conteúdos
links
tags
Entrevistas
Antigo aluno UA - António José Trindade, Mestre em Engenharia Física
Físico na Irlanda revoluciona dispositivos optoelectrónicos
António José Trindade
Está na linha da frente na investigação e produção de dispositivos optoelectrónicos três a quatro vezes mais pequenos que o diâmetro de um fio de cabelo humano. Chama-se António José Trindade, é mestre em Engenharia Física pela Universidade de Aveiro (UA) e é cientista na X-Celeprint, a startup irlandesa que está a trazer para o presente o futuro dos ecrãs de micro-LEDs, dos sensores médicos e das comunicações a alta velocidade.

Terminou o Mestrado Integrado em Engenharia Física em 2011 no Departamento de Física da UA. O conhecimento que aí obteve na área dos condutores orgânicos foi fundamental na hora em que, terminado o Mestrado, foi tirar o Doutoramento em Física Aplicada para a Universidade de Strathclyde, na Escócia, onde teve o primeiro contacto com salas de fabrico e produção de dispositivos semicondutores.

Atualmente esta a trabalhar na X-Celeprint, uma pequena startup de especializada na integração de dispositivos optoelectrónicos ultra-miniaturizados (3 a 4 vezes mais pequenos que o diâmetro de um cabelo humano). “Os nossos protótipos podem ter assim um único dispositivo ou milhões destes dispostos em matrizes. Através deste elevado nível de integração heterogénea, estamos a revolucionar áreas críticas para a sociedade como ecrãs de micro-LEDs, dispositivos sensores médicos, armazenamento em discos rígidos, comunicações de alta velocidade, sensores, etc”, explica António Trindade, investigador principal na empresa.

descrição para leitores de ecrã
Na Irlanda ao serviço da X-Celeprint, António José Trindade perscruta o futuro dos ecrãs de micro-LEDs, dos sensores médicos e das comunicações a alta velocidade

Quais os motivos que o levaram a estudar na UA?

Diria que a escolha da UA – na altura – deveu-se mais a razões pessoais que pela história da Universidade em si. Tinha dois dos meus melhores amigos de infância a estudar na mesma e isso motivou-me a querer continuar os meus estudos superiores na UA. Após uma visita rápida ao campus, decidi informar-me mais sobre a instituição em si e os cursos oferecidos nas diferentes áreas. A excelente localização e a própria cidade de Aveiro fizeram o resto para completar a decisão.

O curso correspondeu às suas expectativas?

O curso em muito que excedeu as espectativas iniciais. Havendo na altura duas áreas possíveis (Física ou Engenharia Física), a escolha acabou por cair sobre a segunda pois a componente de engenharia e a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos era-me bastante mais atrativa do que perseguir um curso com uma maior componente teórica. A mais-valia em relação aos anos de estudo foi a aplicabilidade e observação experimental dos conhecimentos adquiridos, que por si, foram fundamentais para aprofundar o gosto pela área e para me motivar a querer saber mais.

E a UA?

Quanto à UA em si, superou as minhas expectativas como instituição de ensino, tanto com os vários profissionais com quem me cruzei ao longo do percurso académico como com as amizades e/ou relações profissionais que ainda hoje se mantêm. A diversidade de tópicos que compõem o curso, os eventos culturais a que os alunos estão expostos durante o ano letivo e as oportunidades de participar em conferências científicas, eventos e a elevada proximidade com indústrias de alta-tecnologia, foram sem dúvida elementos que inesperadamente contribuíram em muito para uma experiência difícil de superar.

O que mais o marcou na UA?

Quem mais me marcou (e marca) ao longo da minha carreira foi o meu orientador (em ambas Licenciatura e Mestrado), o Prof. Dr. Luiz Pereira. Na altura de escolher temas para projeto de Licenciatura, encontrei-me algo perdido sobre que tópico escolher e sondei diversos docentes sobre os diferentes tópicos. O Prof. Luiz na altura disse a palavra OLED e eu fiquei impávido a olhar para ele. Ao invés de me explicar o que era, resolveu levar-me diretamente ao laboratório e ligou um. Bastou-me. De um simples ‘- o que é isso?’ até ao ‘- é isto que eu quero!’ foram menos de 2 minutos. Foi o início de uma excelente amizade e relação que se mantém até aos dias de hoje e que resultou em resultados de referência dos quais acabámos por percorrer o mundo em conferências científicas e que serviram para estabelecer e fortalecer relações existentes com outros grupos e centros de investigação.

A Professora Teresa Monteiro foi também um dos pilares da minha formação no DFis que, embora não tenha sido óbvio (para mim) na altura, acabou por me influenciar e ajudar a tornar num melhor investigador, a querer saber mais e a desenvolver metodologias e abordagens de estudo essenciais ao meu percurso académico e profissional.

Colegas, houve vários que me marcaram e influenciaram de diversas maneiras e mencionar apenas um, seria injusto. O Dr. André Lindo, a Dra. Lara Carramate, o Dr. Vasco Fernandes, o Dr. Bruno Faria, a Eng. Ana Alves são alguns dos colegas com quem tive o prazer e privilégio de estudar e que são hoje, de igual forma, uma referência nas suas respetivas áreas.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Essa pergunta é difícil. Desde a infância que queria ser astronauta mas nunca passou do ‘querer ser’. Depois ao longo do percurso as coisas foram sendo moldadas, mas cedo comecei a revelar querer saber mais. Os meus brinquedos não duravam mais de uma hora. Depois de ver e saber o que eles faziam, aborrecia-me facilmente. Abria-os, analisava os mecanismos, via os circuitos, tinha curiosidade em saber o que está por detrás da utilidade em si. Muitas vezes tentava repará-los (sim, às vezes sem sucesso!) e tentar que fizessem coisas para o qual não estavam designados. E sim, sobravam sempre peças!

No final de contas, posso dizer que não contava estar onde estou hoje. E posso dizer que não quero ficar por aqui. Trabalhar com empresas que são referências mundiais em diversas áreas, conhecer e interagir com pessoas inspiradoras e brilhantes tem sido uma fonte de inspiração, não só em querer fazer mais e melhor, mas em querer dar outros passos maiores.

Como descreve a sua atividade profissional?

Ser investigador numa start-up significa que o que diz no nosso cartão de visita é sempre uma (muito) vaga referência ao total das nossas funções. Dada a importância e o contributo de cada indivíduo nos projetos existentes, é necessário sermos capazes de planear, conceptualizar e especificar experiências e dispositivos. Como estou na área de desenvolvimento de tecnologia, tenho que ser capaz de visualizar (e executar) o processo de fabrico desde conceito inicial (desenhos CAD, características) a protótipo final (dispositivo, caracterização, packaging final).

De igual forma, temos que ser capazes (e autónomos) em especificar e definir projetos, em dizer aos clientes o que é possível e o que não é, em estabelecer prazos e efetuar a gestão do projeto em si. Dado que desenvolvemos tecnologia, é comum irmos a conferências mostrar os últimos resultados, as nossas inovações mais recentes embora seja sempre uma experiência agridoce, pois dado a natureza de alguns projetos/clientes, nunca podemos mostrar realmente tudo...

O que mais o fascina na sua atividade profissional?

A descoberta de algo novo, pela primeira vez. Ver as coisas funcionarem na realidade como funcionaram na nossa imaginação, não há nada melhor que a materialização do que visionámos. Trabalhamos muitas vezes nos limites da física e dos materiais o que implica termos que ser inovadores para garantir que é possível atingir as métricas impostas pelos clientes. Também gosto de quando as coisas não funcionam. Intriga-me descobrir o porquê e planear os passos seguintes.

Mas desenvolver dispositivos que um dia irão beneficiar a saúde de milhões, que irão potenciar novas capacidades e standards de comunicação, que revolucionarão os ecrãs e dispositivos de hoje em dia é certamente das maiores motivações para mim que podem existir.

Depois há a componente de divulgação e interação com clientes. Tenho dado a volta ao mundo duas vezes por ano desde que comecei neste cargo em que é necessário interagir com equipas multidisciplinares, de tamanhos díspares e com especificações (e espectativas) muito diferentes também. Da interação, é preciso perceber o que se pretende atingir e – em tempo real – estabelecer se é fisicamente possível e conseguir especificar os passos necessários para o atingir. Cada reunião com novos clientes é um novo puzzle para ser resolvido e diria que é outra componente altamente apelativa da minha profissão.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade?

O rigor, e o desenvolver de diversas aproximações para os diversos tipos de desafios/problemas que encontro diariamente. Porque estes nunca são iguais entre si, a UA e os seus docentes foram fundamentais na instrução e aprendizagem dos melhores métodos a usar para cada abordagem. Mas acima de tudo, perceber o porquê daquilo que observamos, o que está por detrás, que efeitos tem, teve ou poderá vir a ter pois as condições podem mudar constantemente e não podemos prever que irão funcionar apenas de uma maneira... standard.

imprimir
tags
outras notícias