA para o Mestrado em Ensino de Geologia e Biologia, que concluiu em 1999. O gosto pela escrita levou-o a colaborar no jornal local - Timoneiro – e esse envolvimento, durante vários anos, levou-o a assumir mais responsabilidades, até chefe de redação. Foi fundador da Associação para a Defesa dos Interesses da Gafanha da Nazaré (ADIG), associação à qual ainda está ligado. É autarca desde 1993. Nesse ano foi eleito para a Assembleia Municipal de Ílhavo. Faz de novo parte desse órgão autárquico (está no quarto mandato). Integrou ainda a Assembleia de Freguesia da Gafanha da Nazaré, em dois mandatos, um deles como presidente. Foi ainda vereador (da oposição) na Câmara Municipal de Ílhavo durante parte de um mandato. Na escrita foi distinguido com diversos prémios literários, com destaque para o Prémio Matilde Rosa Araújo, no concurso Nacional de Literatura Infantil (Trofa). Foi colaborando em vários projetos na Escola Secundária da Gafanha da Nazaré, como o jornal “O Gafanhoto” ou as “Escolíadas”. 

Quais os motivos que o levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

Sem dúvida, a proximidade. Fiz o segundo ciclo na Escola João Afonso (quando foi inaugurada pelo Presidente da República Américo Tomaz, já a frequentava há um ano) e andei na Escola Secundária Homem Cristo. Acabei por manter-me pelos locais que já conhecia.

Era oriundo de uma família de poucos recursos e tinha três irmãos. Tive isenção de propinas e deslocava-me de bicicleta sempre que não chovia. Fiz uma opção verdadeiramente económica.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

Claramente. Mesmo com as instalações pobres da altura, tínhamos boas condições a nível de equipamentos. Por exemplo, nas aulas práticas, cada um de nós tinha um microscópio moderno para trabalhar. Colegas de outras universidades tinham de partilhar, entre dois ou três alunos, microscópios antigos e sem as condições ideais de funcionamento. A propósito, devo realçar os excelentes técnicos de laboratório que a universidade de Aveiro tinha, quer na Biologia quer na Geologia.

Gostei do curso e das relações humanas que se estabeleceram e que as características da UA da altura favoreciam. No mestrado (1997-1999) vivi uma realidade da UA completamente diferente ao nível de instalações.

O que mais o marcou na Universidade de Aveiro? (algum professor/colega/ episódio?)

Tive uma boa turma, o que ajudou a fazer um percurso sem sobressaltos.

Na altura, a UA era muito pequena. Havia um relacionamento próximo com os professores. Partilhávamos os mesmos espaços, particularmente o bar (só havia outro nas Línguas). Aí confluíam alunos e professores de quase todos os departamentos. Alguns professores eram particularmente próximos dos alunos. Lembro, como exemplo, o Doutor Jorge Rino, da Biologia.

Um dos maiores dilemas que vivi ao longo do curso resultou de uma conversa, naquele espaço, com um outro professor, que viria a ser um grande Reitor. Eu destaquei-me, logo no primeiro ano, na vertente de Geologia e o Doutor Renato Araújo desafiou-me a mudar para um curso que ia abrir – Engenharia Geológica. Acreditem que fiquei tentado, mas acabei por não mudar… na minha maneira de pensar na altura, era perder um ano, quase o mesmo que reprovar. Nem sequer falei disso aos meus pais. Ainda hoje, não sei se fiz a opção certa.

Outra pessoa que marcou a minha passagem pela Universidade andava no curso de Francês-Português. Já a conhecia antes, mas foi no tempo da universidade que começámos a namorar… até hoje. Dos quatro filhos, os três mais velhos passaram pela UA… a mais nova decide no próximo ano. 

Sempre soube qual era atividade principal (professor do ensino secundário) que queria realizar?

Escolhendo a “Licenciatura em Ensino de…” obviamente sempre soube qual iria ser a minha atividade profissional. E gosto de ser professor. No entanto, hoje, é uma profissão muito exigente, mesmo desgastante o que afeta a saúde dos professores. E o corpo docente das escolas está a ficar envelhecido. Quando a minha geração sair das escolas haverá falta de professores, pois não está a ocorrer a renovação geracional que garanta uma continuidade.

Foi fácil tornar-se professor efetivo na Escola da Gafanha? Refira os principais fatores que contribuiu para essa facilidade/dificuldade.

Sou professor efetivo desde 1985 – após a conclusão do estágio da licenciatura, houve um concurso para vagas sobrantes e fui colocado em Cuba. O facto de ter um estágio integrado era uma enorme vantagem. Além desse aspeto mais formal, o acompanhamento de professores da Universidade, garantia a qualidade da formação.

Desde aquela vila alentejana, fui-me aproximando: Canas de Senhorim, S. João da Madeira, Ílhavo e mais tarde Albergaria-a-Velha foram outras terras onde trabalhei. Na altura havia a “preferência conjugal” e a minha esposa pertence ao quadro da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré desde a abertura desta, o que me permitia trabalhar ali mesmo antes de ser do quadro daquela escola. Só não trabalhei lá por três anos da sua existência. Considero que fui um professor com muita sorte.

Como descreve o seu dia-a-dia profissional / as suas atividades atuais?

Aulas, a colaboração na equipa da biblioteca e em vários outros projetos na escola (muitos pela carolice que a burocracia ainda não conseguiu afogar).

Escrever - uma atividade que me faz tão bem, mas que cada vez pratico menos, por falta de tempo. É sobretudo nas férias e interrupções letivas que escrevo de forma mais sistemática. Talvez pela falta de tempo, escrevo sobretudo poesia, que vive mais do momento.

A bicicleta que me leva à escola (e me ajuda a manter a forma, em volta longas, sempre que tenho tempo).

A participação cívica, que não se esgota na participação política. Por exemplo, elaborei duas propostas para o Orçamento Participativo Portugal, uma delas tem a ver com a cobertura do seguro escolar a alunos em bicicleta, que na Escola da Gafanha da Nazaré são a maioria. Vão formosos e não seguros. A outra sobre praias na Ria.

Sei que foi distinguido com um prémio de literatura para jovens. Quer falar um pouco sobre esse livro e sobre o que sentiu com o prémio?

O Prémio Matilde Rosa Araújo que recebi em 2006, com o conto “Pirilampo e os deveres da escola”, foi na área da literatura infantil. Aquele conto deu-me uma longa série de momentos felizes: o primeiro foi logo quando acabei de o escrever - era a minha primeira obra de ficção e senti que tinha escrito algo especial; o momento em que soube, no dia mundial da criança em 2006, que tinha sido um dos premiados; receber das mãos da escritora Matilde Rosa Araújo o primeiro prémio; tudo o que envolveu a apresentação do livro; assistir a um musical com base no conto no Dia do Município da Trofa; visitar várias escolas na qualidade de escritor; ver o livro destacado na Casa da Leitura e no Plano Nacional de Leitura; participar no 6º Encontro Lusófono de Literatura Infanto-juvenil, mais uma iniciativa do Município da Trofa.

E recebeu mais prémios?

Obtive ainda o primeiro prémio no VI Concurso Literário “António Feliciano Rodrigues (Castilho)” na Madeira, com um conto infantil intitulado “O primeiro passo na Lua”. O concurso não era especificamente para literatura infantil, mas optei por enviar um conto nesse registo. Foi publicado numa coletânea que reúne os três contos premiados e as duas menções honrosas. Nos meus sonhos está a publicação deste conto em 2019, num livro ilustrado, na comemoração dos cinquenta anos daquele acontecimento.

Também me deu muito gosto o obtido no Prémio Literário Hernâni Cidade, da Câmara de Redondo. A modalidade a concurso era a poesia: um conjunto de três sonetos.

Além desses, participei pontualmente noutros concursos e tenho visto textos meus publicados em coletâneas em Portugal e no Brasil. Gostaria de salientar o conto “O rio corria calmo – Uma história de violência”, incluído no belíssimo livro “39 Poemas & Contos contra o Racismo”, que agrupa contos e poemas selecionados no Concurso Nacional de Poesia e Conto contra o Racismo.

Os dois últimos textos referidos podem ser encontrados no meu blogue literário: https://infantilidades.wordpress.com

O que mais o fascina nas suas atuais atividades, como professor, autor de livros, autarca/político?

O gosto de criar, seja na atividade profissional, na participação cívica, na pintura, na música ou (e sobretudo) na escrita.

A escrita é algo que me faz falta e a minha é muito diversificada: poesia, contos para crianças, letras para as marchas populares (da Gafanha da Nazaré) ou canções, contos (faço parte de uma tertúlia literária - Et Quoi - que surgiu de um conjunto de alunos do Curso Livre de Escrita Criativa da UA e que já se materializou num livro - enCONTrOS - publicado recentemente).

Que ideia tem dos atuais hábitos de leitura dos jovens? Como promover mais a leitura entre os jovens? Faltam histórias que atraiam os jovens?

Como autor não consigo responder, mas, como professor que faz parte ativa da equipa da biblioteca da escola, posso dizer que há alunos que leem mesmo muito. Infelizmente a maioria lê por obrigação e só se não encontra subterfúgios para fugir às leituras “obrigatórias”.

Com quatro filhos, posso afiançar que é na família que tudo deve começar. Desde bebés lhes lia muitas histórias, lhes oferecia livros adaptados às suas idades. Na infância e adolescência, eram bons leitores. Os meus filhos não temiam vocabulário menos corriqueiro e sempre tiveram facilidade de interpretar textos (o que em muitos alunos é uma enorme limitação).

A leitura tem de ser um prazer… e, nesse particular, nem sempre a escola trabalha no bom sentido. Há muito a fazer. Seria interessante, por exemplo, criar clubes de leitura, mas, com a carga horária que os alunos têm, não é muito viável. E não é fácil que na juventude se tornem bons leitores, se não houver muito trabalho anterior.

Não acho que faltem histórias capazes de atrair os jovens, mas há inúmeras alternativas menos exigentes para ocupar o tempo.

descrição para leitores de ecrã
João Roque na organização das Escolíadas da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré.

Sente que as Escolíadas têm ajudado os alunos a ganharem competências em diversos campos e serem mais criativos na escola? Esse trabalho contribui para melhores resultados escolares?

Estive muito envolvido durante vários anos na coordenação da participação da escola nas Escolíadas. Considero que é um projeto meritório. Não tenho dados que me mostrem melhores resultados escolares dos envolvidos, mas ganham competências: desenvolvem a criatividade, a capacidade de enfrentarem uma plateia, a responsabilidade. A alguns alunos, a experiência das Escolíadas levou-os a repensarem o seu percurso e a mudarem para a área artística.

Este ano a nossa escola tem uma equipa de alunos experientes, autónomos e organizados e os professores que os acompanham têm assistido atentamente, mas mantendo-se um pouco à distância. É sempre melhor quando são eles a tomar as iniciativas e a decidir, desde que sejam capazes de assumir essa responsabilidade… e estes estão a ser.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades?

O curso era especificamente para o ensino e deu-nos uma formação sólida nas várias vertentes do futuro trabalho. Acho que os professores que vinham de uma formação na UA se destacavam pelo caráter abrangente da sua formação, muito ao encontro do que iríamos necessitar no nosso percurso profissional.

Nas atividades paralelas a influência foi reduzida. Como vivia aqui ao lado (na Gafanha da Nazaré, como ainda hoje) quando as aulas acabavam rumava a casa. Não vivi o espírito académico como alguns colegas que estavam deslocados e viviam na cidade, onde tinham facilidade em participar em atividades organizadas para os estudantes ou em simples encontros informais.

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