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Entrevistas
Reitora da UA entre janeiro de 2002 e fevereiro de 2010
Helena Nazaré - a professora globetrotter
Helena Nazaré
Dia 13 de março o Conselho Geral da Universidade de Aveiro (UA) elege um novo Reitor. Até lá, o jornal online da UA recorda as reportagens desenvolvidas na revista Linhas, nas edições de 2012, 2013 e 2014, com a vida e obra dos primeiros reitores da Academia de Aveiro. Helena Nazaré é a antiga Reitora que se segue.

Qual é a diferença entre a avó do Francisco e as avós dos amigos dele? A resposta é tão fácil quanto evidente para o pequeno de 10 anos: a mochila. Não fosse a avó chamar-se Helena Nazaré e dir-se-ia que a criança exagera quando na escola garante a pés juntos que tem uma avó que, tal como ele, anda “sempre, sempre” com a mochila às costas.

Na inocência que a idade vai deixando para trás, o Francisco já começa a perceber que não são livros da escola que a avó carrega. Antes sim umas quantas mudas de roupa e o atarefado passaporte carimbado vezes sem conta.

Não se lhe pergunte em quantos países já esteve. Os dedos das mãos não chegam, mesmo quando multiplicados por três ou quatro. “É preferível perguntar-me aonde é que ainda não estive”. E onde foi? “Nos pólos”. Ri-se. O exagero da resposta é simbólico. Mas, de facto, Helena Nazaré já assentou pé nos cinco continentes e quase, quase que no pólo Norte. “Já estive na Islândia que é lá bem perto”.

Atira para cima do mapa o dedo indicador, sem rumo, sem ordem alfabética, e coloca-o nos países onde já esteve: Costa do Marfim, Gabão, Etiópia, Japão, China, Vietname, Brasil, ex-colónias, Malawi, a Europa de fio a pavio, Austrália, Cazaquistão, Argentina, África do Sul e mais e mais e mais…

Os quilómetros já há muito que os trata por tu. Calcorreou-os quase sempre em trabalho, fosse como estudante, como conferencista e investigadora na área da Física, como vice-reitora e reitora da Universidade de Aveiro ou como avaliadora internacional da Associação Europeia das Universidades (EUA).

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Antalya - Turquia

Neste momento, enquanto estas linhas estiverem a ser lidas, Helena Nazaré estará certamente nalgum ponto do globo, agora na condição de presidente da EUA.

Viajar! Perder países!

Tinha quatro anos quando tirou pela primeira vez os pés do chão. No batismo de voo atravessou África com a família. Moçambique, onde o pai, engenheiro, havia sido colocado em trabalho, recebeu-a ainda sem capacidade para reter memórias. Mas no passaporte do subconsciente ficava carimbada a vontade de muitas mais linhas do horizonte.

Aos 15 anos carregou sozinha, pela primeira vez, a mochila. “A partir daí não parei mais”. Esperava-a a metrópole. Lisboa acolheu-a para continuar os estudos. Na Universidade de Lisboa licenciou-se em Física em 1972.

Regressou depois a Moçambique para lecionar na Universidade Eduardo Mondlane. Em 1975, mais um carimbo no passaporte, desta vez com sotaque britânico. Doutorou-se no King’s College, em Londres. Entre idas e voltas para visitar a família, carimbo atrás de carimbo, o folhear do pequeno livro inseparável dos viajantes começou a ganhar um ritmo intenso.

Depois do doutoramento, em 1978, veio para a UA trabalhar no Departamento de Física. “Nesta área é muito natural que as pessoas se desloquem com frequência em trabalho”. E assim foi.

As conferências internacionais não pararam de chamar por Helena Nazaré. Especialista em espectroscopia de semicondutores, representou pela Europa fora a investigação que na academia de Aveiro, nessa área, se começava a afirmar como referência europeia ainda a UA dava os primeiros passos.

Ser outro constantemente

As culturas, as paisagens, os fusos horários, os hotéis, a vida em mudança a cada saída do avião. Não, Helena Nazaré ainda não teve tempo para refletir sobre a velocidade das paisagens que viu e que vê passar diante os olhos e da forma como elas lhe tocam e a transformam tal como as mãos moldam o barro, serenamente ou de forma estrondosa como a imensa pobreza que viu em África, na China…

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Chiamen - China

Até lá brilham-lhe os olhos quando fala da Turquia, “um museu a céu aberto” onde tem vontade de regressar sempre. Aliás, turismo fora de Portugal só uma vez, precisamente para visitar Istambul, cidade onde já esteve dias sem conta, seja como representante da EUA, seja como professora convidada para falar em conferência sobre o Ensino Superior. De resto, as férias são passadas entre a ria de Aveiro e o Alentejo. Mas já lá iremos.

Regressemos por agora aos países que, de uma forma ou de outra, tocaram Helena Nazaré.

“Qualquer um dos países africanos”, garante. “Mas gostei muito de Cabo Verde. É uma terra maravilhosa e um dos meus países africanos preferidos”. Descreve o fascínio que lhe causou a cultura “daquele povo afável”. Fala com o mesmo carinho de São Tomé e Príncipe.

Atravessa o Atlântico para sublinhar o clima e os cheiros do Brasil, um país que, “sem dúvida nenhuma”, traz no coração.

A viajem da memória continua para oeste. Faz um desvio para sul e diz que de Melbourne e de Sydney, onde em tempos visitou as universidades locais, uma das vezes já como reitora da UA, não guarda grandes recordações. “Talvez as dozes horas de avião até Singapura e mais sete até à Austrália deixem qualquer mortal abananado”, justifica.

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Macau - China

Para norte, fascina-a o Japão “por causa da organização e da capacidade de reação e de trabalho daquele povo, que são notáveis”. Isto apesar de ter confirmado, logo na primeira vez que tocou no país do sol nascente, que “o semblante dos japoneses é fechado” e muito difícil de ser descodificado por um ocidental: “Quando os japoneses transmitem qualquer tipo de emoção é porque as coisas estão muito, muito graves. Ou então sou eu que não sou capaz de perceber o tipo de emoção que é transmitida quando se conversa com eles”.

Na Ásia, recorda o Vietname. “Gostei muito. Talvez tenha sido o país asiático de que mais gostei. Cativou-me a abertura das pessoas. Apesar de não falarem a nossa língua, tentam comunicar connosco, talvez mais até que na China”.

Por a alma não ter raízes

O Francisco tem mesmo razão. A avó é inseparável da mochila. Nem pensar em malas para serem carregadas no porão dos aviões. Não pode arriscar-se a que as companhias aéreas lhe deixem para trás a mala quando faz transbordo. No aeroporto de Roma, por exemplo, é certo e certeiro que tal acontece.

Por isso Helena Nazaré – e isto é um conselho que dá a todos os viajantes – voa sempre e apenas com a mochila que leva junto de si, na cabine de voo. Assim, nunca a perde de vista. E o espaço da malinha chega para o que tem de levar? “Até um limite de 15 dias, consigo levar tudo dentro da mala”, garante, ou não fosse Helena Nazaré uma “pessoa prática”.

A mochila não está sempre pronta. Nem podia, pois uma camisola de gola alta para levar para a Noruega não teria utilidade térmica na Etiópia. Mas na hora da pressa para apanhar o avião, “arrumo tudo e saio de casa em meia hora sem me esquecer de nada”. Faz uma pausa, pensa melhor e corrige a afirmação para “habitualmente não me esqueço de nada”.

Medo de andar de avião? “Não tenho medo nenhum”. Custa-lhe passar o tempo quando vai lá em cima, nas nuvens? “Durmo se for hora de dormir, trabalho no meu computador se for hora de trabalhar. Calmamente. Acho que o trabalho, no avião, até me rende muito”.

É uma viajante de fazer inveja. Nunca apanhou nenhum susto aéreo, dorme com muita facilidade em qualquer hotel e nunca ficou doente – uma conjuntivite em Londres bem resolvida com umas gotas compradas na farmácia não conta. “Sou muito resistente e rija. Nem as doenças tropicais me afetam pois os mosquitos não querem nada comigo”. Ri-se. Ri-se muito. É uma mulher que faz exatamente o que gosta.

Esqueça-se também a sensação de insegurança que se imagine Helena Nazaré a ter em Abis Abeba, a caótica capital da Etiópia, no Rio de Janeiro, foco da grande criminalidade brasileira, ou na Costa do Marfim, onde a morte paira a cada esquina. A regra de ouro para que nada de inesperado aconteça – e isto é outro conselho que dá – é a de, “numa terra que não se conhece, não sair do hotel depois de anoitecer”. E, por falar em ouro, “andando por esse mundo fora percebe-se realmente que há pessoas que têm grandes necessidades financeiras e, portanto, não vale a pena andar com fios ao pescoço”.

Curiosamente, ou não, foi roubada pela primeira e única vez na Europa. No metropolitano londrino, “por culpa própria”, pois levava aberta a viajada mochila, roubaram-lhe a carteira. “Por acaso tinha o bilhete de avião guardado noutro sítio e regressei a Portugal sem problemas”.

Tem também a sorte que não estranhar as mil e uma gastronomias mundiais. Ou quase. O leite de camelo e de cavalo que lhe deram a provar no Cazaquistão “é uma coisa horrível”. Para fazer a simpatia aos anfitriões teve de fazer “um esforço titânico para beber aquilo”. Na China, uma cabeça de galinha, “com bico, crista e tudo”, que lhe apareceu a boiar numa sopa tirou-lhe, literalmente, o apetite: “Deu-me uma náusea tão forte que tive de pegar num cigarro e vir para a janela, senão teria acontecido um desastre autêntico”.

De viver de ver somente!

E para onde viaja no verão quem viaja tanto ao longo do resto do ano? “As minhas férias são em Aveiro. Quem faz esta vida, quando chega a agosto, quer é paz e sossego”, responde cabalmente.

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Pequim - China

É à ria, principalmente, que Helena Nazaré se refere apaixonadamente. Nem o Alentejo, terra dos avós e ao qual regressa durante uns dias todos os anos, tem estatuto de refúgio anual da viajante. “Não, o meu refúgio é a ria de Aveiro. Temos um barco já há muitos anos no qual passeio muito com a minha família”.

O Francisco sabe do que fala a avó. Aos quatro meses de idade já navegava com os avós para a ria. O neto do meio, o João que tem dois anos, já foi iniciado nos prazeres da laguna. E a Sofia, a mais pequena ainda de meses, que se prepare.

“Com o avô pescam e comigo nadam em plena ria à frente de São Jacinto. É uma maravilha”. Suspira. É mesmo dos netos que, naturalmente, mais saudades tem quando está longe.

“Principalmente quando são muito pequenos porque evoluem muito depressa”. Mas Helena Nazaré habitou-se a vê-los um palmo ou dois com mais altura de cada vez que lhes bate à porta nos regressos. E eles, na doce inocência de terem uma superavó que está constantemente a voar, já sabem que na mochila há sempre uma ou outra lembrança de lugares distantes.

Talvez a maior das recordações que o Francisco, o João e a Sofia podem um dia tirar da mochila de Helena Nazaré seja compreenderem que, pelas andanças entre os povos, a avó ganhou a feroz convicção de que “o Homem é basicamente bom e procura relacionar-se de uma forma agradável e construtiva com o seu semelhante”.

Ansiedade de partir cada vez que chega? Não teve ainda tempo de o saber. “Talvez um dia, quando me reformar, sinta essa ânsia”. Por agora, olha para o relógio. O tempo é o de sair outra vez a voar.

A melhor Universidade do mundo

Foi ao serviço da Associação Europeia de Universidades (EUA) que Helena Nazaré mais viajou. Enquanto responsável pelo Programa de Avaliação Institucional daquela associação, a antiga reitora da Universidade de Aveiro visitou dezenas de universidades europeias para, localmente e com cada uma delas, trabalhar em prol de uma cultura de qualidade e de gestão estratégica no Ensino Superior. A sua experiência na EUA valeu-lhe também as portas abertas de múltiplas universidades por todo o mundo. À custa da intransigência que cultiva pela melhoria do Ensino Superior conferenciou nas reitorias dos cinco cantos do mundo.

Que melhor pessoa poderá responder então à pergunta utópica: Se as universidades fossem feitas de legos, que melhores peças de cada uma delas aproveitaria Helena Nazaré para construir a universidade ideal? A resposta chega depois de algum silêncio. “As universidades dependem muito do contexto cultural em que estão inseridas. E uma coisa que funciona aqui em Aveiro poderá não funcionar em França ou em Itália. É preciso haver atenção a estes pormenores”, diz. Depois, acaba por desvendar: “Queria a flexibilidade de gestão que existe na Holanda e talvez juntasse a ela o ensino em inglês que se pratica na Noruega”. Às duas peças juntava-lhe a da “atenção à cultura que há em Itália”. Mas, cuidado, “se eu tirar estas coisas do contexto elas deixariam de fazer sentido”.

Assim, arrisque-se uma questão mais terrena: Qual foi a Universidade que gostou mais de conhecer? Nesta, Helena Nazaré não tem dúvidas e responde célere: “Gostei da Universidade da Rovira i Virgili, porque é de Tarragona, cidade espanhola que adoro por causa do clima, das pessoas, da comida e do ambiente cultural. E porque foi das primeiras Universidades onde participei num projeto de avaliação”.

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Dinamarca

A Rovira i Virgili tem também muito da Universidade Aveiro, por isso a escolha de Helena Nazaré não é inocente. “A Universidade tem uma implantação no terreno muito parecida com a de Aveiro, é muito virada para a região. Tal como nós, desenvolveu-se à custa de um planeamento cuidadoso”, refere.

UA com o coração e a razão

E a Universidade de Aveiro é muito diferente das que tem visitado? Tocou-se-lhe no coração: a UA. “De um modo geral a nossa universidade ombreia com a grande maioria das universidades mundiais. Há coisas que fazemos aqui que têm nível mundial”. O que acaba de afirmar tem garantia da razão: “Não estou a dizer isto cega pelo orgulho. Estou a dizer isto com a convicção do conhecimento”. Sim, diz Helena Nazaré, “há áreas da nossa universidade que são de topo, que foram construídas com sangue suor e lágrimas e que hoje se podem ver”.

Claro que a UA “não se pode comparar ao Massachusetts Institute of Technology, muito embora, proporcionalmente, nós tenhamos a mesma dimensão”. Só que... “temos um décimo do orçamento deles”. A receita é, pois, o antigo e sempre atual financiamento: “Há coisas que dependem também do dinheiro e é escusado taparmos o sol com uma peneira. Se quisermos estar uns lugares à frente, tem de haver dinheiro para isso”.

Nos destinos da Associação Europeia de Universidades

Em março passado tornou-se presidente da Associação Europeia de Universidades (EUA). A cerimónia da tomada de posse da primeira mulher a assumir aquele cargo realizou-se na Universidade de Warwick, em Coventry, no Reino Unido, durante a Conferência Anual da EUA. Aplaudiram Helena Nazaré 900 representantes de universidades associadas, oriundos de 44 países europeus. Foi ‘tão somente’ mais uma etapa da fulgurante viagem que Helena Nazaré tem feito da vida. Por isso, resumir o currículo da antiga reitora da Universidade de Aveiro é matéria ingrata.

O papel nunca chega para retratar os grandes viajantes. Entre a licenciatura em Física pela Universidade de Lisboa, o doutoramento no King’s College, em Londres, e a chegada à UA para liderar o grupo de investigação em Espectroscopia de Semicondutores no Departamento de Física, onde foi diretora, Helena Nazaré cedo se envolveu nas questões do Ensino Superior.

A antiga diretora da Escola Superior de Saúde da UA é membro da direção da EUA desde março de 2009, associação da qual foi vice-presidente até às respetivas eleições do ano passado. Foi presidente do Comité para a Investigação e Transferência de Conhecimento do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e membro do grupo de investigação da EUA. É desde 2004, membro do EUA – Institucional Evaluation Programme (IEP) tendo participado na avaliação de Universidades em Espanha, Turquia, Palestina, Eslovénia e Cazaquistão. Pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico conduziu também avaliações na Catalunha e na Lombardia e na European Association for Quality Assurance in Higher Education fez avaliações em universidades da Galiza e da Finlândia.

Atualmente é também coordenadora da 3ª Comissão Especializada Permanente do Conselho Nacional de Educação, membro do Conselho de Administração da Portugal Telecom, presidente do Conselho Consultivo da Fundação Galp Energia e presidente da Sociedade Portuguesa de Física. O mandato de Helena Nazaré na presidência da EUA termina em meados de 2015. Será, certamente, o fim de mais uma etapa e o princípio de outra viagem.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 17 da revista Linhas

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